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	<title>Jornal da Ciência &#187; Entrevistas</title>
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		<title>“O capitalismo não vai fazer uma manobra biocêntrica, ele é alimentado pela fúria do consumo”</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Jan 2026 19:15:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Vivian Costa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>

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		<description><![CDATA[Primeiro indígena eleito imortal da Academia Brasileira de Letras, Ailton Krenak alerta sobre ausência de compromissos efetivos na agenda climática global e desconexão da humanidade com o planeta. Entrevista faz parte da nova edição do Jornal da Ciência Especial, disponível para download gratuito

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				<content:encoded><![CDATA[<p><em>Primeiro indígena eleito imortal da Academia Brasileira de Letras, Ailton Krenak alerta sobre ausência de compromissos efetivos na agenda climática global e desconexão da humanidade com o planeta. Entrevista faz parte da nova edição do Jornal da Ciência Especial, disponível para download gratuito</em></p>
<div id="attachment_28937" style="width: 310px" class="wp-caption alignright"><a href="http://www.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2026/01/foto_entrevistaJCE.png"><img class="size-medium wp-image-28937 img-responsive" src="http://www.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2026/01/foto_entrevistaJCE-300x168.png" alt="Foto: ABL Divulgaçao" width="300" height="168" /></a><p class="wp-caption-text">Foto: ABL Divulgação</p></div>
<p>Eleito para a Academia Brasileira de Letras em outubro de 2023 e empossado em abril de 2024, Ailton Krenak, 72, tornou-se o primeiro indígena a ocupar uma cadeira na instituição em seus 128 anos de história. O escritor, que tem obras traduzidas para 19 idiomas e publicadas em dezenas de países, consolidou-se como uma das vozes mais expressivas do pensamento brasileiro contemporâneo sobre a crise climática e os limites do modelo de desenvolvimento capitalista.</p>
<p>Autor de “Ideias para adiar o fim do mundo” e “A vida não é útil”, Krenak há décadas alerta sobre o caráter predatório da economia que trata a natureza como recurso infinito. Desde seu icônico discurso na Assembleia Constituinte de 1987, quando pintou o rosto com tinta de jenipapo em defesa dos direitos indígenas, até suas intervenções recentes, o líder krenak mantém uma crítica radical ao que chama de “fúria do consumo” que alimenta o capitalismo e impede qualquer manobra genuinamente voltada à vida.</p>
<p>Krenak decidiu não participar presencialmente da COP30, em Belém. Mas sua presença se faz sentir de outra forma: como curador da exposição “Você já escutou a Terra?”, em cartaz no Museu do Estado do Pará até fevereiro de 2026, ele propõe uma experiência imersiva de escuta biocêntrica, um convite para que o público reflita sobre a relação entre humanos e o planeta reconhecendo todas as formas de vida como igualmente valiosas.</p>
<p>Nesta entrevista ao <em>Jornal da Ciência</em>, Krenak explica por que enxerga as Conferências do Clima como megaeventos esvaziados de compromissos concretos, critica o discurso corporativo de sustentabilidade, e defende que é preciso dissociar a discussão climática da ideia de desenvolvimento e progresso.</p>
<p>*</p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">Jornal da Ciência &#8211; Sobre a realização da COP30 em Belém, é possível ter alguma expectativa em relação ao que vai restar de legado para o Brasil e para o mundo?</strong></p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">Ailton Krenak - </strong>Grandes eventos provocam nas pessoas essa incômoda questão sobre qual legado vão deixar. O primeiro é a própria infraestrutura, porque veem muito gasto, muita grana rolando, muita agitação. E ficam pensando: “depois, quando isso passar, vai ficar só um monte de coisa para a gente limpar”. Jogos Olímpicos no Rio, Pan-Americano, construção de estádios… a gente só confirma que estamos mesmo nos tornando o espetáculo, globalmente.</p>
<p>O mais importante de cada evento parece que é essa parte espetacular, não o conteúdo que se discute. No caso da COP30, me incomodava ela se tornar um balcão de negócios. Como a gente estava metido numa crise de relação com os Estados Unidos, e pela própria situação de os Estados Unidos se retirarem do Acordo de Paris e descumprirem outros protocolos, a agenda formal da Conferência do Clima foi se esvaziando. E o que foi ficando foi só a ideia de um megaevento.</p>
<p>A Conferência do Clima deveria ter foco nos compromissos assumidos em todas as conferências até agora, num balanço do que já foi feito, e não uma sucessão de encontros espetaculares mundo afora. Tem gente que gosta muito de fazer turismo, lota um avião aqui e vai para Dubai. Eu nunca fui a Dubai. Eu me lembro do poema do Manuel Bandeira: “Vou-me embora pra Pasárgada”. Tem gente que, diante do clima incontornável, prefere ir para Pasárgada.</p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;"> JC &#8211; E como o senhor vê essa movimentação toda em torno do evento?</strong></p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">AK - </strong>A mobilização interna no nosso país é grande. Eu até vi o príncipe William (da Inglaterra) plantando mudas de árvores numa das comunidades que ele foi visitar, lá para o lado de Belém. Então, virou um palco para celebridades. Mas essa movimentação não resulta em compromissos efetivos para a gente mudar, por exemplo, a infraestrutura das nossas cidades, que têm uma participação muito grande na questão do aquecimento global e nas crises internas com relação ao clima.</p>
<p>Por exemplo, as inundações que a gente viveu em algumas regiões — Porto Alegre é a mais emblemática —, não foi feito nada até agora para, no caso de uma nova inundação, aquelas pessoas não morrerem atoladas na lama. Isso é só um exemplo bem gritante. Os outros são as crises sociais que nós vivemos internamente em grandes metrópoles e que não são percebidas como crise do clima.</p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">JC &#8211; Como essas crises urbanas se conectam com a questão climática?</strong></p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">AK - </strong>Quando você tem que remover comunidades inteiras de mangue ou de periferias urbanas, você faz essa remoção sem levar em conta que nós não temos mais a possibilidade de sair levando gente de um canto para outro sem considerar eventos climáticos extremos. A violência com que são tratadas as comunidades que habitam territórios abandonados pelas políticas públicas tem a ver com crise do clima, com falta de água, com a elevação das temperaturas, porque nossos organismos estão imersos nesse ecossistema.</p>
<p>A gente não pode imaginar o clima separado da nossa pele, da nossa experiência, daquilo que o jornal no rádio chama de sensação térmica. Você está dentro do táxi deslocando para um lado e para o outro, o cara vira e fala que a sensação térmica hoje é de 60°C. Está todo mundo derretendo feito lesma no asfalto. Mas as pessoas não associam esse sofrimento com a crise do clima.</p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">JC &#8211; O que se pode dizer sobre o papel do modelo de desenvolvimento que temos e sua parcela de culpa nessa crise? Como a gente pode tentar, de alguma maneira, reverter essa situação?</strong></p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">AK - </strong>A ministra Marina Silva já há algum tempo reclama a formulação de um plano para a Amazônia, para a economia daquela região, que ela chama de bioeconomia. E, internamente ao governo, parece que a voz da ministra não consegue mobilizar muitas intenções ou muitos propósitos, tanto do ponto de vista da economia quanto do ponto de vista da agroindústria, desse pacote que faz o PIB brasileiro. Não parece que há interesse em promover a chamada transição energética necessária para que a gente diminua a produção de efeitos negativos para o clima em geral e a emissão de CO<sub>2</sub>.</p>
<p>Enquanto isso, a gente tem os outros ministros querendo abrir estrada, tirar ouro, minerar e furar para extrair petróleo. O meio ambiente leva de 7 a 1 nessa. Então, qual é mesmo a mensagem que o governo Lula, nesse mandato, está nos passando quando eles afirmam que vai ter prospecção de petróleo na Margem Equatorial? Essa coisa de Margem Equatorial, já falei que é um eufemismo para eles não dizerem que vão furar na Amazônia.</p>
<p>As comunidades ribeirinhas e indígenas temem por um novo Belo Monte. E Belo Monte foi denunciado intensamente antes de acontecer, mas aconteceu na marra. E agora nós estamos com os prejuízos para serem administrados, com a vida transtornada daquelas comunidades e um projeto de produção de energia a partir daquela grande barragem que se mostrou ineficiente.</p>
<p>A água do Xingu não é suficiente para mover todas as turbinas de Belo Monte. E algumas delas estão já ficando desativadas. Os debates da SBPC na década de 90 e depois no começo desse século alertavam exatamente para a fragilidade daquele ecossistema e para a necessidade de a gente repensar a construção de grandes barragens na Amazônia. A gente não parou.</p>
<p>Se você for olhar na mesa do Ministério de Minas e Energia, está cheio de projetos lá que vão incidir sobre os rios. E vão continuar com esse discurso de que a energia produzida a partir das hidrelétricas é limpa e que a transição energética pode esperar mais um pouco, quem sabe até 2040, 2050. Até lá, nós vamos torrar. Os financistas, os trambiqueiros, o pessoal que explora o mercado financeiro, eles fogem, eles vão para algum lugar com temperatura agradável.</p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">JC &#8211; Mas aí todos perdem — e eles não teriam nem a quem explorar… </strong></p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">AK - </strong>Mas eles são negacionistas. O negacionismo está permeando as relações com a economia, com a ideia de mercado, com a ideia de sucesso de um país. Um país aparece como sucesso quando ele explora os seus chamados recursos naturais de maneira competente, como dizem, e que produzem efeitos na economia. Nem sempre isso vai junto com a qualidade de vida das pessoas, nem dos trabalhadores, nem dos desempregados em geral.</p>
<p>E eu tento dissociar essa discussão com relação ao clima da ideia de desenvolvimento ou progresso. Se você insistir na ideia de desenvolvimento e progresso você está botando ficha na predação e na exaustão de recursos não renováveis. Um rio não é um recurso renovável. É mentira dizer que um rio é um recurso renovável. Então, hidrelétricas não podem ser vistas como um recurso limpo ou renovável. Isso aí é uma mistificação.</p>
<p>Eu costumo dizer, inclusive, que o discurso da sustentabilidade é um mito corporativo. As corporações adoram dizer que tudo é sustentável. Um carro é sustentável. Eles estão vendendo esse carro elétrico aqui no Brasil e dizem que ele é sustentável. Eu não sei de onde é que eles tiraram o ferro para fazer o chassi, a lataria e todo o resto. Só porque eles botaram uma tomada elétrica nele, ele virou sustentável. Fazem propaganda descarada sobre isso, e a gente deveria ter um controle desse tipo de publicidade mentirosa. Dizer que um carro é sustentável é achar que a gente é realmente incapaz de distinguir uma coisa da outra.</p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">JC &#8211; O sr. comentou a questão da bioeconomia, e vemos que existe todo um esforço para fazer com que ela seja harmônica com os saberes tradicionais indígenas. Qual é o caminho que a gente tem que percorrer para uma conciliação desses modos de vida? </strong></p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">AK - </strong>Dentro de um amplo sistema da economia global, que é o capitalismo, essa ideia de equilíbrio, de moderação na exploração das fontes de energia e de subsistência no mundo todo parece que não é prioridade. O capitalismo não vai fazer uma manobra biocêntrica, voltada à vida, porque ele é alimentado por essa fúria do consumo. As sociedades são estimuladas cada vez mais a querer tudo, a consumir tudo.</p>
