quinta-feira, 30 de abril de 2026
“O Brasil construiu, ao longo de décadas, um sistema de educação superior pública e de pós-graduação que é referência na América Latina. Esse patrimônio está sob pressão. Preservá-lo e fortalecê-lo é uma escolha política, e uma escolha que define o tipo de país que queremos ser”, escrevem Francilene Garcia e Soraya Smaili, respectivamente, presidente e vice-presidente da SBPC, para a editoria especial do JC Notícias desta sexta-feira
A ciência brasileira tem endereço. Ela nasce, em sua grande maioria, dentro das universidades públicas, federais, estaduais e municipais, espalhadas por todas as regiões do país. São nesses campi, muitas vezes distantes dos grandes centros, que se formam os pesquisadores, se produz o conhecimento e se constroem as bases do desenvolvimento nacional. Compreender esse fato é o ponto de partida para qualquer debate sério sobre ciência, soberania e futuro do Brasil.
É com esse propósito que a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) lança esta série de edições especiais do Jornal da Ciência, um esforço editorial para tornar visível o que os dados já mostram com clareza: o papel insubstituível das universidades públicas na produção científica nacional e os riscos crescentes que o subfinanciamento impõe a esse sistema.
A série se ancora no Catálogo de Dados do Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência (SoU_Ciência), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), lançado em abril de 2026. Pela primeira vez de forma integrada, o Catálogo reúne dados orçamentários e acadêmicos das universidades federais brasileiras ao longo de uma década e o que eles revelam é ao mesmo tempo impressionante e preocupante.
O Brasil formou, em 2023, mais de 91 mil mestres e doutores, um recorde histórico. As universidades federais concentram cerca de 62% das matrículas na pós-graduação stricto sensu. A produção científica nacional, em mais de 90%, está vinculada a instituições públicas. Esses números colocam o Brasil entre os países com maior capacidade de formação de pesquisadores no mundo.
Mas há um paradoxo grave por trás desse crescimento. Entre 2014 e 2024, o orçamento total liquidado nas universidades federais, corrigido pela inflação, recuou 3,3%, passando de R$ 65,3 bilhões para R$ 63,1 bilhões, enquanto o sistema cresceu de 63 para 69 instituições e as matrículas na pós-graduação avançaram 44,6%. O país expande sua capacidade de formar cientistas ao mesmo tempo em que contrai os recursos que sustentam esse processo.
O colapso dos investimentos em infraestrutura é o dado mais alarmante. Os recursos destinados a laboratórios, equipamentos e edificações caíram aproximadamente 90,5% em uma década, de R$ 1,78 bilhão em 2014 para R$ 168,9 milhões em 2024. As duas principais agências de fomento à pesquisa do país também foram duramente atingidas: a Capes perdeu 54,6% de seus recursos no período; o CNPq, 52,6%.
O que esta série vai mostrar. Esta é a primeira de quatro edições especiais do Jornal da Ciência dedicadas ao tema. Nas próximas publicações, aprofundaremos o debate a partir de três eixos centrais.
Na segunda edição, discutiremos onde nasce a ciência brasileira, com dados sobre produção científica indexada, distribuição regional do conhecimento e o papel estruturante da pós-graduação nas universidades públicas. Na terceira, examinaremos o modelo de ciência em rede representado pelos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) e posicionaremos o Brasil em comparação com outros países em termos de investimento público em ciência e tecnologia. Na quarta e última edição, apresentaremos uma agenda propositiva: o que o Brasil precisa fazer agora para reverter o processo de subfinanciamento, garantir a permanência dos pesquisadores em formação e construir um modelo de financiamento compatível com a centralidade estratégica das universidades públicas.
Soberania científica não se improvisa. O conceito de soberania científica, a capacidade de um país de produzir conhecimento próprio, formar seus pesquisadores e tomar decisões baseadas em evidências nacionais, não se constrói por decreto nem se sustenta sem investimento contínuo. Ele depende de universidades públicas fortes, de agências de fomento com orçamento adequado, de bolsas que permitam a jovens pesquisadores dedicar-se integralmente à ciência e de infraestrutura capaz de abrigar pesquisa de ponta.
O Brasil construiu, ao longo de décadas, um sistema de educação superior pública e de pós-graduação que é referência na América Latina. Esse patrimônio está sob pressão. Preservá-lo e fortalecê-lo é uma escolha política, e uma escolha que define o tipo de país que queremos ser.
Os dados estão disponíveis no Catálogo de Dados SoU_Ciência 2026, de acesso público, neste link. Esta série é um convite à leitura crítica desses dados e ao debate qualificado sobre o futuro da ciência brasileira.
Francilene Procópio Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC
Soraya Soubhi Smaili, vice-presidente da SBPC
Veja abaixo as notas do Especial da Semana – Pós-graduação e financiamento
JC Notícias – Expansão da pós-graduação stricto sensu e restrição orçamentária: o descompasso estrutural das universidades federais
JC Notícias – Universidades federais expandem formação científica sob pressão financeira
JC Notícias – Brasil precisa fortalecer suas universidades para atingir a meta de 40% da população na graduação até 2036
Tatiana Alves – Rádio Nacional, 18/12/2025 – Produção científica brasileira volta a crescer
The Conversation, 25/11/2025 – A ciência resistiu: o papel das universidades públicas brasileiras na pandemia
The Conversation Brasil, 12/01/2026 – Por políticas científicas ousadas: conectando a pesquisa de ponta ao Brasil profundo
Folha de S. Paulo, 05/02/2026 – Plano nacional de pós-graduação mira diversidade e inclusão, mas falta definir orçamento
Fabrício Marques – Pesquisa Fapesp, 09/2025 – Levantamento analisa diversidade racial entre mestres e doutores
Sarah Schmidt – Pesquisa Fapesp, 04/2026 – Avaliação Quadrienal da Capes registra avanço em programas de pós-graduação de excelência
MEC, 02/02/2026 – Pós-graduação brasileira amplia número de programas de excelência
Capes, 25/03/2024 – Ciência precisa de investimentos públicos e privados, destaca Capes
Capes – Capes apresenta avanços da Plataforma Sucupira e integração de dados da pós-graduação
SBPC, 20/01/2026 – SBPC e ABC divulgam nota sobre recomposição do orçamento
Nexo, 01/01/2026 – Os cortes que afetarão as pesquisas brasileiras em 2026
Fabrício Marques – Pesquisa Fapesp, 02/2026 – À procura de equilíbrio
Observatório do Conhecimento – O contingenciamento orçamentário, déficit público e impactos sobre a educação superior brasileira e a ciência e tecnologia
Congresso em Foco, 21/01/2026 – Executivo restitui R$ 977 mi a universidades após corte no Congresso
G1, 10/01/2026 – Universidades federais do RS perdem R$ 44 milhões no orçamento e reitores alertam para “escolhas cruéis”