sábado, 2 de maio de 2026
Publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Falta de verba preocupa cientistas da USP que elaboram vacina contra AIDS

Desafio é conseguir o financiamento mais robusto para o projeto, entre US$ 50 milhões e US$ 100 milhões

Edecio Cunha

Foto: Divulgação

Um grupo de cientistas da Universidade de São Paulo (USP) vem tentando desenvolver uma vacina anti-HIV, totalmente nacional, há mais de uma década. Com sucesso, a vacina passou pelos testes em camundongos e pelos primeiros ensaios em macacos, com financiamentos da FAPESP, CNPq e Ministério da Saúde na ordem de R$ 1,5 milhão. Dados do Ministério da Saúde de 2012 mostram que no Brasil morrem  11,896 mil pessoas com vírus HIV por ano.

O grande desafio é conseguir o financiamento mais robusto para o projeto, entre US$ 50 milhões e US$ 100 milhões, ou equivalente a cerca de R$ 250 milhões, para que sejam realizados os testes definitivos de eficácia da vacina em humanos – segundo informou Edecio Cunha Neto, pesquisador do Instituto do Coração (Incor), professor do Laboratório de Imunologia da USP e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI). Ele reconhece que essa é uma parte “extremamente onerosa” da pesquisa científica.

Segundo o cientista, a vacina passará ainda por duas fases de testes em macacos, especificamente em animais da mesma colônia, a Rhesus, do Instituto Butantan, em São Paulo, sobre os quais foram realizados os primeiros testes em fevereiro.

“Os resultados foram animadores e temos ainda mais duas etapas de testes com macacos Rhesus. Depois, daqui a dois ou três anos, pretendemos fazer o primeiro ensaio em humanos”, disse o cientista, após participar de reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), na unidade da Rua Maria Antonia, realizada em 14 de novembro com as sociedades científicas sobre o declínio do financiamento à pesquisa científica no Brasil.

Segundo o cientista, por enquanto, o projeto dessa vacina é o único patenteado na comunidade europeia e nos EUA. “Alguns grupos brasileiros  estão testando vacinas anti-HIV, mas que foram criadas fora do Brasil”, afirma.

Para fazer frente aos próximos testes da vacina com macacos, o grupo de cientistas busca financiamento da ordem de R$ 3 milhões que serão solicitados à Fapesp em breve.

Declínio dos recursos do FNDCT

O vice-presidente da SBI demonstra preocupação com a redução de financiamento à pesquisa científica no Brasil, principalmente com o esvaziamento dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), até então a principal fonte de recursos para desenvolvimento, pesquisa e inovação. O Fundo é vinculado ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e as informações são de que os recursos estão sendo canalizados para o fomento do Programa Ciência sem Fronteiras.

“Queremos reverter esse quadro de declínio dos recursos para pesquisa, para que os grupos de excelência e os grupos emergentes possam fazer seu papel e melhorar ainda mais o desempenho do Brasil na área de ciência. E também melhorar a condição de produção de tecnologia e patentes”, analisou o cientista.

Diante da redução de recursos para o fomento à pesquisa científica, Cunha Neto considera difícil estimar quando a vacina anti-HIV poderá ser disponibilizada para programas de imunização do vírus. Isso porque, ele avalia, a vacina precisa passar pela chamada fase 3 do ensaio clínico. Trata-se de um teste realizado com “milhares de pessoas” para saber se o grupo vacinado registrou menos infecções em relação ao que não foi vacinado. Na prática, esse teste mensura a eficácia da vacina. Essa etapa, porém, requer recursos significativos, na ordem de US$ 50 milhões a US$ 100 milhões, ou até R$ 250 milhões.

“Para testar a eficácia dessa vacina seria necessário um grande financiamento, que só o governo ou talvez um laboratório farmacêutico poderia se interessar”, avalia o cientista.

O cientista, entretanto, ainda não vê interesse por parte do governo e nem da indústria para as etapas mais onerosas da vacina, apesar de o projeto ter recebido financiamento para as etapas iniciais da pesquisa e os testes dessa vacina tenham demonstrado resultados positivos até agora.

“A gestação de uma vacina, principalmente contra HIV, tem alto risco de não funcionar. Então, a chance maior de haver interesse da indústria pela vacina seria quando tivéssemos os resultados dos primeiros testes em humanos, os da fase 1, para saber se a vacina é segura e se ela induz respostas imunes à população.”

Vontade política

Nesse caso, o cientista avalia que o governo teria mais condições de apoiar um projeto de tamanha magnitude. “Mas teria de haver vontade política”, cutuca Edecio Cunha Bueno. Procurado pela reportagem, o Ministério da Saúde não deu retorno até o fechamento da matéria.

Conforme entende o cientista, será difícil a indústria farmacêutica se interessar em investir nesse projeto, em decorrência da forte concorrência. Segundo ele, existem cerca de 30 testes clínicos em andamento de vacinas candidatas em estágio de testes em humanos.

“Para que nossa vacina seja competitiva deveríamos já ter em mãos o resultado dos testes em humanos”, afirma.

O cientista esclarece que há outras condicionantes “complicadas”, que podem interferir na viabilidade de comercialização da vacina. Uma delas é o alto custo de produção em relação ao risco da vacina não apresentar rentabilidade para indústrias farmacêuticas. Segundo ele, o lançamento de um remédio, desde a concepção até a licença para uso humano, consome mais ou menos US$ 500 milhões. As empresas, porém, podem obter retorno de bilhões de dólares pela exclusividade de comercialização do produto enquanto durar a patente.

O problema, na visão do cientista, é que os principais consumidores dessa vacina são países de renda média ou muito baixa, o que torna difícil a perspectiva de se obter lucro com esse projeto.

Viviane Monteiro/ Jornal da Ciência/matéria publicada dia 05/12/2014