<p>Nós mesmos somos cooptados o tempo inteiro pela ideia de trocar itens, trocar coisas, trocar o chuveiro, trocar a bateria, trocar a geladeira, trocar o sapato, trocar tudo, trocar o carro. Hoje tem família que tem três, quatro carros. O principal direito dos humanos é o direito ao consumo. Nós viramos uma sociedade perdulária que come tudo e pisa na terra como se fôssemos os reis do mundo, e é por isso que nós estamos metendo o pé no Antropoceno, um efeito indelével na Terra.</p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">JC &#8211; Como avalia o momento dos povos indígenas nessas discussões? Eles estão bem-posicionados?</strong></p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">AK - </strong>Eu acredito que se os outros segmentos da sociedade brasileira tivessem a mesma preocupação [dos indígenas] com a questão do clima, já teriam avançado para o entendimento de que todos nós habitamos biomas no território brasileiro, que são a Mata Atlântica, o Cerrado, a Caatinga, além da Floresta Amazônica, obviamente, e outros biomas, e iam começar a pensar naquele córrego que corre lá na sua vila, na sua cidade, como alguma coisa de interesse comum que deveria ser protegida. Os povos indígenas têm essa consciência, mas são uma minoria tão ínfima que os córregos acabam se transformando em esgoto; os igarapés, em depósitos de mercúrio e outros rejeitos do garimpo e da agricultura.</p>
<p>A maioria das pessoas não se toca que o Cerrado está sendo devastado para implantar a monocultura da soja e outros grãos, ou que esse imenso contingente de pessoas, que estão perdendo seus lugares de origem, se alegra com o anúncio de safras cada vez maiores, por estarem ampliando o uso da terra em lugares onde ainda não havia exploração.</p>
<p>Se o Brasil continua batendo todos os rankings de maior produtor de grãos, não é porque a gente faz isso com mais expertise, é porque outros povos não têm o tanto de terra nova para “comer” como nós temos. O agro é pop, tão pop que monta uma bancada no Congresso e não deixa acontecer nada que eles não queiram. Eles já aviltaram o Código Florestal para liberar geral. A porteira está aberta e o agronegócio festeja.</p>
<p>A hora que você tira a floresta, é como se restasse só a nata da terra. Aquela nata da terra é comida pelo agronegócio, e depois eles socam veneno no corpo da terra para extrair mais e nós vamos transformando essa camada abundante de solo em um carpete cheio de agrotóxico. O Brasil continua sendo o país que mais importa veneno para a agricultura e o que mais exporta produtos de áreas novas, desmatadas.</p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">JC &#8211; Essa desconexão que a gente tem com o ambiente, com os rios, com a terra, tem até um componente espiritual. Estamos também ficando doentes por essa desconexão com o imaterial?</strong></p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">AK - </strong>Os meus textos, as minhas falas públicas sempre reclamam o chamado direito da natureza. Isso não é uma perspectiva só material, ela é uma perspectiva também, obviamente, que toca a sensibilidade, a subjetividade.</p>
<p>Belém tem uma exposição, desde outubro, chamada “Você já escutou a Terra?”. A curadoria é minha. Tem um discurso sobre a necessidade de a gente fazer uma manobra biocêntrica, de a gente se voltar à vida, à vida da Terra, que eu há muito tempo anuncio que é um organismo vivo. Gaia é um organismo vivo!</p>
<p>Se a gente quiser continuar tratando a Terra como uma plataforma física, nós vamos, antes de acabar com o planeta, acabar com a espécie dos humanos. Se a gente não fizer uma manobra saindo do Antropoceno e buscar uma perspectiva biocêntrica de habitar o planeta, nós vamos ser expulsos daqui como um organismo estranho, como um vírus.</p>
<p><em>Gabriel Alves – Jornal da Ciência</em></p>
<p><a href="https://www.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2025/12/JC_814.pdf"><strong style="font-weight: bold !important;"><em>A edição completa está disponível para download gratuito neste link. Acesse e compartilhe!</em></strong></a></p>
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		<title>“Não existe projeto de país sem ciência pública, diversa e espalhada por todo o território”</title>
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		<pubDate>Fri, 30 May 2025 15:29:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Vivian Costa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias da SBPC]]></category>

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		<description><![CDATA[Em entrevista ao JC Notícias, a vice-presidente da SBPC, Francilene Garcia, comenta os principais pontos do seminário “Vozes da Ciência” e analisa os avanços institucionais para concretização da nova Estratégia Nacional de CT&#038;I]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><em>Em entrevista ao JC Notícias, a vice-presidente da SBPC, Francilene Garcia, comenta os principais pontos do seminário “Vozes da Ciência” e analisa os avanços institucionais para concretização da nova Estratégia Nacional de CT&amp;I</em></p>
<div id="attachment_26751" style="width: 310px" class="wp-caption alignright"><a href="http://www.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2025/04/Francilene-Procópio-Garcia_1-1.jpg"><img class="wp-image-26751 size-medium img-responsive" src="http://www.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2025/04/Francilene-Procópio-Garcia_1-1-300x200.jpg" alt="Francilene Procópio Garcia_1 (1)" width="300" height="200" /></a><p class="wp-caption-text">Foto: Jardel Rodrigues/SBPC</p></div>
<p>Em dois dias intensos de debates e trocas de experiências, o seminário “Vozes da Ciência” reuniu representantes da academia, do setor produtivo e de diferentes esferas do governo para discutir caminhos concretos para o futuro da ciência no Brasil. Promovido pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em parceria com a Academia Brasileira de Ciências (ABC), o encontro, realizado nos dias 22 e 23 de maio, teve como foco a construção coletiva da nova Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação para a próxima década.</p>
<p>Entre as pessoas que vêm contribuindo de forma consistente para esse processo está a professora Francilene Garcia, vice-presidente da SBPC, que esteve à frente da organização do seminário e também coordenou a sistematização do Livro Violeta — documento que reúne 150 recomendações surgidas durante a 5ª Conferência Nacional de CT&amp;I.</p>
<p>Garcia destaca nesta entrevista os consensos institucionais alcançados até aqui e os próximos passos necessários para transformar recomendações técnicas em políticas públicas efetivas. “O Vozes da Ciência mostrou que não queremos só o processo de escuta — queremos transformar a escuta em política”, afirma.</p>
<p>Para ela, garantir representatividade no grupo de trabalho anunciado pelo MCTI no evento, recompor os investimentos na ciência básica e fortalecer a articulação interinstitucional são ações fundamentais para consolidar uma política científica duradoura, plural e conectada aos desafios do país.</p>
<p>Outro ponto que, segundo Garcia, precisa ganhar força na Estratégia Nacional é o debate sobre novas fontes de financiamento para a ciência, especialmente por meio da filantropia. Ela destaca que esse mecanismo já conta com respaldo legal no Brasil, mas ainda é pouco explorado como instrumento de apoio a pesquisas de interesse público e ações estruturantes do sistema nacional de CT&amp;I.</p>
<p>Ao comentar temas como a valorização dos saberes tradicionais, a regionalização da pós-graduação e a aproximação entre academia e setor produtivo, a vice-presidente da SBPC reforça que a ciência brasileira só poderá avançar se estiver enraizada no território, na diversidade e no interesse público. “Não existe projeto de país sem ciência pública, diversa e espalhada por todo o território”, diz.</p>
<p>Confira a entrevista a seguir:</p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">Jornal da Ciência &#8211; Professora, desde 2023, a senhora tem participado ativamente da construção da 5ª Conferência Nacional de CT&amp;I, coordenou a sistematização do Livro Violeta e, na última semana, realizou, em parceria com a ABC, o seminário Vozes da Ciência. A partir desse percurso, especialmente do seminário, o que mais lhe chamou atenção na forma como diferentes setores — academia, governo, setor produtivo — têm se engajado na construção de uma nova Estratégia Nacional de CT&amp;I? Já é possível vislumbrar sinais concretos de avanço institucional?</strong></p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">Francilene Garcia - </strong>O que mais me chamou atenção foi essa confluência de vozes em torno de uma ideia muito forte: não existe projeto de país sem ciência pública, diversa e espalhada por todo o território. Tanto a academia, quanto o governo e o setor produtivo mostraram que estão dispostos a dialogar e construir juntos. E sim, já vemos avanços concretos. O próprio anúncio da ministra Luciana Santos sobre o lançamento do grupo de trabalho que vai elaborar a Estratégia Nacional e o Plano Decenal é um bom exemplo. O Vozes da Ciência mostrou que não queremos só o processo de escuta, queremos transformar a escuta em política. Isso é um passo importante.</p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">JC -</strong> <strong style="font-weight: bold !important;">Como garantir que esse grupo de trabalho anunciado pelo MCTI permaneça alinhado aos consensos construídos na 5ª CNCTI e no Livro Violeta — e que consiga transformar essas diretrizes em ações concretas, sem perder de vista a coerência e a articulação necessárias para uma política nacional robusta e duradoura?</strong></p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">FG - </strong>A chave é ter representatividade. Esse GT precisa incluir representantes do ambiente institucional plural que participou da 5ª CNCTI, que contribuiu na construção do Livro Violeta. O Livro tem que ser o guia, não só uma referência. Transparência, escuta constante e compromisso com resultados também são essenciais. E claro, que haja articulação entre ministérios, estados e planejamento de médio e longo prazo. Esperamos que a comunidade científica esteja bem representada nesse grupo.</p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">JC -</strong> <strong style="font-weight: bold !important;">O seminário abriu com uma discussão sobre ciência básica, sua importância para a autonomia e desenvolvimento de tecnologia e inovação no Brasil. Como a senhora avalia a capacidade do País de recompor investimentos nessa base do sistema nacional de CT&amp;I, especialmente diante de um cenário de contingenciamentos frequentes e orçamento público restrito, como estamos vendo agora nas Universidades Federais?</strong></p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">FG - </strong>A ciência básica é a base de tudo, é o que sustenta a soberania de um país. Mesmo com as restrições orçamentárias, vejo uma consciência renovada sobre a importância de recuperar os investimentos, com previsão estável e duradoura. A gente precisa de metas claras para essa recomposição. E, também, temos que discutir novas fontes de financiamento. Um ponto que deve entrar com força na Estratégia é a filantropia para a ciência, que já tem respaldo legal, mas ainda é pouco aproveitada no Brasil.</p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">JC -</strong> <strong style="font-weight: bold !important;">A mesa dedicada às Unidades de Pesquisa do MCTI trouxe reflexões importantes sobre o papel estratégico dessas instituições e os desafios que enfrentam, como perdas de quadros técnicos, limitação orçamentária e necessidade de maior articulação interinstitucional. Entre as propostas debatidas —recomposição do orçamento, criação de novos institutos, inclusão de representantes no grupo de trabalho da Estratégia Nacional e fortalecimento da governança —, quais a senhora acredita que podem ser ativadas de imediato no âmbito do MCTI? E quais ainda exigem articulação política em instâncias superiores?</strong></p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">FG - </strong>Três coisas podem começar já: colocar representantes das unidades no GT, reforçar a governança e a articulação entre instituições, e inserir as unidades nas missões prioritárias nacionais. Já as partes de orçamento e criação de novos institutos exige mais: precisa negociar com a Fazenda, conversar com o Congresso. São mudanças maiores, estruturais.</p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">JC -</strong> <strong style="font-weight: bold !important;">A valorização dos saberes tradicionais e sua integração com o conhecimento científico foram destacadas nas discussões sobre biodiversidade, Amazônia, justiça socioambiental e mudanças climáticas. Como a senhora avalia a abertura do sistema nacional de CT&amp;I para acolher essas epistemologias como fontes legítimas de inovação e formulação de políticas públicas? Que caminhos ainda precisam ser percorridos?