Pesquisadores brasileiros descobrem nas sementes da árvore proteínas com ação terapêutica
Nas sementes do pau-brasil pode estar o futuro para a sobrevivência e o desenvolvimento sustentável de uma espécie que vem sendo explorada há séculos, praticamente desde que o país ao qual empresta o nome foi descoberto.
Nas sementes da planta, que ainda está ameaçada de extinção, existem proteínas com propriedades antiinflamatórias e anticoagulantes. Elas vêm sendo estudadas, com possibilidade de que possam, em breve, ser usadas no tratamento de doenças como a psoríase (inflamação na pele) e o mal de Alzheimer.
- No caso do mal de Alzheimer, ainda estamos num estágio inicial, mas bastante promissor - afirma a pesquisadora Mariana da Silva Araújo, do Departamento de Bioquímica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
- É que uma dessas proteínas, chamada de CeKI, já provou ser capaz de inibir a produção de enzimas, como a calicreína, envolvidas com o mal de Alzheimer. É nisso que estamos trabalhando atualmente.
Como ressalta a pesquisadora, há muitos anos têm sido descritos os usos medicinais das folhas, da casca e madeira do pau-brasil (Caesalpinia echinata). O trabalho com as sementes, porém, é relativamente recente (desde 2000) e é feito unicamente pelo grupo da Unifesp.
Ação contra veneno de peixe e edema pulmonar
As primeiras etapas das pesquisas envolveram testes com a proteína CeKI, que revelou ser capaz de inibir a ação de enzimas que participam dos processos de coagulação do sangue.
- Os testes mostraram que ela causava significante prolongamento do tempo de coagulação - conta a pesquisadora. - Ela também revelou ser eficiente ao restituir condições normais à pele de camundongos afetados pela psoríase.
A proteína também demonstrou ser útil para conter a dor e a inflamação causadas pelo veneno de um peixe, o niquim, comum no Nordeste.
- Os acidentes causados pelo veneno desse peixe são caracterizados por edema, dor intensa e necrose no local da ferroada. E mais uma vez, a CeKI respondeu bem, atuando como antiinflamatório, diminuindo a ação do veneno.
Boa parte desses estudos foram relatados no livro "Pau-brasil, da semente à madeira", de Rita de Cássia Figueiredo Ribeiro e colaboradores, publicado pelo Instituto de Botânica de São Paulo em 2008.
- O conhecimento cientifico em torno do pau-brasil tem muitas lacunas, que aos poucos vão sendo preenchidas, como é o caso dessas pesquisas com suas sementes - diz Yuri Tavares Rocha, do Departamento de Geografia da USP, colaborador do livro.
Recentemente, outra proteína extraída das sementes do pau-brasil, chamada de CeEI, mostrou-se eficiente na diminuição de edemas em pulmões de cobaias.
- Essa proteína é inibidora de uma enzima chamada elastase, cujo excesso pode ocasionar a síndrome da angústia respiratória do adulto (SARA), uma doença caracterizada por uma grave insuficiência respiratória - diz Mariana.
O melhor é que os estudos se desenvolvem sem que seja necessário cortar uma árvore sequer de pau-brasil. É que o gene de uma dessas proteínas (CeEI) já foi clonado pelo grupo de pesquisadores.
- Com isso, podemos realizar as pesquisas sem a necessidade de usar as sementes originais - afirma Mariana.
Mas como lembra Yuri, apesar desses avanços, a ameaça de extinção ainda paira sobre o pau-brasil.
- Trata-se de uma espécie cujo estado de conservação ainda é precário. E infelizmente não há uma política nacional de preservação do pau-brasil.