Área é considerada estratégica, mas faltam professores e novos cursos
Lisandra Paraguassú escreve para "O Estado de SP":
O projeto brasileiro de crescer 6% ao ano pode esbarrar em um problema básico: a falta de engenheiros. Apesar de ter crescido nos últimos anos, essa é uma área da graduação que anda a passos lentos e é deixada para trás por cursos como Administração e Direito.
Um levantamento feito pelo Estado mostra que, entre os 589 cursos autorizados pelo Ministério da Educação entre julho de 2008 e agosto de 2009, apenas 13% eram da área. Nem mesmo as novas universidades públicas têm ajudado muito: entre os 283 cursos que estão sendo ofertados pelas 12 novas federais, apenas 52 são de Engenharia.
O governo federal já reconheceu essa área como estratégica para o país. Ainda assim, o Ministério da Educação tem dificuldade em incentivar novos cursos. Falta de profissionais para ensinar e o alto custo da criação de laboratórios inibe instituições privadas, que preferem se dedicar a áreas mais simples, como Pedagogia, Administração ou Direito, ou investir em cursos como Medicina e Odontologia, que têm alto custo mas também alta procura e rendem mensalidades caras.
Tanto que a Engenharia é uma das únicas áreas do ensino superior em que a distribuição de vagas é praticamente meio a meio entre públicas e particulares. Na soma geral, 75% das graduações estão na mão de faculdades privadas.
Dos cursos autorizados no período de 12 meses, mais uma vez Administração é campeã: foram 63. Número igual ao de Ciências Contábeis. As denominações de Engenharia - que vai desde a civil até naval e aeronáutica, passando por florestal, entre outras - somam 77.
Desde 2002, o número de vagas disponíveis em cursos dessa área cresceu 40%. Parece muito, mas o patamar de partida era muito baixo. Em 1991, enquanto Direito já tinha 35 mil vagas nos vestibulares, Engenharia mal passava de 5 mil.
Hoje, todos os cursos de Engenharia no país somam pouco menos de 120 mil vagas - excetuando-se ainda Engenharia de Alimentos e outras denominações que são, na verdade, cursos de tecnologia. É pouco mais de 4% de todas as vagas de ensino superior do país. Já Administração, com suas 526,3 mil vagas, representa mais de 18%. Também foi a área que mais cresceu desde 2002: 60%.
Na Coreia do Sul, 26% de todos os formandos são engenheiros. No Japão, 19,7%. Mesmo o México, país em desenvolvimento com indicadores semelhantes aos brasileiros, hoje tem 14,3% de seus formandos nessa área. Na China, eles alcançam 40%.
Além disso, como candidatos a engenheiros tendem a demorar mais para terminar a faculdade ou deixar o curso antes da conclusão, tem-se um quadro de escassez. Uma análise feita pelo Estado mostra que o número de formandos em 2007 era apenas a metade do número de ingressantes cinco anos antes - o que pode indicar evasão, troca de curso ou pelo menos atraso para terminar a faculdade. Na Pedagogia, esse índice chega a 80%. Em Direito, passa de 60%.
"Toda vez que o país cresce por alguns anos seguidos, nos deparamos com essa situação limite. Temos um enorme déficit de mão de obra qualificada. Não há um plano claro de reversão disso, nos parece que falta um plano estratégico", diz Rafael Lucchesi, diretor de operações da Confederação Nacional da Indústria (CNI). O diretor da CNI afirma que uma lógica de mercado faz com que as instituições privadas optem por cursos mais baratos, mas reclama que o MEC precisa ter uma ação mais direta. "Tem faltado uma política de indução mais forte. Talvez precisemos de uma interlocução mais direta com o ministério, algo mais permanente."
A área já sofre por falta de interessados. Estudo da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) revela que, de cada 800 estudantes matriculados no ensino fundamental, apenas 1 opta por Engenharia - a maioria, na verdade, nem chega à faculdade para ter uma opção.
Ministério espera dobrar oferta em 6 a 8 anos
O Ministério da Educação está fazendo uma reordenação dos cursos de Engenharia e estabelecendo novas definições do que é cada curso, qual é a infraestrutura necessária e o que deve saber cada engenheiro. Hoje, com mais de duas centenas de denominações, a área abrange desde Arquitetura até Engenharia de Alimentos. A confusão, diz o ministério, dificulta a expansão da área.
"Não há dúvida que temos oferta insuficiente. São cerca de 1,3 mil cursos apenas e 300 mil alunos, muito menos do que era de se esperar", avalia a secretária de ensino superior do MEC, Maria Paula Dallari. "Precisamos definir áreas de atuação, infraestrutura mínima e deixar mais claras as necessidades para criar novos cursos."
De um modo geral, a qualidade dos cursos de Engenharia no Brasil é boa. É uma das áreas que tem a menor quantidade de cursos mal avaliados e seus alunos têm sempre algumas das maiores médias no Exame Nacional de Desempenho do Estudante (Enade).
Entretanto, o país precisa também de mais quantidade. O MEC espera dobrar a oferta no médio prazo, entre seis e oito anos. "São cursos que demandam estrutura mais sofisticada, corpo docente muito especializado. Por isso, tem uma expansão mais lenta. E no passado foi lento demais. Temos um grande déficit a suprir", explica Paulo Wollinger, diretor de supervisão e regulação do ensino superior. "O investimento público toma mais tempo e as escolas particulares têm dificuldade, porque o investimento é alto."
A avaliação de Wollinger é que 52 cursos de Engenharia entre 283 novos nas recém-criadas universidades federais é uma boa média. "O setor público precisa também investir em outras áreas onde há escassez, como ciências da saúde", diz.
Maria Paula Dallari, no entanto, afirma que o MEC pode passar a incentivar a criação de determinados cursos pelas particulares com recursos. O ministério tem, com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), uma linha de crédito para capital de giro e financiamento de expansão das instituições que pode ser concentrada para projetos das áreas consideradas prioritárias.