</strong></p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">FG - </strong>De forma consensual e muito forte no seminário ouvimos que não há futuro justo e sustentável sem integrar os saberes tradicionais ao conhecimento científico. É preciso transformar o conhecimento biocultural em política de Estado. A formação de pesquisadores locais, infraestrutura de pesquisa instalada na Amazônia e uma mudança de mentalidade no sistema são caminhos fundamentais. Ainda tratamos essas epistemologias como exceção, quando elas são potências.</p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">JC -</strong> <strong style="font-weight: bold !important;">A formação de pesquisadores e o futuro da pós-graduação apareceram como temas fundamentais nos debates, ao lado da fuga de cérebros e da concentração da produção científica em algumas regiões do país. Que propostas a senhora destacaria para enfrentar esse duplo desafio: valorizar os jovens cientistas e garantir que encontrem oportunidades relevantes em todo o território nacional?</strong></p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">FG - </strong>Valorizar jovens pesquisadores significa garantir bolsas dignas, trajetórias profissionais estáveis e inclusão efetiva nos ambientes acadêmicos e científicos. Para isso, é fundamental ampliar os investimentos e criar mecanismos que reconheçam o mérito e a diversidade regional, étnica e temática. A concentração da produção científica em algumas regiões do país é um problema histórico que só será superado com políticas de indução territorializadas. Isso implica investir em redes de cooperação entre universidades, ampliar a oferta de programas de pós-graduação nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste e criar incentivos para a fixação de pesquisadores fora dos grandes centros.</p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">JC -</strong> <strong style="font-weight: bold !important;">Uma das diretrizes mais enfatizadas tanto na 5ª CNCTI quanto no seminário Vozes da Ciência é a necessidade de aproximar o setor produtivo da academia, superando barreiras históricas entre pesquisa, mercado e sociedade. Por que, na sua avaliação, o mercado ainda permanece — salvo algumas exceções — distante das instituições de produção de conhecimento, mesmo com os incentivos da Lei do Bem e os avanços do Marco Legal da CT&amp;I? O que falta para que, no Brasil, boas pesquisas se convertam em soluções concretas que gerem inovação, empregos e bem-estar social?</strong></p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">FG - </strong>O Marco Legal ajudou, mas ainda falta uma cultura de cooperação mais estruturada. O seminário destacou que a indústria nacional precisa assumir um papel ativo, investindo em P&amp;D e ancorando a inovação no interesse público. É preciso também repensar os mecanismos de incentivo, garantindo que cheguem à base produtiva, especialmente à indústria emergente e inovadora. Além disso, as estruturas de pesquisa e inovação no Brasil ainda estão concentradas em poucos polos regionais, dificultando o acesso de empreendedores de outras regiões aos ambientes de inovação. Falta uma política mais assertiva de mediação tecnológica, que conecte os ativos das universidades às demandas concretas do mercado e da sociedade — com foco no interesse público.</p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">JC -</strong> <strong style="font-weight: bold !important;">O Livro Violeta é resultado de um processo amplo, plural e tecnicamente robusto, com mais de 500 propostas sistematizadas em 145 diretrizes prioritárias. Mas, como mostram os casos dos Livros Verde, Branco, Amarelo e Azul, transformar recomendações em políticas públicas efetivas exige mais do que bons diagnósticos. Como evitar que esse novo esforço saia, efetivamente, do papel? Quais são, na sua visão, os próximos passos para que o Livro Violeta se traduza em ações concretas?</strong></p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">FG - </strong>O Livro Violeta precisa ser vivo. Isso significa ter uma governança ativa, diretrizes incorporadas na Estratégia e no Plano Decenal, metas mensuráveis e orçamento compatível. E não pode ser só coisa de Governo Federal. Estados, setor privado, sociedade civil têm que estar juntos na implementação. A execução precisa ser acompanhada, avaliada e ajustada.</p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">JC -</strong> <strong style="font-weight: bold !important;">Por fim, a SBPC e a ABC reafirmaram o compromisso com a continuidade do processo iniciado na 5ª CNCTI, e a SBPC seguirá promovendo debates para manter viva essa agenda estratégica. Que ações estão sendo planejadas para envolver universidades, governos estaduais, o setor produtivo e a sociedade civil nos próximos anos — e de que forma a comunidade científica pode participar ativamente dessa construção coletiva?</strong></p>
<p><strong style="font-weight: bold !important;">FG - </strong>A SBPC e a ABC estão comprometidas com a continuidade. Teremos novas edições dos &#8220;Vozes da Ciência&#8221; abordando novos temas, reuniões estaduais de CT&amp;I, e outros espaços de diálogo com o setor produtivo e gestores. A comunidade científica tem papel-chave: se engajar nos debates locais, produzir subsídios e cobrar a execução das diretrizes da CNCTI.</p>
<p>Daniela Klebis – Jornal da Ciência</p>
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		<title>Políticas para a Amazônia, neoindustrialização e mudanças estruturais na pós-graduação são destaques nos debates da 5ª CNCTI</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Aug 2024 17:18:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Vivian Costa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Legislação]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias da SBPC]]></category>
		<category><![CDATA[Políticas de CT&I]]></category>

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		<description><![CDATA[Confira a entrevista com a vice-presidente da SBPC e coordenadora da Subcomissão de Sistematização e Documentação da 5ª CNCTI, Francilene Garcia]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><em>Comissão organizadora enviará ao Governo Federal até novembro o compilado dos debates realizados, de modo a subsidiar as ações do setor para os próximos 10 anos. Confira a entrevista com a vice-presidente da SBPC e coordenadora </em>da <em>Subcomissão de Sistematização e Documentação</em><em> da 5ª CNCTI, Francilene Garcia</em></p>
<div id="attachment_24820" style="width: 663px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://www.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2024/08/WhatsApp-Image-2024-08-09-at-14.28.21.jpeg"><img class="wp-image-24820 size-post img-responsive" src="http://www.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2024/08/WhatsApp-Image-2024-08-09-at-14.28.21-653x350.jpeg" alt="WhatsApp Image 2024-08-09 at 14.28.21" width="653" height="350" /></a><p class="wp-caption-text">Foto: Ascom/MCTI</p></div>
<p>Somando todas as atividades realizadas entre os meses de dezembro de 2023 e maio de 2024, além da programação presencial que ocorreu em Brasília na última semana, a 5ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (5ª CNCTI) mobilizou mais de 280 debates acerca de uma nova política científica para o Brasil.</p>
<p>Agora, o desafio está em compilar todas as informações presentes neste processo e apresentar um documento que oriente o Governo Federal a transformar efetivamente as recomendações vindas da sociedade civil e da comunidade científica em ações nacionais.</p>
<p>Vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Francilene Garcia é um dos nomes que compõem a comissão organizadora da 5ª CNCTI. Coordenando a Subcomissão de Sistematização e Documentação, Garcia e sua equipe têm o difícil trabalho de agrupar as temáticas mais citadas nos debates e ajudar no processo de conversão de diagnósticos em leis.</p>
<p>Em entrevista ao Jornal da Ciência, a vice-presidente da SBPC antecipou alguns tópicos que tiveram grande força nas discussões da 5ª Conferência. Para a especialista, questões como a Ciência Amazônica, o estímulo a políticas industriais que integrem mercado e academia e uma reestruturação da pós-graduação, que garanta empregabilidade e avanços científicos e tecnológicos, são alguns dos principais desafios do Brasil de hoje.</p>
<p>Confira a entrevista completa:</p>
<p><strong>Jornal da Ciência: Qual é o balanço que podemos fazer da 5ª CNCTI?</strong></p>
<p><strong>Francilene Garcia:</strong> Eu acredito que a 5ª CNCTI foi um sucesso, principalmente se nós olharmos para a intensa mobilização da sociedade, que há 14 anos não tinha esse fórum, esse espaço de debate político e técnico. Cabe destacar que foram realizados mais de 220 eventos, espalhados por todo o Brasil, durante a programação preparatória (realizada entre os meses de dezembro de 2023 e maio de 2024), além dos três dias da 5ª Conferência em Brasília. Toda essa extensão de atividades possibilitou um acúmulo de temas debatidos que, certamente, se contemplados, fortalecerão a nova Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, e o plano decenal para Ciência. Tecnologia e Inovação do País.</p>
<p><strong>JC: O que podemos considerar de mais importante durante o evento em Brasília?</strong></p>
<p><strong>FG:</strong> Eu destacaria duas coisas. Primeiramente, a abertura, que contou com a presença do presidente Lula. Ele, exercendo o papel de líder maior do País, tem uma função importante na alavancagem das políticas públicas em Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&amp;I). Além de estar presente na 5ª Conferência, Lula recebeu do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CCT) o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), e se comprometeu com a sociedade em levar para frente essa política que visa o desenvolvimento de uma área tão estratégica hoje em termos de mudanças digitais e seus impactos sociais. Lula, com o PBIA em mãos, também se comprometeu a continuar debatendo, discutindo e, sobretudo, ouvindo o que a sociedade traz no que diz respeito à Ciência, Tecnologia e Inovação. O segundo ponto que eu destaco são os números da 5ª CNCTI, que a ministra de Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, apresentou na solenidade de encerramento, e que reforçam, de forma expressiva, esse sentimento de missão cumprida. Só nos três dias em Brasília, foram 54 sessões paralelas e 7 plenárias realizadas, que contaram com a participação de mais de 5.300 conferencistas presenciais e mais de 4.000 pessoas de forma online. No canal do YouTube do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que  transmitiu todas as conferências, obteve-se, até o momento, 21 mil visualizações e, contando os outros canais que transmitiram parte da programação, esse número chega a 30 mil. Agora, se considerarmos a programação preparatória, a 5ª CNCTI mobilizou mais de 100 mil pessoas, o que mostra a importância de se debater a Ciência como um pilar de desenvolvimento em todas as dimensões, principalmente em um País que pretende ter uma reconstrução para redução de assimetrias e, obviamente, maior presença de políticas sustentáveis.</p>
<p><strong>JC: Com essa quantidade grande de eventos e de participação, existe um desafio de compilar tudo o que foi dito nos debates. Como será feita esta etapa?</strong></p>
<p><strong>FG:</strong> Com certeza. Eu sou coordenadora da Subcomissão de Sistematização e Documentação da 5ª CNCTI, que tem exatamente esse trabalho de agrupar e sistematizar as discussões realizadas ao longo de toda a programação, preparatória e principal. A gente tem uma agenda de trabalho intensa pela frente. Nós já realizamos a transcrição bruta de todas as atividades que ocorreram nos três dias de evento em Brasília. Agora, vamos integrar esse material conforme as entregas dos relatórios que estão em produção pelos relatores. É importante explicar que cada debate realizado durante a 5ª CNCTI em Brasília contou com a participação de mediadores, debatedores e de relatores, pessoas responsáveis em documentar as informações que foram debatidas. Foram 60 relatores que atuaram nas sete sessões plenárias e nas 54 sessões paralelas. Esses relatórios e as transcrições serão traduzidos em recomendações que a própria Subcomissão de Sistematização e Documentação fará e, posteriormente, serão entregues em um primeiro documento à Coordenação Geral da 5ª CNCTI. Ao final, provavelmente em novembro, a Subcomissão entregará à Coordenação Geral o balanço fechado dos debates e a Coordenação Geral dará o afinamento para a entrega do livro sobre as ponderações da 5ª Conferência ao MCTI.</p>
<p><strong>JC: Nessa análise prévia dos debates realizados, já é possível apontar temas que se destacaram?</strong></p>
