Pesquisador da Uerj critica a política do Comitê Assessor de Filosofia do CNPq
Será pesquisa e desenvolvimento?
Mensgem de Carlos Lungarzo (Lógica/UERJ) (lungarzo@hotmail.com):
Em 08/2001 publiquei uma queixa contra o Comitê Assessor de filosofia do CNPq (doravante CAF), por trato discriminatório (JC/465) e uso de injúrias.
Agora, desejo apresentar uma denúncia mais geral, referida à política global do CAF. Não sei há outros CA's na mesma situação, mas tenho certeza de que esta política não é maioria no CNPq.
Minha área de trabalho é lógica aplicada. Desde minha chegada ao Brasil (1976) pesquiso lógica quântica e, desde que recebo bolsa PQ (10/1989), trabalho em suas aplicações em ciência cognitiva e em inteligência artificial.
Minha especialidade não é vital para o Brasil, nem minha produção tem especial qualidade; mas não é menos científica que indagar se Hilbert tomou a palavra 'Beweis' de Frege, ou discutir se o número 14622,09 é um objeto real ou uma construção simbólica.
Minha pesquisa foi sempre enquadrada na área 7.01.03.00-3 que é sub-área de Filosofia (7.01.00.00-4), por não existir nenhuma rubrica autônoma na Tabela do CNPq.
Existem algumas outras áreas de excelente nível, mas muito específicas. Assim, 1.01.01.02-0 acolhe a lógica puramente matemática, e 1.03.01.04-6 a lógica específica de linguagens de programação.
O enfoque interdisciplinar da lógica deveria caber em 7.01.03.00-3, mas isso conta com a aversão dos filósofos. Já no caso da ciência cognitiva, a única sub-área geral é 7.01.05.00-6 (epistemologia) também dentro de filosofia.
As áreas de processos cognitivos, 7.07.02.03-9, psicologia cognitiva, 7.07.06.00-0 e percepção, 7.07.07.01-4, não tem relação com lógica.
O anacronismo não é culpa do CNPq. Desde 86, várias propostas dos lógicos para criar uma área autônoma, bem como um departamento de lógica na Unicamp, foram rejeitadas pelos filósofos dessa universidade e outras.
Desde 89, apesar de esporádicas ameaças, minha bolsa nunca foi cortada, o que estimulou minha crença de que seria mantida enquanto meu trabalho fosse bom, sem perceber que o verdadeiro motivo era que o número de pessoas que esperavam apadrinhamento não formava ainda massa crítica.
O corte da bolsa atual foi feito no julgamento do CAF correspondente a 10/2002. O projeto, que, junto com os anexos, compreende quase 110 páginas (uns 200.000 caracteres), é qualificado em 170 caracteres, onde se afirma que tal coisa 'não leva a nada'.
Posso enviar detalhes a quem se interessar. Não tenho provas de que, entre os fatores que influíram, esteja a represália por minha denúncia anterior, mas também não descarto.
Supondo que o CAF tenha agido de maneira honesta, cabe perguntar-se: o que eles acham que é 'pesquisa'? Parece que fosse algo casual, descontínuo e randômico, no qual as pessoas trabalham quando seu orçamento mostra déficit e precisam compensar com a bolsa.
O CAF não mostra acreditar que a pesquisa é um processo de interações permanentes, seqüenciais e paralelas, que tende a formar redes de conhecimento, e cuja destruição prejudica mais aos usuários da pesquisa e a suas instituições, que ao próprio pesquisador.
É pena que os filósofos não tenham aprendido isto, que sempre ensinamos em disciplinas como metodologia da ciência, e que deveriam lembrar, tendo em conta o gigantesco esforço que fazem para tirar um C, mesmo colando.
Talvez eles queiram que eu tire umas férias. Agradeço, mas uma parada em minha pesquisa seria, acho, irreversível.
Desconheço qual é o efeito de uma interrupção numa pesquisa sobre, por exemplo, como teria sido a obra de Kant, se ele tivesse vivido antes de Descartes, mas, em minha atividade, um ano de atraso não poderá ser descontado.
A política do CAF sempre foi alocar bolsas entre seus amigos e repartir as sobras. Mas, as bolsas vão aumentar de valor, e as sobras viraram cobiçáveis.
Não estou sugerindo que estes procedimentos sejam novidade. Eu já fui professor de lógica em ambientes filosóficos.
Em 90 e em 94, na filosofia da Unicamp, fui criticado por propor a convocação de concursos para cobrir vagas de professor, e ter votado contra sua atribuição aos apadrinhados de professores que foram, depois, assessores do CAF.
Um detalhe: na demanda 10/2002, alguns de meus ex-alunos da Unicamp obtiveram bolsas, o que é normal. Mas nem todos eram alunos padrão. Um teve sua tese aprovada por mim, em 89, depois que eu recebi pressões além de minha resistência.
Outro é um professor da UFSC que abandonou minha disciplina de lógica básica, em 10/87, depois de duas reprovações. De meus bons alunos (que houve), apenas um teve algum período de bolsa de pesquisador.
Meu objetivo não é reclamação pessoal. A vida da gente não acaba com o fim da pesquisa. Denuncio este fato para estimular à parte saudável da comunidade CNPq (a grande maioria) a se defender.
Não é que os especialistas em ciências 'duras' desconheçam o valor das ciências humanas. Biólogos, computólogos, estatísticos, etc. colaboram com o maior prazer com antropólogos, historiadores, sociólogos empíricos, especialistas em relações inter-étnicas, etc.
O problema é se qualquer registro de comentários ou livres associações pode ser considerado ciência, humana ou não? E, em caso afirmativo, como deve ser avaliado?
A queixa contra governos que negam verbas à ciência é justa, mas também devemos cuidar, nós mesmos, do aproveitamento do pouco dinheiro existente.
É freqüente ler queixas de jovens pesquisadores em geologia, oceanografia, imunologia, nutrição, etc., que não conseguem uma bolsa de recém doutor por 'falta de dinheiro'.
Como será que se sentem ao saber que as agências que apóiam o conhecimento científico, financiam, por exemplo, pesquisas sobre ceticismo (sic)?
Finalmente, uma nota divertida: nos últimas décadas, vários países desenvolvidos acabaram com o apoio oficial aos estudos de teologia. Há poucos anos, o CNPq acrescentou esta 'novidade' nas sub-áreas 7.10.00.00-3; 7.10.01.00-0; 7.10.02.00-6; 7.10.03.00-2; e 7.10.04.00-9.
Acho que há dois problemas, talvez relacionados, porém, não de maneira clara:
Um é o gerado pelos procedimentos corporativos, tendenciosos, subjetivos, de alguns CA's. Outro é a falta de interesse, verificabilidade e continuidade de algumas 'pesquisas'.
Talvez ambos não possam ser atacados ao mesmo tempo, mas o poder público deveria, pelo menos, tentar.'