Ricardo Ferreira: 'Teoria da evolução das espécies por seleção natural não está completa em todos os detalhes, mas vai muito bem'
O professor do Depto. de Química Fundamental da UFPE comenta as cr[iticas de Enézio E. de Almeida ao Darvinismo, em artigo publicado aqui no 'JC e-mail'
Eis a carta de Ricardo Ferreira:
'No JC e-mail/2221, de 14/2, o sr. Enézio E. de Almeida Filho faz severas críticas ao Darwinismo, insistindo em que a seleção natural não é o mecanismo exclusivo ou mesmo o mais importante para a modificação evolutiva dos seres vivos.
O sr. Almeida Filho começa criticando as experiências do tipo realizadas em 1953 por Stanley Miller, orientando de Harold Miller, sobre a produção de moléculas orgânicas como amino ácidos, ácidos lático, acético e propiônico, ureia e outros compostos, a partir de mistura gasosa formada por metano, amonia, agua e hidrogênio, sob a ação de descargas elétricas.
Segundo Almeida Filho, as experiência não conseguem ir além de amino ácidos, insignificantes tijolos na construção de proteínas.
Acentua ainda o fato de que informações geológicas mais recentes terem indicado que a atmosfera primitiva da Terra era muito menos redutora do que a usada por Miller.
Na realidade, nos últimos 50 anos que nos separam das experiências de Miller, pesquisadores em dezenas de laboratórios não apenas utilizaram atmosferas iniciais contendo CO e CO2, mas, introduzindo moléculas simples como as de ácido fosfórico e sulfeto de hidrogênio, conseguiram obter toda uma gama de monômeros de importância biológica, inclusive ribosídeos ,ribotídeos e ATP.
Mas a síntese de moléculas de importância potencial na biogênese vem se expandindo, desde 1984, pelos trabalhos de Orgel, Joyce, von Kiedrowski, Zelinski e outros, sobre a síntese não-enzimatica, dirigida por moldes moleculares, de macromoléculas informacionais contendo até 30 unidades.
Nestas experiências se notou o fenômeno designado por Orgel e outros como 'inibiçao enatiomérica cruzada', que nos leva a certas dificuldades com relação à produção de polímeros homoquirais, a partir de uma solução de monômeros racêmicos.
Estas são verdadeiras dificuldades que terão que ser compreendidas e
contornadas antes da obtenção de macromoléculas tipo proteínas, com todos os amino ácidos de mesma qualidade.
De enorme importância no caminho da nossa compreensão de como se originaram as macromoléculas de importância biológica como proteínas, açucares e ácidos nucleicos foi a descoberta e isolamento por T. Cech e por S. Altman, entre 1982-83, de RNAs com propriedades enzimáticas, os ribosimas.
Pela primeira vez tinha sido possível demonstrar a presença, nas células vivas, de polímeros que funcionam simultaneamente como genótipo (armazenando e transferindo informação) e fenótipo (realizando tarefas típicas de proteínas enzimáticas).
Estas grandes descobertas abriram a portas para a proposta da existência de um 'Mundo do RNA', que teria precedido nossos sistemas vivos atuais.
Almeida Filho concentra-se depois na conhecida fraude cometida pelo biólogo Ernest Haeckel (fins do século XIX) na tentativa de apresentar provas para sua lei biogenética, segundo a qual 'a ontogenia recapitula a filogenia'.
A proposta de Haeckel é de que os estágios observados na mudança dos embriões de vertebrados até o estágio adulto recapitularia os estágios na evolução das espécies (peixes, anfíbios, repteis e mamíferos).
Para demonstrar sua teoria, Haeckel publicou desenhos de embriões de vertebrados em vários estágios de desenvolvimento.
A partir de 77, M. Richardson e outros investigadores, usando microfotografias dos embriões referidos por Haeckel, mostraram que o conhecido cientista tinha arredondado e deformado suas imagens, para as tornar mais conformes suas idéias teóricas.
Um caso de fraude, o mais grave pecado que um cientista pode cometer, mas que não se restringe a trabalhos sobre a Teoria da Evolução.