<p><strong>FG:</strong> Nós estamos exatamente nessa fase de leitura dos debates e realmente apareceram muitas temáticas interessantes. Um ponto que é importante reforçar é o fato dessa 5ª Conferência ter acontecido após 14 anos da última edição, que foi em 2010. De lá para cá, nós tivemos muitas mudanças sociais, e essas mudanças estiveram presentes nos debates. Por exemplo, a pandemia de covid-19 em 2020, que fez com que o Brasil se inserisse aos demais países em reflexões não só sobre a crise sanitária em si, mas sobre novos desafios para a integração da ciência global e a brasileira. Outra questão que tem sido puxada por acontecimentos recentes é a transição climática, que também traz questões sobre a política nacional e a posição do País. Há, ainda, um terceiro ponto que é importante colocar, além desses dois que são mais globais, que é o fato de o último Censo realizado no nosso país nos apresentar uma noção clara de uma transição demográfica em andamento. Essa transição faz com que o Brasil também passe a avaliar de maneira muito direta a transição da pirâmide etária no nosso território, na medida em que o Brasil, a partir de 2043, conforme estimativas, terá mais mortes do que nascimentos, ou seja, será uma população menor, mas com mais indivíduos de mais de 60 anos. Foram questões que trouxeram implicações profundas acerca da formulação de políticas públicas associadas com planejamentos a longo prazo.</p>
<p><strong>JC: Podemos dizer que há um melhor entendimento do papel da Ciência em temas globais?</strong></p>
<p><strong>FG:</strong> Exatamente. Vimos na 5ª Conferência esse mesmo olhar no Brasil. Por exemplo: quando foi definida a Agenda 2030 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), em 2015, inicialmente não se tinha uma relação muito direta com temáticas de Ciência, Tecnologia e Inovação. Isso mudou quando o mundo – e, consequentemente, o próprio Brasil nesse processo –, começou a discutir a viabilização desses ODS, o que mostrou a necessidade de fundamentação e aplicação da CT&amp;I. É importante entendermos essa mudança de pensamento global, porque ela afeta diretamente os debates da 5ª Conferência e, principalmente, o papel primordial de sua realização nesse momento do País e do mundo.</p>
<p><strong>JC: Esse entendimento gera mais cobranças da Ciência brasileira, não?</strong></p>
<p><strong>FG: </strong>Sim. Um dos principais debates realizados em várias mesas foi uma leitura do posicionamento atual da ciência brasileira no mundo. Essa leitura parte do que aconteceu nos últimos 14 anos, questionando como que a ciência brasileira evoluiu, como que a produção científica brasileira se posicionou nos últimos anos, quais são as áreas em que o Brasil tem mais avançado, onde que o nosso País acompanha a produção científica global de uma forma mais próxima, onde que a gente tem menos qualidade, onde que a gente precisaria fortalecer as cooperações internacionais, quais cooperações internacionais são mais fundamentais, entre outras questões. Esse diagnóstico traz alguns apontamentos importantes, como a própria colaboração internacional, que é um fator que tem ajudado a melhorar a qualidade e o impacto das publicações brasileiras. Cerca de 30% da produção científica atual brasileira envolve colaborações internacionais, o que traz um impacto favorável na medida em que não só coloca os nossos pesquisadores em diálogo, mas também coloca a ciência que fazemos para além das fronteiras do Brasil. Ainda nesse olhar para a ciência de hoje comparada com a de 14 anos atrás, a 5ª Conferência resgatou diretrizes publicadas no Livro Azul, correspondente à conferência de 2010, sobre Ciências e Tecnologias Verdes e Sustentáveis, que mostra, inclusive, a necessidade do Brasil investir em estudos ambientais e na área de Ciências da Saúde. Repare bem: isso foi colocado lá em 2010, quando o mundo nem imaginava que ia passar por uma pandemia, uma crise sanitária global, e tampouco tinha plena consciência que, em função do aquecimento global, as nações precisariam investir mais em eficiência energética, aplicação de energias limpas e, sobretudo, descarbonização. Graças ao Livro Azul, de 2010, houve investimentos para que o Brasil, neste momento em que a transição climática é colocada como um ponto importante, não esteja em grande desvantagem competitiva. Quando o presidente Lula lançou a Nova Política Industrial, em janeiro, e apontou seis missões orientativas na questão da descarbonização, por exemplo, significa que o Brasil parte de uma largada já dada pela Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação de 2010. Com isso, eu quero dizer que essa contextualização realizada na 5ª Conferência sobre as edições anteriores é fundamental para que a gente dê continuidade aos avanços na ciência brasileira</p>
<p><strong>JC: Além do olhar para a mudança da Ciência em 14 anos, que outros temas se destacaram?</strong></p>
<p><strong>FG:</strong> Com o anúncio da nova política industrial do País, a Nova Indústria Brasil (NIB), por exemplo, várias mesas debateram sobre esse processo de industrialização. Tudo o que se colocou aponta para a importância do Brasil se posicionar em relação às rotas tecnológicas, porque a indústria brasileira precisa avançar nesse sentido. Há alguns destaques nesse tema, como a economia circular. Do ponto de vista conceitual, a economia circular passa a ser uma abordagem extremamente presente, porque ela vai além de discutir as questões do que é reutilizável ou não. Ela passa a trabalhar muito fortemente um conceito dentro da indústria brasileira que é altamente dependente da CT&amp;I, que é você poder olhar para a produção industrial visando a processos mais sustentáveis, como melhorias de design e uma produção mais eficiente &#8211; pensando na reciclagem e na vida útil dos produtos. Essas questões também dialogam com uma riqueza do nosso Brasil, que é a biodiversidade. Quanto mais a gente tiver aptidão e conhecimento para usar os recursos naturais que temos de forma sustentável, mais essa economia circular será favorável para uma indústria mais competitiva e uma nação que saiba utilizar sua biodiversidade com grande capacidade. Esse debate da neoindustrialização trouxe novos desafios e fronteiras importantes, inclusive na associação dos ambientes científicos e tecnológicos das universidades com suas estruturas de pesquisa e com a própria indústria brasileira.</p>
<p>Outra questão que ficou muito clara nessas discussões todas da 5ª CNCTI é que o Sistema Nacional de Ciência Tecnologia e Inovação (SNCTI) precisa ter uma governança muito bem definida, forte e que integre os vários setores: os que produzem conhecimentos, os que consomem conhecimentos, os que fazem a formação da mão de obra qualificada, tudo de uma maneira cooperativa. Muito se falou sobre a criação ou o desenvolvimento de programas de pós-graduação que tenham esse diálogo bem estabelecido e enraizado.</p>
<p><strong>JC: Muitas das questões que apareceram para o Brasil são problemáticas globais. Há outros temas em que a sociedade civil e a comunidade científica olharam para o panorama internacional e questionaram quais possíveis caminhos nacionais?</strong></p>
<p><strong>FG:</strong> Sim, ainda sobre agendas globais, há muita presença de debates sobre as mudanças climáticas, e aí a gente já faz uma relação direta com a Amazônia. Ficou muito claro entre os debates da 5ª CNCTI que o Brasil precisa, de fato, alçar voos maiores para que investimentos estratégicos sejam realizados na Amazônia, considerando, inclusive, que a Amazônia em si já é um ecossistema que sofreu transições climáticas ao longo de centenas de milhares de anos, e que ali já se tem um conhecimento rico em termos de conservação daquela biodiversidade, o que envolve a sabedoria dos povos originários, e que é fundamental para que a gente possa entender o que precisamos fazer para lidarmos com essa transição climática e com o aquecimento global de uma forma geral. São desafios de uma região que é um ecossistema extremamente rico e que tem uma conexão muito direta com as respostas que a gente precisa ter em termos de planeta e em termos de país.</p>
<p>Esse, inclusive, é um tema sempre muito transversal, porque quando se fala nessas discussões também aparecem debates sobre a pós-graduação brasileira: para o desenvolvimento de uma região importante como a Amazônia, além da inclusão da escuta dos saberes dos povos originários, a gente também tem que considerar a conexão de jovens cientistas nesses ambientes. Uma medida que possa não só reduzir as assimetrias educacionais no comparativo com outras regiões, mas também criar condições favoráveis para a fixação dos jovens.</p>
<p>Outra temática muito presente é a formação de empreendedores inovadores. Ela traz um movimento em torno dos ecossistemas inovadores no Brasil, que considera a presença das startups, os investimentos que são realizados no ambiente acadêmico – desde a graduação até a pós-graduação – e a importância das <em>deep techs</em>, empresas focadas em tecnologias avançadas, como inteligência artificial e computação quântica. Inclusive, se defendeu a criação de fundos específicos para apoiar empresas com esse nível de complexidade. A <em>deep tech</em> é um tipo de empresa que, no geral, precisa de maior investimento na sua fase inicial por conta da complexidade, riscos e problemas que trata. Por exemplo, empresas que atuam com tecnologias para tratamento de câncer precisam investir no desenvolvimento de anticorpos monoclonais ou tecnologias fotônicas, recursos que, no geral, uma empresa nascente não tem. Além disso, as pessoas envolvidas nessas empresas são pessoas altamente qualificadas. Nós estamos falando de doutores e de pessoas com pós-doutorado que se desenvolvem nessas iniciativas. Então, são discussões que colocam também o papel da pós-graduação e das universidades no processo.</p>
<p><strong>JC: Você tem citado bastante o papel das universidades, elas também foram frequentes nos debates da 5CNCTI?</strong></p>
<p><strong>FG:</strong> Depois da ampliação que tivemos no sistema universitário, em que saímos de pouquíssimas instituições para um conjunto expressivo de universidades no Brasil, um dos desafios de hoje é fazer uma leitura correta dos avanços que o sistema universitário brasileiro tem que ter. Muito se discutiu sobre a presença da universidade pública, mas também o papel das universidades privadas e o crescimento da educação a distância no Brasil. Discutiu-se, ainda, a necessidade de uma formação a distância de qualidade e o papel do Governo Federal nesse processo. Inclusive, a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) tem estudado a possibilidade de concepção de uma Universidade Aberta do Brasil, que faça a oferta de cursos em EAD de qualidade. Nesse sentido, surgem outros temas transversais que é a Ciência Cidadã e a empregabilidade de mestres e doutores – hoje, nós formamos mais mestres e doutores do que conseguimos empregar.  Uma das visões é que esses pós-graduados não fiquem somente no setor educacional, mas também saiam do ambiente acadêmico, em prol do desenvolvimento das empresas.</p>
<p><strong>JC: Um ponto que aparece tradicionalmente nos debates sobre política científica é orçamento. Como ele esteve presente na 5ª CNCTI?</strong></p>
<p><strong>FG:</strong> Uma questão bastante colocada foi a situação do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). A gente tem, de 2022 para cá, poucos anos de descontingenciamento do Fundo e uma perspectiva de continuidade da alimentação de recursos para a próxima Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, mas a 5ª Conferência trouxe uma mensagem forte de que as políticas científicas não podem ser dependentes unicamente de seus recursos. É necessário que se discuta uma agenda de financiamento à CT&amp;I no País com fontes complementares, incluindo o fortalecimento das Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs), que são importantes nas políticas dos estados, além da própria questão de novos regimes fiscais para incentivo à Pesquisa e Desenvolvimento (P&amp;D). Essa complementaridade aos recursos do FNDCT precisa ser elaborada para que a gente possa, quem sabe, alcançar em termos do PIB (Produto Interno Bruto) um percentual de investimento em torno de 2% a 2,5% de investimento por ano. Isso, no geral, não é uma demanda nova, mas sim uma demanda histórica.</p>
<p><strong>JC: A 5ª CNCTI teve um número expressivo de participação. É possível visualizar temas em que o engajamento popular se mostrou bem presente?</strong></p>
