Cientistas e professores revelaram uma fortaleza moral cada vez mais rara no mundo da pesquisa, que tanto mais se afasta da vida pública quanto mais depende do dinheiro idem
Marcelo Leite, editor de Ciência, escreve no caderno 'Mais!' da 'Folha de SP' a coluna 'Ciência em Dia' (cienciaemdia@uol.com.br), onde publicou este texto:
Algumas das lendas urbanas sobre a ambivalência do saber e da ciência que se propagam com facilidade pelo aparelho educacional têm fundamento, como a que aponta a ironia do fato de o francês Antoine Lavoisier (1743-1794) ter trabalhado para os primeiros governos da Revolução Francesa e depois terminar executado na infame guilhotina.
Outras são bem menos plausíveis, como a que dá por favas contadas que o sueco Alfred Nobel (1833-1896) doou sua fortuna para instituir os prêmios que levam seu nome por arrependimento pela invenção da dinamite, em 1866, e pelos males causados à humanidade.
A petizada dos bancos escolares não tem como avaliar o conteúdo factual das lendas, e a exuberância moral dessas histórias acaba prevalecendo.
Dinamite, guerra, Nobel da Paz - simples, convincente, e duvidoso. Basta dizer que há mais de um século o exército dos EUA abandonou o uso da dinamite como munição.
Hoje, a invenção de Alfred Nobel ainda encontra usos bélicos, como na arcaica demolição de casas de palestinos por israelenses, mas aí é complicado falar em 'arma', no sentido tradicional.
Por outro lado, é incontroversa a vinculação do Prêmio Nobel com guerra e explosivos - pela via da condenação. Em 1997, a ONG International Campaign to Ban Landmines abocanhou um Nobel da Paz por combater a mais covarde das armas, minas terrestres.
Linus Pauling, que havia recebido um de Química em 1954 pela elucidação da natureza da ligação química, ganhou o da Paz em 1962, por sua insistente campanha contra o uso de armas nucleares, mesmo no ambiente adverso dos EUA e ensandecidos pela perseguição a comunistas reais e imaginários.
Os tempos são outros, e outras manias afligem a grande nação do norte.
Na tradição de Pauling, porém, um grupo considerável de nobelistas que vivem nos EUA - 41, de todas as áreas, sendo só nas de ciências naturais há 207 deles, vivos e mortos - veio a público e se pronunciar contra a guerra de George W. Bush contra Saddam Hussein.
Eis a relação dos nomes desses cientistas e professores que revelaram uma fortaleza moral cada vez mais rara no mundo da pesquisa, que tanto mais se afasta da vida pública quanto mais depende do dinheiro idem:
George A. Akerlof (economia), Philip W. Anderson (física), Paul Berg (química), Hans A. Bethe (física), Nicolaas Bloembergen (física), Paul D. Boyer (química), Leon N. Cooper (física), James W. Cronin (física), Robert F. Curl Jr. (química), Val L. Fitch (física), Robert F. Furchgott (medicina), Sheldon L. Glashow (física), Roger Guillemin (medicina), Herbert A. Hauptman (química), Alan J. Heeger (química), Louis J. Ignarro (medicina), Eric R. Kandel (medicina), Har Gobind Khorana (medicina), Lawrence R. Klein (economia), Walter Kohn (química), Leon M. Lederman (física), Yuan T. Lee (química), William N. Lipscomb (química), Daniel L. McFadden (economia), Franco Modigliani (economia), Ferid Murad (medicina), George E. Palade (medicina), Arno A. Penzias (física), Martin L. Perl (física), William D. Phillips (física), Norman F. Ramsey (física), John Robert Schrieffer (física), William F. Sharpe (economia), Jack Steinberger (física), Joseph H. Taylor Jr. (física), Charles H. Townes (física), Daniel C. Tsui (física), Harold E. Varmus (medicina), Robert W. Wilson (física) e Ahmed H. Zewail (química). (Folha de SP, Mais!, 16/2)