Cientistas são pessoas que questionam constantemente a maneira como vemos o mundo. Sem a liberdade para esse questionamento, a ciência não faz sentido
Marcelo Medeiros é pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Artigo enviado pelo autor ao 'JC e-mail';
A seção de Direitos Humanos da Associação Americana para o Progresso da Ciência, uma das maiores sociedades científicas do mundo, acaba de lançar seu relatório 2003 sobre os Cientistas, Engenheiros e Profissionais de Saúde perseguidos ao redor do mundo.
O objetivo do relatório é proteger a liberdade de produção científica por meio do monitoramento de violações dos direitos humanos de cientistas em função do exercício de suas atividades. Todos as denúncias recebidas são apuradas por uma comissão independente.
É impressionante o grau de cerceamento da liberdade científica ao redor do mundo. Cientistas são demitidos, presos, exilados e torturados simplesmente porque seu trabalho científico vai de encontro a interesses econômicos, políticos e religiosos.
Mais impressionante ainda é o Brasil ocupar parte de destaque entre os países que não respeitam a liberdade científica.
Nossos cientistas perseguidos estão na capa do relatório e constituem cerca de um quinto de todas as violações de direitos humanos de cientistas constatadas no continente americano.
Das 55 denúncias comprovadas no mundo, onze ocorreram nas Américas. Destes, dois são brasileiros. Como muitos casos sequer são denunciados, é possível que estes números sejam ainda maiores.
A ciência ocupa um papel central na organização das sociedades modernas.
Ela produz não somente novas tecnologias, mas conhecimentos que ajudam a lidar com conflitos de interesses, formular políticas econômicas, compreender diferenças culturais, tornar a mente, o corpo e nosso meio-ambiente mais saudáveis, educar os jovens e uma infinidade de outras coisas que podem contribuir para que tornemos o mundo melhor.
Mais do que isso, a ciência, ao colocar em xeque preconceitos e ideologias, torna-se um dos pilares sobre os quais se constrói uma sociedade democrática e pluralista.
Mas, para ser um dos motores do desenvolvimento de um povo, a ciência precisa ser livre.
Cientistas são pessoas que questionam constantemente a maneira como vemos o mundo. Sem a liberdade para esse questionamento, a ciência não faz sentido.
Fora de um ambiente livre é impossível saber se os resultados apresentados pelos cientistas correspondem a um trabalho que é o mais rigoroso e imparcial possível ou são simplesmente uma justificativa para interesses específicos disfarçada sob a autoridade do discurso científico.
Um Brasil que quer ser melhor e mais justo não pode tolerar a perseguição de seus cientistas.
Por isso devemos apoiar tanto o Estado quanto a Sociedade Civil no monitoramento constante do respeito à liberdade científica no país.
O respeito às liberdades de pesquisa e de cátedra devem continuar sendo algumas das prerrogativas da política científica nacional e os casos de violação dos direitos humanos dos cientistas devem ser tratados como problemas que extrapolam os direitos de um indivíduo e afetam uma instituição importante de nossa sociedade.