<p><strong>FG: </strong>Na minha fala final na 5ª Conferência eu já havia trazido esse tema, mas ficamos surpresos com uma militância bem-organizada, importante e estratégica em prol de iniciativas para a divulgação e popularização da Ciência. A popularização da Ciência tem como meta difundir o conhecimento científico para toda a sociedade, com ênfase nos jovens e crianças, porque eles são públicos que estão na fase de escolha do que farão na vida adulta – e aqui, mais uma vez, aparecem as universidades, que vêm lidando com um problema de alta evasão de público nos cursos de nível superior. Então, nos parece que a popularização da ciência não tem só esse papel de criar, incentivar e inspirar novas jornadas científicas nos jovens, mas também de ajudar nesse processo de redução da evasão.</p>
<p>A popularização da ciência também tem outro pilar bastante importante, e que foi amplamente debatido, que é combater a desinformação, sobretudo o que o País viveu recentemente com o negacionismo à Ciência durante a pandemia de covid-19. Um terceiro ponto que também dialoga com a popularização da Ciência é a Tecnologia Social, ou seja, uma democratização do processo de desenvolvimento de inovações tecnológicas com foco em empreendimentos econômicos populares, que surgem em comunidades mais marginalizadas e não deixam de ser uma forma efetiva de se fazer inclusão. Resumidamente, na esfera das políticas públicas, eu considero que a popularização da ciência, em todas as suas dimensões, deve estar envolvida.</p>
<p><strong>JC: Ao longo da realização da 5ª CNCTI, houve uma grande participação da comunidade científica e das entidades que representam o setor, como a própria SBPC. Há temas que se destacaram a partir dessas entidades?</strong></p>
<p><strong>FG: </strong>Sim, além da participação efetiva das entidades como a SBPC e a ABC (Academia Brasileira de Ciências) em alguns dos debates já citados, como a revisão da pós-graduação no Brasil, o combate à desinformação e os estímulos à ciência da Amazônia, houve temáticas e olhares que vieram, essencialmente, da integração e participação dessas entidades. Uma contribuição que foi muito liderada pela SBPC foi a questão da reconstrução do laço social nesse país em transformação que é o Brasil de hoje. Em todas as discussões realizadas durante a 5ª Conferência ficou muito evidente a preocupação de não criarmos políticas que ampliem as assimetrias, ao contrário, que elas foquem no combate às desigualdades sociais. E essa visão tem que estar presente quando se busca combater as mudanças climáticas, a transição energética, os problemas de saúde, entre outras questões. Nesse sentido, os grandes desafios acabam exigindo muita Ciência, muita Tecnologia e um olhar sobre a sociodiversidade, para além da biodiversidade. É neste panorama que entram os apontamentos das Ciências Humanas e Humanidades, um tema debatido em sessões coordenadas pela SBPC, porque essas ciências, associadas a outras disciplinas, é que nos permitem ter uma compreensão mais clara sobre a complexidade da nossa realidade, e ainda ajudam no fortalecimento do nosso País.</p>
<p><em>Rafael Revadam – Jornal da Ciência</em></p>
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		<title>Além da Ciência: retrato em família de Cesar Lattes</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Apr 2024 16:11:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Vivian Costa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Divulgação Científica]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
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		<description><![CDATA[Em entrevista exclusiva, filhas de Lattes revelam o lado humano do renomado físico. Confira na nova edição da Ciência &#038; Cultura]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><em>Em entrevista exclusiva, filhas de Lattes revelam o lado humano do renomado físico. Confira na nova edição da Ciência &amp; Cultura</em></p>
<p><a href="http://www.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2024/04/WhatsApp-Image-2024-04-16-at-09.23.51.jpeg"><img class="aligncenter wp-image-23591 size-post img-responsive" src="http://www.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2024/04/WhatsApp-Image-2024-04-16-at-09.23.51-653x350.jpeg" alt="WhatsApp Image 2024-04-16 at 09.23.51" width="653" height="350" /></a></p>
<p>Por trás do renomado físico Cesar Lattes, conhecido por suas contribuições revolucionárias na física de partículas, há um lado muitas vezes esquecido: o homem de família dedicado e amoroso. Engana-se quem pensa que, mesmo imerso em sua intensa vida profissional, Lattes se distanciou de sua amada Martha Siqueira Netto e de suas queridas filhas Maria Carolina, Maria Cristina, Maria Lúcia e Maria Tereza. Em cada passo de sua jornada científica, ele carregava consigo o amor e a presença forte que marcavam sua relação com a família. Isso é o que mostra entrevista da nova edição da <a href="https://revistacienciaecultura.org.br/">Ciência &amp; Cultura</a>, que celebra o centenário do físico brasileiro.</p>
<p>O físico não poupava esforços para garantir o bem-estar da família e para proporcionar às suas filhas o máximo de acesso ao conhecimento. Ele valorizava cada conquista delas, mesmo que parecesse trivial aos olhos de outros. Além disso, Lattes cultivava o apreço da família pela cultura brasileira, especialmente pela música, enriquecendo ainda mais o ambiente familiar com arte e sabedoria. Nesta entrevista exclusiva, as filhas de Cesar Lattes nos conduzem por um retrato íntimo e emocionante da vida familiar do renomado cientista. Juntas, elas compartilham memórias e revelam o lado humano por trás do gênio que marcou a história da ciência brasileira.</p>
<p><strong>Confira a entrevista completa:</strong><a href="https://revistacienciaecultura.org.br/?p=5779" target="_blank">https://revistacienciaecultura.org.br/?p=5779</a></p>
<p>Ciência e Cultura</p>
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		<title>Uma sinergia de efeitos danosos</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Dec 2023 16:57:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Vivian Costa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Amazônia]]></category>
		<category><![CDATA[Biodiversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Clima]]></category>
		<category><![CDATA[Divulgação Científica]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Grandes Temas]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias da SBPC]]></category>
		<category><![CDATA[Políticas de CT&I]]></category>

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		<description><![CDATA[Potencializados pelas altas temperaturas, poluição nas grandes cidades e fumaça dos desmatamentos no campo e nas florestas se somam provocando doenças e encurtando a vida dos humanos. Confira a reportagem na nova edição do Jornal da Ciência Especial, disponível para download gratuito]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><em>Potencializados pelas altas temperaturas, poluição nas grandes cidades e fumaça dos desmatamentos no campo e nas florestas se somam provocando doenças e encurtando a vida dos humanos. Confira a reportagem na nova edição do Jornal da Ciência Especial, disponível para download gratuito</em></p>
<p><a href="http://www.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2023/12/sh.jpg"><img class="aligncenter wp-image-22775 size-post img-responsive" src="http://www.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2023/12/sh-653x350.jpg" alt="sh" width="653" height="350" /></a>Não é para o futuro. Problemas cardiovasculares já estão sendo, agora, agravados pelas altas temperaturas e o ar irrespirável da poluição atmosférica somada com a fumaça dos incêndios florestais. Se até 10 anos atrás a sinergia de efeitos danosos atingia mais as pessoas acima de 60 anos, hoje já atinge pessoas abaixo dos 50, anos que vão a óbito por impactos no sistema cardiovascular por conta das altas temperaturas.</p>
<p>O alerta é de Sandra Hacon, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP-Fiocruz). Representante do Brasil no Grupo de Trabalho do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) referente ao Programa de Monitoramento da Implementação da Convenção de Estocolmo, Hacon trabalha na região Norte onde desenvolve suas pesquisas e orienta mestrandos e doutorandos. Em entrevista exclusiva ao Jornal da Ciência, ela fala dos impactos das mudanças climáticas sobre a saúde e as adaptações necessárias ao convívio com um novo patamar de temperatura ambiente.</p>
<p><a href="http://www.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2023/12/JC_806.pdf" target="_blank">Leia a reportagem completa na nova edição do Jornal da Ciência Especial nº 806, disponível para download gratuito</a>.</p>
<p><em>Janes Rocha – Jornal da Ciência</em></p>
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		<title>“Queremos criar um doutorado em arqueologia na UFPI”</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Jun 2023 17:31:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Vivian Costa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias da SBPC]]></category>

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		<description><![CDATA[Nova edição do Jornal da Ciência Especial traz entrevista com Conceição Lage, pesquisadora e conselheira científica da Fundação Museu do Homem Americano, referência em arqueologia na Serra da Capivara. Edição completa está disponível em PDF para download gratuito]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><em>Nova edição do Jornal da Ciência Especial traz entrevista com Conceição Lage, pesquisadora e conselheira científica da Fundação Museu do Homem Americano, referência em arqueologia na Serra da Capivara. Edição completa está disponível em PDF para download gratuito</em></p>
<p><a href="http://www.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2023/06/WhatsApp-Image-2023-06-06-at-14.54.00.jpeg"><img class="alignright wp-image-21068 size-medium img-responsive" src="http://www.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2023/06/WhatsApp-Image-2023-06-06-at-14.54.00-300x225.jpeg" alt="WhatsApp Image 2023-06-06 at 14.54.00" width="300" height="225" /></a>Formada em Química, mestre e doutora em Arqueologia, Conceição Lage é professora da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e trabalha há anos com a francesa Niède Guidon, pioneira na arqueologia piauiense. Pesquisadora e conselheira científica da Fundação Museu do Homem Americano (desde 1986), Lage juntou suas duas especialidades ao desenvolver a Arqueometria em arte rupestre, que significa analisar a estrutura químico-mineralógica de pigmentos pré-históricos e depósitos de alteração em registros arqueológicos.</p>
<p>Em março, ela foi uma das palestrantes da mesa-redonda “Território Ancestral: Desafios Nacionais da Arqueologia e da Paleontologia”, parte da programação da Reunião Regional da SBPC no Piauí, evento coordenado pela cientista Ana Tereza Ribeiro de Vasconcelos, diretora da SBPC.</p>
<p>Confira na nova edição do Jornal da Ciência Especial a entrevista em que Conceição Lage fala dos projetos de educação e pesquisa nos principais sítios arqueológicos do estado e os desafios dessa atividade na região.</p>
<p>A cobertura completa das atividades da Reunião Regional está na nova edição do Jornal da Ciência Especial. <a href="http://jcnoticias.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2023/05/JC_803.pdf" target="_blank">Baixe o seu exemplar gratuitamente e boa leitura!</a></p>
<p><em>Janes Rocha – Jornal da Ciência</em></p>
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		<title>“Ou as universidades se reestruturam, ou correrão o risco de se tornarem irrelevantes&#8221;, alerta presidente da Fapesp</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Mar 2023 16:12:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Vivian Costa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias da SBPC]]></category>

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		<description><![CDATA[Em entrevista exclusiva ao Jornal da Ciência, Marco Antonio Zago afirma que a Ciência não está conseguindo acompanhar as mudanças da sociedade, o que faz com que os jovens se distanciem da carreira acadêmica]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><em>Em entrevista exclusiva ao Jornal da Ciência, Marco Antonio Zago afirma que a Ciência não está conseguindo acompanhar as mudanças da sociedade, o que faz com que os jovens se distanciem da carreira acadêmica</em></p>
