Os desastres da guerra, artigo de Mario Vargas Llosa
Opor-se a esta guerra no Iraque não é combater os EUA, mas sim defender os princípios de liberdade e legalidade que fizeram da terra de Lincoln e Martin Luther King a mais forte e próspera democracia do mundo
Mario Vargas Llosa é romancista e ensaista peruano. Texto publicado em 'O Estado de SP':
Ao contrário do que aconteceu com a Guerra do Golfo, ou com as intervenções militares em Kosovo e no Afeganistão, que contaram com um amplo apoio da opinião pública internacional, a iminente ação armada dos EUA no Iraque está sendo objeto de um repúdio em massa em quase todo o o mundo, por razões que me parecem legítimas e são compartilhadas por muitas pessoas, que - como o autor deste artigo - se solidarizaram com as ações aliadas para resgatar o Kuwait da invasão de Saddam Hussein, para conter o genocídio sérvio contra os kosovares ou para derrubar o regime terrorista dos taleban afegãos ligados à Al-Qaeda e a Osama bin Laden.
Todas as guerras são cruéis e causam inúmeras vítimas inocentes, além de destruições materiais indescritíveis a uma nação. Mas, apesar disso, há guerras justas - aquelas que só se pode evitar pagando um preço muito mais alto do que custaria assumi-las, como a que travaram as potências ocidentais contra Hitler e o nazismo.
Somente quando se torna evidente que a alternativa seria muito pior pode-se justificar uma disputa bélica, como em 1939, em nome dos direitos humanos, da soberania, da legalidade internacional e da liberdade.
A vasta oposição contra uma intervenção armada no Iraque deve-se ao fato de que, neste caso, não estão claros, mas tremendamente turvos e confusos, os motivos dessa guerra e os objetivos que se espera alcançar com ela.
É verdade que Saddam Hussein é um ditador sanguinário, que invadiu seus vizinhos, utilizou armas químicas e bacteriológicas contra o próprio povo e instaurou um regime policial de censura e terror.
Mas, de quantos outros governantes, nas vizinhanças do Iraque e em outras regiões do mundo, não se poderia dizer coisas muito semelhantes?
Que são o Irã, a Síria, a Líbia, a Arábia Saudita , Zimbábue e bom número de países africanos e asiáticos senão satrapias indecentes, que diariamente violam os direitos mais elementares de seus cidadãos, mantidos sob um regime de obscurantismo e pavor?
Não é, pois, verossímil que, por trás dessa guerra, se encontre a intenção louvável de ajudar o povo iraquiano a emancipar-se de uma ditadura e forjar uma democracia?
Não é também verossímil que o objetivo seja obrigar o regime iraquiano a desarmar-se das armas químicas, bacteriológicas e talvez nucleares que está ocultando, em flagrante violação de 16 resoluções das Nações Unidas, com as quais não se importou, pois a existência desse arsenal constitui um perigo para a comunidade internacional e, especialmente para os EUA, marcados desde o dia 11 de setembro de 2001 como o alvo primordial da Al-Qaeda e outras organizações terroristas do fundamentalismo islâmico?
E não é igualmente verossímil, porque, não apenas o Iraque, mas, infelizmente, vários outros países - Índia, Paquistão, Israel, Coréia do Norte - possuem ou se ufanam de possuir armamentos atômicos, transgredindo com a mais insolente jactância todos os acordos e resoluções internacionais destinados a frear a proliferação de armas de destruição em massa e a reduzir as existentes?
Provavelmente é certo que Saddam Hussein esteja ocultando armas proibidas, muito embora os inspetores da ONU - que buscam agulhas em um palheiro - não as consigam encontrar.
Mas dizer que, nas atuais circunstâncias, esse regime, empobrecido por um embargo severo, e quase esfarrapado possa atentar contra as potências ocidentais - e contra a superpotência americana -, cuja resposta automática o volatilizaria em poucos minutos, parece mais do que inverossímil: um pesadelo delirante.
Além disso, se fosse este o motivo, a prioridade deveria ser não o Iraque, mas a Coréia do Norte, de Kim Jong Il, que, ao mesmo tempo em que reiniciou suas experiências atômicas, acaba de lançar uma desmesurada bravata, ameaçando os EUA com um ataque atômico preventivo contra as cidades americanas!
As razões alegadas por Washington para justificar uma ação armada contra o Iraque são débeis e insuficientes e deixam sempre pairando no ar a sensação de que o Iraque e Saddam Hussein foram escolhidos entre outros desprezíveis ditadores e tiranias, mais para levar a cabo um castigo exemplar, capaz de desagravar psicológica e moralmente os EUA dos horrendos atentados, da humilhação e dos milhares de mortos do dia 11 de setembro, do que pelas causas expostas perante o Conselho de Segurança pelo presidente George W. Bush e o general Colin Powell ao pedirem à comunidade internacional seu apoio para a guerra.