Muito antes da fraude cometida por Haeckel ter sido exposta, era claro que a lei de recapitulação não tinha fundamento algum e não poderia ser válida.
Isto porque o desenvolvimento embrionário é condicionado pelo controle genético de cada um dos seus passos: o embrião, bem como o adulto, está contido no genoma presente no ovo, com suas instruções.
As novas espécies, ao contrário, dependem do genoma original e de possíveis mutações e fixações que não estão escritas no genoma.
Almeida Filho detém-se depois no fato de que o registro fóssil é reconhecidamente incompleto, assinalando as dificuldades bem conhecidas nesta área, em particular na questão dos antecessores do Homo sapiens.
Aquí também, ocorrem falsificações, como a do 'Homem de Piltdown', desmascarada em 1949.
Refere-se Almeida Filho ainda a outra falsificação dos resultados, no caso do melanismo industrial apresentado pela mariposa Biston betularia nas áreas industrializadas a partir de 1800 na Inglaterra central e do Norte.
Há duas espécies parecidas da betularia, uma mais clara outra muito escura, e enquanto a espécie clara era dominante antes de 1850, houve uma inversão nas populações, depois daquela data.
É exemplo claro da seleção natural em ação, pois os troncos e ramos das plantas, originalmente claras, ofereciam uma camuflagem segura para as betulárias claras, com relação aos passaros predadores.
Com a fuligem produzidas pelos moinhos, fábricas e fundições, as árvores foram se escurecendo, e dando maior proteção às mariposas escuras, daí resultando uma inversão na população relativa das duas espécies.
Esses fatos permanecem válidos, mas uma teoria matemática detalhada foi proposta por Ronald Fisher por volta de 1930, e um médico, B. Kettlewell realizou experiências de campo na década 50, 'provando' que o modelo teórico descrevia de maneira perfeita as variações encontradas nas populações das mariposas.
Dúvidas surgiram, porém, sobre a integridade de Kettlewell, que teve rejeitada sua proposta de ingresso na Royal Society de Londres (a Academia de Ciências da Inglaterra) e o episódio terminou tragicamente com o suicídio de Kettlewell.
Ficou-se sabendo de fraudes terríveis cometidas por Kettlewell, que aprisionava betulárias nos troncos das árvores com fita durex, arredondando assim seus números a respeito de betulárias sobreviventes ou mortas.
Essas falsificações de dados ocorrem, infelizmente, em todas as áreas científicas, e não é sem razão que a reproducibilidade das experiências é uma condição básica para a sua aceitação no corpo científico.
Finalmente, Almeida Filho refere-se às dificuldades ligadas ao conceito de homologia, de estruturas homólogas. O problema central aquí é o fato bem conhecido de que semelhança fenótipa não garante relação filogenética.
Os evolucionistas sabem muito bem que têm que diferenciar homologia de analogia, e que, feita esta distinção, é necessário certificar-se se a homologia é ancestral ou derivada.
Analogias e homologias ancestrais podem ser compartilhadas por animais que não compartilham uma relação filogenética.
Esses são cuidados sempre tomadas pelos evolucionistas competentes.
Finalizando, a teoria da evolução das espécies por seleção natural não está, é obvio, completa em todos os seus detalhes, mas caminha muito bem.
Contando os evolucionistas moleculares, área introduzida na Ciência Biológica em 62 por Pauling e Zuckerkandl, hoje os estudiosos na área contam-se por milhares, em dezenas de laboratórios espalhados pelo Mundo.
Grandes avanços ocorrem praticamente todos os dias, mas seriam certamente ofuscados se conseguirmos encontrar seres vivos, ou seus fosseis, fora da Biota da Terra,por exemplo em Marte.
Descobertas nesta área da assim chamada Exobiologia daria-nos 'insights' novos e importantes sobre a teoria central da Biologia, como insistia Theodosius Dobzhansky: a Teoria da Evolução por Seleção Natural, tal como descrita pelo neodarwinismo.