<div id="attachment_20521" style="width: 663px" class="wp-caption aligncenter"><a href="http://www.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2023/03/M-A-Zago.jpg"><img class="wp-image-20521 size-post img-responsive" src="http://www.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2023/03/M-A-Zago-653x350.jpg" alt="Foto: Leo Ramos Chaves/Revista Pesquisa FAPESP" width="653" height="350" /></a><p class="wp-caption-text">Foto: Leo Ramos Chaves/Revista Pesquisa FAPESP</p></div>
<p>No primeiro encontro da ministra de Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, com a sociedade científica paulistana &#8211; realizado pela SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) em fevereiro &#8211; o presidente da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), Marco Antonio Zago, trouxe uma preocupação: os jovens estão, cada vez mais, se distanciando da Ciência.</p>
<p>A preocupação é embasada em dados. Ainda em fevereiro deste ano, um grupo de cientistas brasileiros publicou uma <a href="https://www.science.org/doi/10.1126/science.adg4131" target="_blank">carta na revista Science</a> sobre como os cortes orçamentários que se agravaram desde 2015 prejudicaram o sistema de CT&amp;I no Brasil e, por consequência disso, um grande número jovens cientistas do País estão sem colocação profissional ou desempenhando funções que não demandam formação acadêmica. A carta chama a atenção para o fato de que a taxa de desemprego entre os pesquisadores em início de carreira no Brasil já era 12 vezes mais alta do que a média global em 2019.</p>
<p>A própria Fapesp vem registrando, a cada ano, reduções no número de pessoas interessadas em bolsas de pesquisa. Considerando todas as categorias de bolsas oferecidas pela entidade para a pós-graduação, a procura por demandas de auxílio caiu 30%, segundo dados divulgados no início do ano.</p>
<p>Em entrevista exclusiva ao Jornal da Ciência, Zago alerta para uma necessária reestruturação da cadeia científica do País, o que envolve, principalmente, universidades e institutos federais. Médico, pesquisador e professor emérito da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), ele afirma que o Brasil sofreu, sofre e sofrerá ainda com os impactos do desmonte perpetrados nos últimos quatro anos, mas que, neste momento de reconstrução, é importante abrir os olhos para a nova geração do País, que não depende mais dos estudos para a progressão profissional.</p>
<p><strong>Jornal da Ciência &#8211; No primeiro encontro com a ministra de CT&amp;I, o senhor falou desse cenário de queda no interesse das pessoas pela ciência. Como se chegou a este diagnóstico?</strong></p>
<p><strong>Marco Antonio Zago -</strong> Essa questão não é só um olhar objetivo da Fapesp, mas também é a minha experiência ao longo desses últimos anos. É claro que nós tivemos um período aqui de baixo apoio à ciência, principalmente na área Federal. Faz parte da conversa do dia a dia [do setor] dizer que o governo anterior não apoiava a ciência, perseguia a ciência, cortou verbas, não aumentou o valor das bolsas. Mas não podemos esquecer que o valor das bolsas não aumentava desde 2013. Quer dizer, não foi só obra do último governo. Mas as coisas vinham-se acumulando e, na última gestão, houve um ambiente hostil à ciência. Agora, há outras coisas acontecendo e, a meu ver, é um panorama muito mais amplo e preocupante, porque ele aponta para uma mudança de perspectiva das gerações mais jovens, dos interesses, algo que já se estava se construindo por causa das mudanças da sociedade.</p>
<p><strong>JC &#8211; Em que sentido?</strong></p>
<p><strong>MAZ -</strong> Por exemplo, hoje os jovens são muito menos dependentes da universidade para ganhar conhecimento novo. Muitos jovens, principalmente aqueles que já tiveram uma formação melhor na sua parte básica, até veem a universidade como algo que atrasa a vida. Por quê? Porque o diploma universitário tem um valor de mercado, mas está perdendo este valor. Cada vez mais, as empresas, quer dizer, quem fornece emprego, estão olhando para a capacitação, a habilidade do jovem, muito mais do que o diploma que ele tem escrito lá em seu currículo. Então, já existia um cenário que exigiria uma mudança das universidades, o que não está ocorrendo. Essa é a minha crítica: enquanto a sociedade, principalmente os jovens e as tecnologias, se desenvolvem rapidamente e mudam muito de ano para ano, as universidades são muito mais lentas e não acompanham suas mudanças.</p>
<p>Eu pergunto [ao jovem]: “Não vai fazer uma universidade?” E ele responde: “Não, porque eu não preciso fazer uma universidade, eu sou capaz de ser bem-sucedido sem uma universidade”. Isso era uma coisa muito rara no passado, e hoje se tornou mais evidente. Prova disso é que as matrículas em cursos de Engenharia no Brasil todo, entre instituições públicas e privadas, caíram 40%. Não é pouca coisa. Um país que quer desenvolver tecnologias, que quer desenvolver uma indústria avançada, como é que ele vai fazer isso se os jovens não estão entrando na universidade para se formar nas carreiras tecnológicas?</p>
<p><strong>JC &#8211; Você acredita que a pandemia influenciou nessa mudança da sociedade?</strong></p>
<p><strong>MAZ - </strong>Sim, tudo isso se cristalizou durante a pandemia, com toda a mudança que a sociedade sofreu. E aí, eu acho que houve uma mudança mais grave de expectativa, a ponto de que os pedidos de bolsas de doutorado da Fapesp caíram 30%. É claro, existe a crítica ao fato de que o Governo Federal não estava dando apoio à Ciência na época. Mas a bolsa da Fapesp é boa, em termos de valor. Ela pagava, até o reajuste que o Governo fez [no início deste ano], o dobro da bolsa federal e, mesmo assim, caiu a demanda. Porque nós esperamos o contrário: uma vez que está tendo dificuldade na área federal, que aumentasse a demanda aqui. Mas não aumentou, caiu.</p>
<p><strong>JC &#8211; Na prática, o que deve ser feito?</strong></p>
<p><strong>MAZ -</strong> Eu acho que as universidades precisam mudar suas abordagens de ensino radicalmente, saber que estão trabalhando com uma faixa e um conjunto de pessoas que pensam muito diferente do que nós pensávamos há 20 anos, que os cursos organizados nos moldes de 20 anos atrás não servem mais para essa juventude que está aí. Precisamos ouvi-los mais, ver quais são as ambições deles, o que eles querem, o que eles esperam.</p>
<p><strong>JC &#8211; E o senhor acha que muitos jovens vão negar um futuro acadêmico quando consultados?</strong></p>
<p><strong>MAZ -</strong> Muitos vão dizer que não. Por quê? Primeiro, porque a carreira científica paga muito pouco hoje. Não é que os cientistas trabalham porque querem ficar ricos, mas eles trabalham, querem ter uma compensação e uma vida decente, adequada, e hoje é muito pouco, em relação, inclusive, às perspectivas que eu tinha quando eu entrei na carreira. Minhas perspectivas eram muito melhores do que os jovens têm hoje. A carreira acadêmica não é mais tão atrativa, não é competitiva. Isso é um ponto. O outro ponto é que precisa haver locais para esses cientistas trabalharem e esses locais são as empresas tecnológicas, as universidades e os institutos de pesquisa, com os seus respectivos laboratórios. Quando ocorre um desastre, como ocorreu no nosso passado recente, essa estrutura vai se desarmando. Quer dizer, os jovens não veem perspectiva de trabalhar num laboratório moderno, competitivo, etc., e muitos acabam saindo do País.</p>
<p><strong>JC &#8211; E onde entra o papel das agências de fomento nesse panorama de fuga da ciência?</strong></p>
<p><strong>MAZ -</strong> As agências de pesquisas precisam rever suas estratégias de apoio à pesquisa, quer dizer, o apoio à pesquisa precisa ter um componente que facilite o acesso ao financiamento aos jovens pesquisadores. Nós não podemos ser extremamente rígidos, como sempre fomos, de tal forma que há sempre um privilégio dos pesquisadores mais antigos, que já têm um currículo bem estabelecido, ter maior facilidade de conseguir novos financiamentos. E nós temos que abrir uma frente para jovens que ainda estão começando a sua carreira, que terminaram o doutorado recentemente e ainda não têm estabilidade, mas que podem ser competitivos.</p>
<p>Também cabe às agências de fomento começarem a financiar pesquisas de mais risco, não só aquilo que se tem certeza que vai dar certo. E se é algo de risco, nós temos que admitir que muitos projetos não serão bem-sucedidos. Precisamos arriscar mais &#8211; é assim que se faz Ciência.</p>
<p><strong>JC &#8211; O senhor está defendendo mudanças bem estruturais na cadeia científica do País. Existe algo que precisa ser feito de urgência? Porque, considerando a nossa cadeia, as coisas podem demandar um tempo, não?</strong></p>
<p><strong>MAZ -</strong> Ou a universidade faz isso rapidamente, ou ela desaparece, ela fica irrelevante. E a pior coisa que pode acontecer para as universidades, para a gente como um todo, é ficar irrelevante. Por quê? Porque não tem mais reflexo na sociedade. As pessoas têm que sentir a necessidade de fazer uma universidade. Antes, elas sentiam essa necessidade, porque na universidade se aprendiam coisas fundamentais que fora da universidade você não tinha. Recentemente, o conhecimento começou a ficar mais largamente difuso, mas ainda o título tinha um peso muito grande e, agora, todo esse peso está desaparecendo.</p>
<p><strong>JC &#8211; O senhor citou a pandemia como um fator nessa mudança da sociedade. A gente viu, nos últimos anos, uma queda na crença das pessoas à Ciência. Uma das últimas pesquisas da Fiocruz apontou que</strong><a href="http://www.jornaldaciencia.org.br/cerca-de-70-dos-brasileiros-confiam-na-ciencia-mas-campanhas-de-desinformacao-afetaram-credibilidade-academica/" target="_blank"><strong> 70% das pessoas confiam na Ciência</strong></a><strong>, um indicador que já chegou a 90%. Você acha que esse fator tem relação direta com as pessoas não se virem mais na carreira acadêmica?</strong></p>
<p><strong>MAZ -</strong> Eu acho que não, eu acho que é um fenômeno separado. É um fenômeno real, mas esse fenômeno de perda de credibilidade da ciência ocorreu no Brasil e ocorreu em outros locais do mundo. A perda de crença na ciência resulta mais de um fenômeno de natureza política, é uma briga ideológica. Houve um movimento de descrédito à ciência, e esse movimento faz parte de um perfil que também desacredita da democracia representativa, essa que é a mais habitual aqui no Ocidente. As pessoas que desrespeitam esse tipo de pensamento, que acreditam que um governo autoritário é mais eficiente para resolver os problemas, na maioria das vezes são aquelas também que mais desacreditam na ciência, porque a ciência é formada a partir da dúvida e do teste, quer dizer, ela não é uma coisa sempre impositiva, então ela não se enquadra nesse modelo de pensar.</p>
<p><strong>JC &#8211; Para encerrarmos, na última Reunião Anual da SBPC, realizada em Brasília em julho do ano passado, o senhor falou que as Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs) muitas vezes acabavam agindo para suprir a defasagem do Governo Federal, principalmente os últimos 10 anos sem reajustes nos valores das bolsas. Agora que houve esse reajuste, você consegue enxergar um novo papel das FAPs?</strong></p>
<p><strong>MAZ -</strong> O Governo Federal está correndo atrás do prejuízo, e isso é ótimo e é importante. É importante como modelo, porque eles dão a linha geral de atuação, porque eles preenchem vácuos e nós sabemos que os estados não são igualmente ricos ou poderosos para promover a própria ciência. Mas eu acho que isso que aconteceu nos últimos anos deve nos servir de lição, e a lição é a seguinte: nós não podemos pôr todos os ovos na mesma cesta. Isto é, nós não podemos depositar todas as expectativas no Governo Federal. Nós estamos vivendo um período muito mais favorável, mas isso é o agora. E quem disse que daqui um tempo não vai mudar? Eleição tem a cada quatro anos, mudanças no governo sempre ocorrem e, além do mais, o que o Governo Federal faz é muito centralizado, é muito a vida vista de Brasília, que é importante para dar uma certa unidade nacional, mas está na hora de fortalecermos os Sistemas Regionais de Ciência e Tecnologia, ou seja, os estados ou grupos de estados têm que atuar em conjunto para resolver problemas.</p>
<p>E o Governo Federal deve fazer alianças com as FAPs ou com grupos de FAPs. Por exemplo, como o programa Amazônia+10, que foi criado pelas FAPs e que já lançou um edital para a seleção de 30 projetos [voltados à preservação da Amazônia]. Na época, ele foi lançado sem a participação direta do Governo Federal. Agora, tenho certeza de que nós teremos a adesão de órgãos ou entidades federais.</p>
<p><em>Rafael Revadam &#8211; Jornal da Ciência</em></p>