E, sem dúvida, aumenta o incômodo e o mal-estar que esta iniciativa beligerante desperta em muitos amigos e admiradores dos EUA - entre os quais eu me incluo - o fato de que o Iraque seja, depois da Arábia Saudita, o país que dispõe das maiores reservas de petróleo do mundo.
Nos últimos dias, a imprensa americana está ventilando este assunto sem o menor disfarce: o futuro abastecimento de combustível dos grandes países ocidentais não pode ficar nas mãos de tiranos irresponsáveis que, por fanatismo, cobiça ou qualquer outro motivo desprezível, poderiam praticar uma chantagem feroz , paralisando as indústrias e fazendo desmoronar os níveis de vida.
Que papel joga esta análise na decisão do governo Bush de intervir no Iraque, com ou sem a aprovação das Nações Unidas? O simples fato de ter de formular esta interrogação é, para mim, um motivo mais do que suficiente para rechaçar esta guerra e condená-la.
É curiosa esta guerra do Iraque, que ainda não começou e já deixou o campo coalhado de mutilados, feridos e semiferidos. Uma de suas primeiras vítimas foi a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que, em seu meio século de história, nunca havia dado o espetáculo de crise e divisão que mostrou nestes dias, quando a Alemanha, a França e a Bélgica vetaram a proteção solicitada pela Turquia, país membro da organização, no caso de um confronto armado no Iraque.
O argumento dos três governos foi o de que apoiar esse pedido pressupunha um aval para a intervenção militar, contra a qual eles têm sérias reservas.
Isso levou muitas pessoas a perguntarem se ainda tem sentido a existência da Otan agora, após o desaparecimento da URSS e quando, entre os países que integram o tratado, existam antagonismos tão visíveis e drásticos, como os que a questão do Iraque mostrou à luz do dia, entre os EUA e certos países europeus e entre as próprias nações da Europa. Será que, de fato, a Otan tem sentido?
O Iraque foi o ageante corrosivo que dissolveu a educada fantasia que os países empenhados em construir a União Européia estavam representando em relação ao que deveriam ser no futuro as relações da Europa com os EUA, mostrando às claras as duas posições radicalmente opostas que existem em seu seio e, analisadas friamente, são tão profundas e graves que poderiam significar um obstáculo insuperável para a integração.
A França se empenhava em difundir a tese de que apenas a Grã-Bretanha entendia a Europa como uma associação concebida em estreita aliança política, econômica e militar com os EUA, mas os acontecimentos das últimas semanas mostraram que a 'Pérfida Albion' não está sozinha, mas muito bem acompanhada, nesta concepção a respeito do que deveria ser a futura Europa.
Se assim não fosse, tantos governos europeus se teriam arriscado, apesar da oposição majoritária de seus povos contra a guerra, a proclamar sua solidariedade aberta com os EUA em seus planos bélicos?
Esta posição é rejeitada com energia pela Alemanha e França, a coluna vertebral da União Européia, para as quais esta confederação de nações deve erigir-se em absoluta independência em relação aos EUA e como um contrapoder - um competidor e até um rival - da superpotência mundial.
Enganam-se os que supõem que esta seja uma divergência conjuntural, oriunda da crise do Iraque. Ao contrario, esta última foi apenas a circunstância, ou o pretexto que a trouxe da penumbra em que se escondia para plena luz.
Será que as nações européias - postas em confronto por culpa de Saddam Hussein, poderão, logo depois que esta tragédia estiver concluída, reabsorver suas diferenças abismais e restabelecer o denominador comum agora prejudicado?
O mínimo que se pode dizer é que não será tão fácil e, portanto, a edificação da Europa terá sido uma das primeiras vítimas da guerra do Iraque.
Os acontecimentos destes dias reativaram a inimizade e o ódio que os EUA inspiram aos europeus de distintas linhagens, algumas vezes por razões políticas e ideológicas, e outras, simplesmente pelo ressentimento e a inveja que normalmente desperta a primeira potência mundial.
Não apenas os nostálgicos do comunismo e do fascismo, que nós vemos - espetáculo obsceno! - de braços dados manifestando-se contra a guerra, mas muitos democratas convictos e confessos de toda a vida, irritados por uma ação, sob todos os ângulos arbitrária e prepotente, do governo Bush, se deixam dominar por um clima de vitupério e caricaturização grotesca do que os EUA são e representam, fazendo-nos retroceder ao maniqueísmo da guerra fria.
Os que agem deste modo se esquecem de que nos EUA há uma mobilização muito importante contra a ação armada no Iraque e mais de um terço da sociedade americana a rejeita.
Opor-se a esta guerra no Iraque não é combater os EUA, mas sim defender os princípios de liberdade e legalidade que fizeram da terra de Lincoln e Martin Luther King a mais forte e próspera democracia do mundo. (O Estado de SP, 16/2)