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		<title>MCTI quer trazer de volta do exterior cientistas e pesquisadores</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Feb 2023 16:36:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Vivian Costa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Legislação]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias da SBPC]]></category>
		<category><![CDATA[Políticas de CT&I]]></category>

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		<description><![CDATA[Além de conter a “fuga de cérebros”, Luciana Santos planeja fazer uma “busca ativa” de cientistas que saíram do País. Em entrevista exclusiva ao Jornal da Ciência, a ministra fala de sua visão sobre bioeconomia, área espacial e como a ciência pode contribuir para o combate à fome e à miséria]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><em>Além de conter a “fuga de cérebros”, Luciana Santos planeja fazer uma “busca ativa” de cientistas que saíram do País. Em entrevista exclusiva ao Jornal da Ciência, a ministra fala de sua visão sobre bioeconomia, área espacial e como a ciência pode contribuir para o combate à fome e à miséria</em></p>
<div id="attachment_20270" style="width: 210px" class="wp-caption alignright"><a href="http://www.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2023/02/WhatsApp-Image-2023-02-16-at-12.04.28.jpeg"><img class="wp-image-20270 size-medium img-responsive" src="http://www.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2023/02/WhatsApp-Image-2023-02-16-at-12.04.28-200x300.jpeg" alt="WhatsApp Image 2023-02-16 at 12.04.28" width="200" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Foto: Jardel Rodrigues/SBPC</p></div>
<p>Durante encontro com representantes de sociedades científicas ligadas à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) na última sexta-feira (10/2), em São Paulo, o presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Marco Antônio Zago, afirmou que há uma crise na formação de recursos humanos qualificados, em especial de novos pesquisadores, que já vem de alguns anos, mas foi aprofundada pela pandemia.</p>
<p>No Brasil, o problema é ainda mais grave, tendo em vista o desestímulo sistemático à pesquisa científica perpetrado pelo governo que se encerrou em 2022. Segundo ele, a Fapesp registrou queda de 30% na demanda por auxílios, incluindo de novas bolsas; diminuição de procura e matrículas nos cursos de pós-graduação, além de uma “queda de 40% das matrículas de graduação em engenharia no setor privado”.</p>
<p>O presidente da Fapesp se dirigia à engenheira eletricista Luciana Barbosa de Oliveira Santos indagando como ela pretende resolver essa questão à frente do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).</p>
<p>A pernambucana Luciana Santos começou sua carreira política na militância estudantil em 1984, foi vice-governadora de seu estado, prefeita de Olinda e comandou a Secretaria estadual de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente, além de presidir seu partido, o PCdoB. Em dezembro de 2022, foi escolhida pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva para assumir o MCTI.</p>
<p>Na sexta-feira, ela estava no encontro das sociedades científicas, e participou também da cerimônia de entrega do Prêmio Carolina Bori Ciência e Mulher, promovido anualmente pela SBPC. A presença dela carregou ainda mais significados para o evento, já que ela é a primeira mulher a assumir o comando do MCTI.</p>
<p>A chamada “fuga de cérebros” e o desinteresse dos jovens pela carreira científica se somarão aos muitos desafios que Luciana Santos vai encarar daqui em diante à frente do Ministério. Em discurso, <a href="http://www.jornaldaciencia.org.br/edicoes/?url=http://jcnoticias.jornaldaciencia.org.br/3-ministra-da-cti-propoe-dialogo-com-comunidade-e-reconstrucao-do-setor/" target="_blank">Santos falou dos desafios e dos planos para os primeiros 100 dias de gestão</a>. Ela reconheceu a dificuldade das mulheres na inserção e atuação no campo científico e se comprometeu a ampliar o acesso de meninas e mulheres às carreiras científicas, assegurando a permanência delas nos “ambientes de pesquisa, de produção de conhecimento e desenvolvimento tecnológico”.</p>
<p>No fim da tarde de sexta-feira, ela concedeu uma entrevista exclusiva para o Jornal da Ciência, na qual ela se aprofundou em alguns temas como bioeconomia, agenda espacial, inovação e participação do setor privado.</p>
<p>Sobre o resgate dos jovens para a ciência, a ministra disse que pretende fazer uma “busca ativa” de cientistas para projetos específicos, como por exemplo, a recuperação da Ceitec (empresa pública que atua na área de semicondutores). Disse ainda que pretende fazer reunião com cientistas que estão fora do País para ouvir deles se querem ou não voltar, e em que condições. “Muitas vezes, a melhor maneira de você buscar caminhos é ouvir a realidade objetiva de quem se evadiu para a gente poder ter soluções”, afirmou.</p>
<p>Confira os principais trechos da entrevista:</p>
<p><strong>Jornal da Ciência – A Sra. tem reiterado a intenção de que a ciência contribua com as urgências colocadas pelo presidente Lula de combate à fome e redução das desigualdades. Como o MCTI pretende realizar esse plano?</strong></p>
<p><strong>Luciana Santos -</strong> Nós entendemos que o principal parceiro nisso vai ser a secretaria do próprio ministro Wellington Dias (Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome), a Embrapa, o Ministério da Agricultura e o ministro Paulo Teixeira (Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar), que têm inúmeras experiências no País de intervenções no solo, de melhoramento de biofertilizantes, melhoramento de sementes que nós precisamos desenvolver.</p>
<p><strong>JC – A senhora poderia dar alguns exemplos de ações emergenciais nas quais a ciência pode ajudar o combate a fome a miséria?</strong></p>
<p><strong>LS –</strong> Precisamos dar escala a essas experiências, como no semiárido brasileiro, da cultura de caju, da experiência do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) em Caruaru (PE), que além de fazer uma política de produção ecologicamente sustentável, correta, ainda consegue agregar valor. Ou das transformações que foram feitas em bacias leiteiras, experiências que dão escala e melhoram a condição de vida das pessoas de baixa renda, por meio de cooperativas e adotando sempre as soluções da ciência para situações adversas de produção de alimentos. Essa é o a centralidade do que nós vamos perseguir, como foi o papel de Johanna Döbereiner (1924-2000, engenheira agrônoma brasileira, pioneira em biologia do solo) no Cerrado, onde ninguém imaginava que podia produzir soja, fez um melhoramento e fixou nitrogênio no solo, possibilitando que o bioma tivesse uma produção gigantesca.</p>
<p>São soluções na ciência que possibilitam, mesmo em intempéries e situações adversas, soluções de produção de alimentos e a decisão política, claro, do presidente Lula de garantir isso. Nós temos a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) como uma das instituições muito importantes de distribuição de alimento no Brasil, nós podemos fazer essa intercessão e arrumar um projeto mais arrojado, que identifique essas áreas de concentração de maior pobreza, juntando soluções de ciência com economia solidária, cooperativas que enfrentem a fome no Brasil.</p>
<p><strong>JC &#8211; Seriam soluções de mais longo prazo?</strong></p>
<p><strong>LS -</strong> Na verdade já existem muitas boas experiências, o que a gente vai tentar é dar escala onde a situação é mais adversa, onde houver maior concentração de pobreza e onde possamos criar uma logística, um fluxo que atenda mais rapidamente essa situação de chegar alimentos para as pessoas que estão em situação de miserabilidade. São ideias, em 40 dias não foi possível ainda formatar um projeto, porque cada ministério ainda está concebendo, desenvolvendo os conceitos e a partir daí nós vamos integrar. Ainda sequer fizemos uma reunião de trabalho com as pastas acerca disso, apenas cada qual está cuidando de ter o foco naquilo que o presidente Lula encomendou como prioridade para depois podermos fazer um programa e um projeto objetivo do enfrentamento à fome.</p>
<p><strong>JC &#8211; Nessa linha, como a senhora vê a bioeconomia, que tem sido apontada como uma forma de levar desenvolvimento, principalmente região Amazônica?</strong></p>
<p><strong>LS –</strong> Sem dúvida, esse é um campo vasto que possibilita engrenar geração de emprego e renda em um conceito de sustentabilidade. Hoje no Brasil, apesar de sermos o maior produtor de alimentos, importamos fertilizantes. Isso não tem cabimento, nós podemos fazer biofertilizantes a um custo baixo que só uma política pública é capaz de fazer. Isso só para dar um exemplo na bioeconomia, mas nós podemos entrar na cadeia de combustíveis, na biomassa. Então é um campo vasto que é possível percorrer, principalmente na Amazônia, que é o grande paradoxo que existe no Brasil: você tem uma região, a mais rica do país, com o povo pobre e é preciso descobrir mecanismos que viabilizem a sustentabilidade. Tem culturas que muitas vezes são abandonadas, porque o próprio agricultor não consegue perceber a riqueza que aquele tipo de cultura pode dar para a vida dele. A cultura do caju, por exemplo: com a goma da árvore do caju você pode produzir até próteses. Tem a cadeia da alimentar da castanha, do bagaço do caju, que substitui a carne moída em uma cultura vegetariana. Só para exemplificar da diversidade de possibilidades que a gente pode fazer com a bioeconomia.</p>
<p><strong>JC – A senhora poderia detalhar um pouco mais sobre o que se falou na reunião ministerial de Mudanças Climáticas?</strong></p>
<p><strong>LS -</strong> Há uma comissão ministerial que foi instalada antes de ontem, que tem pelo menos 19 ministérios &#8211; Desenvolvimento Econômico, Desenvolvimento Agrário, Meio Ambiente, Pesca, Gestão, Casa Civil e até Justiça &#8211; porque envolve complexidades, desde a ferramenta da ciência que é garantida pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e pelo INPA (Pesquisas da Amazônia) e o Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), que dão elementos dos movimentos por satélite, seja do que está acontecendo de desmatamento propriamente dito, de derrubada da floresta, seja da degradação da floresta que, inclusive, é mais grave do que a própria derrubada das árvores. O Ministério da Justiça e os outros ministérios têm que entrar para poder criar estratégias de evitar aquele tipo de situação. Muita dessa degradação se dá pelo fogo, se dá por garimpo ilegal e mesmo pela pecuária. Então foi feita uma apresentação pela Secretaria do Meio Ambiente, bastante instruída pelas instituições vinculadas diretamente ao MCTI.</p>
<p><strong>JC – Qual a estratégia para a área espacial? Além do INPE, outras áreas ligadas ao ministério são a Agência Espacial Brasileira (AEB) e a base de Alcântara que passou por uma mudança no governo anterior, com o Acordo de Salvaguardas Brasil-EUA&#8230;</strong></p>
<p><strong>LS -</strong> Esse é um dos nossos eixos estratégicos estabelecidos lá na Conferência de 2010. A principal constelação dos nossos satélites é o CBERS (programa de cooperação tecnológica entre China e Brasil para a produção de uma série de satélites de observação da Terra). Vamos agora para o CBERS 5 e 6 na cooperação internacional com a China, que será uma das pautas principais do presidente Lula. Também temos o Amazon 1, que foi entregue e acreditamos que ainda neste mandato vai ser possível entregar mais um satélite da plataforma do Amazon 1. Isso também faz parte da cooperação com a Argentina, mas a principal cooperação é com os chineses, pelo programa CBERS 6, que já nos auxilia num monitoramento de vários fenômenos no País. São projetos que estão aí na ordem do dia como exequíveis nos quatro anos e é claro que tem projetos mais de médio e longo prazo.</p>
<p><strong>JC – E a Base de Alcântara?</strong></p>
<p><strong>LS –</strong> Hoje o principal desafio que se coloca para a Base de Alcântara é a atualização do plano diretor da cidade toda pelo impacto que causa aos quilombolas, às comunidades que moram no entorno da base. Já há parcerias e desenvolvimento da base do Alcântara, principalmente com os coreanos, mas houve duas tentativas de lançamento de foguetes que não funcionou, que a gente vai tomar pé para poder ajudar.</p>
<p><strong>JC – Existe intenção de manter ou revisar o Acordo?</strong></p>
<p><strong>LS – </strong>Esse é um assunto muito polêmico. Quando eu era deputada Federal, acompanhei o Acordo de Salvaguardas e nós vamos ter que analisar com mais vagar quais foram as implicações e qual têm sido as vantagens. Porque um Acordo de Salvaguardas é mais amplo do que muito se fala. Não é só um acordo com a indústria de defesa ou aeroespacial norte-americana. Há uma possibilidade de vários outros acordos, por isso mesmo, inclusive, foi feito esse entendimento com os coreanos. Então também é algo que nós vamos atualizar.</p>
<p><strong>JC – O professor Marco Antônio Zago, presidente da Fapesp, trouxe uma informação de que no mundo inteiro está havendo um desinteresse dos jovens na ciência. A Sra. já falou sobre suas ideias para conter a chamada “fuga de cérebros” (evasão de cientistas e pesquisadores para o exterior) por meio de reajuste de bolsas e melhores condições para os pesquisadores. Existe algum plano para trazer de volta os que se foram, para interferir de alguma maneira nesse desejo dos jovens de pesquisar?</strong></p>
<p><strong>LS -</strong> Nós estamos ainda muito no início, ainda estamos tateando os assuntos, fazendo diagnóstico e vendo que caminho percorrer. Eu sou muito convicta de que vai ser necessário fazer uma espécie de busca ativa para projetos específicos, por exemplo, a Ceitec (empresa pública que atua na área de semicondutores). Nós vamos suspender a liquidação da Ceitec, criar um grupo de trabalho que vai ter que chegar a uma conclusão. Ali fizemos por anos R$ 800 milhões em investimentos na fábrica de semicondutores. Quando o Bolsonaro decide liquidar, por óbvio, muitos desses engenheiros formados com dinheiro público, foram para outras empresas ou até saíram do País. Então a gente tem que fazer uma certa busca ativa, para projetos concretos, (e dizer) ‘olha, você que foi embora, a gente restaurou, volte, as condicionantes são essas’. Nós vamos ter que ser cirúrgicos, para poder, na medida em que vão se apresentando projetos estratégicos, fazendo um comitê de busca.</p>
<p><strong>JC – Como vai ser esse comitê de busca?</strong></p>
<p><strong>LS -</strong> Por exemplo, eu pretendo fazer reunião com cientistas que estão fora do País para ouvir deles quais são as variáveis que determinam que eles não queiram mais voltar. Ou aqueles que querem voltar, mas não têm atratividade para isso. Ou seja, muitas vezes a melhor maneira de você buscar caminhos é ouvir a realidade objetiva de quem se evadiu para ter soluções. Muitas vezes são soluções múltiplas, não é só uma solução, mas a gente vai ter que ser proativo nisso.</p>
<p><strong>JC &#8211; Como a senhora vê a participação do setor privado na estratégia de retomada da ciência como Política de Estado?</strong></p>
<p><strong>LS -</strong> Eu acho que é necessária porque esse é um desafio histórico que vivenciamos. Nós temos uma grande capacidade de elaboração científica, mas baixa inovação porque o nosso domínio de conhecimento científico não se traduz em produtos e serviços.</p>
<p><strong>JC – Por quê?</strong></p>
<p><strong>LS - </strong>Exatamente porque há um grande fosso ainda entre a base científica, universidades e institutos e a empresa privada. Acho que isso avançou muito, a Lei do Bem ajudou nessa direção, a Lei da Informática, há um movimento no Brasil muito significativo que é a MEI (Mobilização Empresarial pela Inovação), ligada à CNI (Confederação Nacional da Indústria), mais focada no setor produtivo. É possível dar um salto e superar esse paradoxo de termos uma produção entre as seis melhores do mundo em (publicação de) “papers” de desenvolvimento científico, mas estarmos lá embaixo no ranking de inovação. Então nós temos que botar a lei de inovação, o marco legal, o arcabouço legal que é facilitador dessa integração e a iniciativa privada entrar nesse pacote de investimentos que é necessário.</p>
<p><strong>JC &#8211; Vocês já estão conversando com alguém da iniciativa privada?</strong></p>
<p><strong>LS -</strong> Recebemos a Associação Brasileira da Indústria de Eletroeletrônicos (Abinee), que veio tratar da questão do PADIS (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores). Devemos ter uma conversa com a CNI e estive com uma das pessoas formuladoras dessa área, que foi secretário executivo fundador do Ministério no tempo de Renato Archer, o (economista e ex-presidente do BNDES) Luciano Coutinho, uma figura decisiva no processo de compreensão dessa integração.</p>
<p><strong>JC – O Luciano Coutinho vai trabalhar diretamente com vocês?</strong></p>
<p><strong>LS – </strong>Não, ele é consultor da CNI. A ideia é trazer a expertise dele no assunto de integração empresa privada com instituição de ensino e inovação.</p>
<p><strong>JC – Qual o projeto do Ministério para recuperar o apoio público ao conhecimento científico que se degradou visivelmente os últimos anos, não só no Brasil, em vários países, como efeito da onda de fake news e negacionismo?</strong></p>
<p><strong>LS -</strong> Eu acho que a maior reviravolta que temos que fazer é exaltar a nossa base científica. É ostentar que essa base científica é potente, consistente. Nós somos exportadores de inteligência em áreas dinâmicas da economia global. Nós somos exportadores de inteligência na agricultura através da nossa Embrapa; somos uma potência na indústria aérea com a nossa Embraer, somos potentes na transição energética. Nós hoje estamos desenvolvendo a nossa capacidade de produção de energias renováveis, seja por conta da Petrobras, seja por conta do hidrogênio verde, que é o futuro para substituição de combustíveis fósseis. Então nós temos que ostentar essa potencialidade brasileira para vencer o negacionismo.</p>
<p><strong>JC – Ostentar como?</strong></p>
<p><strong>LS -</strong> Difundir a nossa força, o que nós somos, para poder superar uma desqualificação que foi tentada nesses últimos quatro anos. (Por exemplo), fazer grandes campanhas da vacinação porque 34 milhões de brasileiros não receberam nenhuma dose da vacina da covid. Nossas crianças estão voltando a ter sarampo, poliomielite, então isso é uma coisa criminosa. Vamos ter que fazer campanha, vamos ter que fazer uma estratégia de afirmação dessa base com soluções apresentadas que são evidentes.</p>
<p><em>Janes Rocha – Jornal da Ciência</em></p>
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		<title>20 anos da Lei 10.639: ideia de uma cultura superior tem que ser superada, afirma relatora da regulamentação</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Jan 2023 17:37:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Vivian Costa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Divulgação Científica]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias da SBPC]]></category>

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		<description><![CDATA[Em entrevista exclusiva ao Jornal da Ciência Especial, Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva afirma que o mais importante no ensino de relações étnico-raciais não é tanto o conteúdo, mas a capacidade de dialogar com os distintos grupos sociais]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><em>Em entrevista exclusiva ao Jornal da Ciência Especial, Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva afirma que o mais importante no ensino de relações étnico-raciais não é tanto o conteúdo, mas a capacidade de dialogar com os distintos grupos sociais</em></p>
<p><a href="http://www.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2023/01/petrolina.png"><img class="alignright wp-image-19972 size-medium img-responsive" src="http://www.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2023/01/petrolina-273x300.png" alt="petrolina" width="273" height="300" /></a>Neste dia 9 de janeiro se completam exatamente 20 anos da aprovação da Lei 10.639/03 que instituiu a obrigatoriedade do estudo da História e Cultura da África e Afro-brasileira no âmbito dos sistemas de ensino da edu­cação nacional. Sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seu primeiro mandato, a Lei foi regulamentada no ano seguinte pelo Conselho Nacional de Educação (CNE/CP 003/2004).</p>
<p>Para celebrar a data, o Jornal da Ciência especial traz uma entrevista exclusiva com Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, relatora da regulamentação.</p>
<p>Primeira mulher negra a compor o Conselho Nacional de Educação, Gonçalves e Silva é nascida em Porto Alegre, no bairro Colô­nia Africana, em 1942. Professora emérita da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), ela é licenciada em Letras e Francês (1964), possui mestrado em Educação (1979) e é doutora em Ciências Humanas – Educação (1987) pela Univer­sidade Federal do Rio Grande do Sul.</p>
<p>Na entrevista ao Jornal da Ciência, ela apre­senta sua visão sobre a difícil marcha da luta antirracista no País. <a href="http://jcnoticias.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2022/12/JC_801.pdf">Confira os princi­pais trechos na nova edição do Jornal da Ciência Especial</a> e ouça o episódio <a href="https://open.spotify.com/episode/4Jm3TuZVDLCFJvt9OYcRDV" target="_blank">T4#4 &#8211; África-Brasil na escola do podcast O Som da Ciência</a>, que traz mais sobre o tema.</p>
<p><em>Janes Rocha – Jornal da Ciência</em></p>
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		<title>O avanço das mulheres negras nas ciências</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Jun 2022 16:12:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Vivian Costa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Educação]]></category>
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		<category><![CDATA[Grandes Temas]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres cientistas]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias da SBPC]]></category>

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		<description><![CDATA[Referência na pesquisa e na luta antirracista, a pedagoga Nilma Lino Gomes acredita que as ações afirmativas - em especial a Lei de Cotas – já mudaram a face e a cor da educação e da ciência no Brasil. Confira a entrevista na nova edição do Jornal da Ciência Especial]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><em>Referência na pesquisa e na luta antirracista, a pedagoga Nilma Lino Gomes acredita que as ações afirmativas &#8211; em especial a Lei de Cotas – já mudaram a face e a cor da educação e da ciência no Brasil. Confira a entrevista na nova edição do Jornal da Ciência Especial</em></p>
<p><a href="http://www.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2022/06/Nilma.png"><img class="alignright wp-image-17834 size-medium img-responsive" src="http://www.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2022/06/Nilma-236x300.png" alt="Nilma" width="236" height="300" /></a>Jaqueline Goes de Jesus, biomédica. Anna Canavarro Benite, química. Sonia Guimarães, física. Sueli Carneiro, filósofa. Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, educadora.</p>
<p>Essas mulheres têm em comum o destaque que obtiveram em suas carreiras nas ciências, todas elas reconhecidas e premiadas. E também o fato de serem negras.</p>
<p>Isso faz muita diferença em um país com o passado e o presente racista estrutural como o Brasil, no qual os afrodescendentes partem de uma significativa desvantagem em relação aos demais grupos étnicos da população.</p>
<p>Mas a pedagoga Nilma Lino Gomes está segura de que isso está mudando e cita aquelas mulheres como exemplo de que a presença da mulher negra na ciência começa a ser mais notada. “Tenho muita esperança e expectativa que a política de ação afirmativa por meio das cotas raciais esteja possibilitando a construção e a preparação de outras mulheres e jovens mulheres negras que vão seguir carreira científica em nosso país”, afirmou.</p>
<p>Professora titular e emérita da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ex-Ministra da Mulher, da Igualdade Racial e Direitos Humanos (2015–2016), referência na pesquisa e na luta antirracista e pelas ações afirmativas, Gomes também é uma vencedora em sua área, a Educação. Ela teve seu trabalho reconhecido pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) este ano, ao conceder-lhe o prêmio Carolina Bori Ciência e Mulher na área Humanidades.</p>
<p>Em entrevista exclusiva ao Jornal da Ciência, Nilma Lino Gomes fala dos desafios da Educação após dois anos de pandemia, faz um balanço dos dez anos da Lei de Cotas e traça perspectivas para os grupos com histórico de desigualdades, exclusão e discriminação, em especial as mulheres e meninas negras, na educação e nas ciências.</p>
<p><a href="http://jcnoticias.jornaldaciencia.org.br/wp-content/uploads/2022/06/JC_798.pdf" target="_blank">Leia a entrevista na íntegra, na nova edição do Jornal da Ciência especial que está disponível para download gratuito.</a></p>
<p>Baixe o seu exemplar e boa leitura!</p>
<p><em>Janes Rocha – Jornal da Ciência</em></p>
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