15. Agropecuária: além da vilania vista por alguns, uma atividade consciente e ética, artigo de Carlos R. Spehar e Carlos Alberto S. Oliveira
"A tecnologia disponível, quando aplicada corretamente, permite atingir níveis de rendimento elevados e ainda assim conservando o ambiente"
Carlos Roberto Spehar e Carlos Alberto S. Oliveira são professores da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da UnB. Artigo enviado pelos autores ao "JC e-mail":
A agropecuária tem sido o sustentáculo da vida humana através da produção de alimentos de origem vegetal e animal, sem contar as inúmeras matérias-primas que, a cada dia, se tornam mais imprescindíveis em nossas vidas. Foi como agricultor que o ser humano deixou a vida nômade e extrativista, fixando-se em povoamentos que cresceram, formando cidades. Ao longo do tempo, a vida social intensificou-se, permitindo a expressão e o desenvolvimento da inteligência, apoiada nas fontes da natureza.
Entretanto, tem sido alvo de bombardeios inconseqüentes, apoiados em "meias verdades científicas". Vejam-se os exemplos e a falta de fundamentos respectivos. O mundo consome cada vez mais carne e leite e, constantemente, enfatizam-se as conseqüências: aumento na emissão de gases de efeito estufa, como o metano no "arroto" dos ruminantes (bovinos, caprinos, ovinos etc).
Desconsidera-se que o animal, ao se desenvolver, imobiliza elementos químicos, incorporando-os em ossos, músculos e couro; ou os exporta em forma de alimentos como leite e derivados, em maior proporção do que libera.
A querela não para aí. Os que pretendem transformar a agropecuária em vilã têm outros argumentos. Arrazoam que em cultivos irrigados, o custo da água e a perda de nutrientes fazem com que a produção de grãos seja danosa pelas mesmas razões do "arroto".
De novo, deixam de considerar que o arroz, nessas condições, imobiliza e exporta nutrientes da planta como um todo. Depois de colhidos os grãos, a massa vegetal restante se transforma em resíduo orgânico que leva tempo para se decompor, compensando, com saldo positivo, as emissões. Ademais, contribui para melhorar as condições físicas e químicas do solo, criando base sustentável à produção de alimentos.
Por outro lado, o petróleo realmente só emite, pois o carbono não se imobiliza a não ser pela ação das plantas e animais. Portanto, toda a produção dos seres vivos emite carbono, mas, também o fixa em grande quantidade. É preciso aprender a calcular o balanço de carbono ou equação de continuidade, antes de qualquer afirmação tendenciosa.
Eis outro exemplo: quando se investe em correção de solo, como no Cerrado, transformando o ambiente pobre em nutrientes, então a crítica fica exacerbada. Tenta-se por todos os meios provar que a ação do homem destrói o equilíbrio de forças da natureza.
Ora, a biomassa e energia vegetal e animal, produzida no ambiente enriquecido por calagem e fertilização, é muitas vezes superior ao original. Novamente, a imobilização de carbono (retirando CO2 do ar por efeito da fotossíntese) aumenta e a agropecuária presta um serviço à humanidade. A transformação positiva do Cerrado não pode ser desvirtuada.
Portanto, há que se cuidar da percepção enviesada e de interesses duvidosos. Muitas ONGs postulam acusações sem levar em conta a relação entre o que se emite e o que fica retido. Pior ainda, induzem a mídia e os menos informados a engrossar fileiras a seu favor. Aí fica a pergunta: aonde querem chegar?
Vale dizer que os tendenciosos de tanto alarde talvez não existissem, tampouco sua filosofia, não fosse pelo alimento produzido com tanta consciência, determinação e bravura. É preciso cuidar de "Gaia", mas também da casa de cada ser humano inserido nela, tendo em foco a cozinha de cada habitante do planeta. Isto merece meditação.
Quantos se beneficiam dessa empreitada fenomenal, embasada em tecnologia? Ou seja, enquanto o Homo urbanus polui apoiado na matriz energética da qual nos tornamos escravos, o Homo agricola, faz a sua parte, salvando o sistema. Quem é o vilão?
As opiniões veiculadas pela mídia, muitas vezes com dinheiro público, tem contribuído para a formação de consciência urbana elitista. A imagem que deixam é que os irresponsáveis estão no meio rural, esquecendo-se que o sistema só se torna técnica, social, econômica e ambientalmente sustentável se apoiado por todos.
Por que, ao invés de condenar, não se investe em pesquisa independente buscando identificar onde é preciso melhorar? Que fique bem claro: não se está defendendo a produção qualquer custo. A tecnologia disponível, quando aplicada corretamente, permite atingir níveis de rendimento elevados e ainda assim conservando o ambiente.
Quando se pensa em agropecuária amiga do ambiente, imagina-se o apoio da ciência que se transforma em tecnologia. Isto precisa estar dentro das prioridades, como política pública de longo prazo. Junto à geração, vem a forma de aplicar, sempre a serviço da humanidade, sem imposições infundadas ao desenvolvimento.
Isso parece simples, porém precisa ser decodificado. Mais ainda tem-se que apresentar as razões para que a população em geral entenda. Com a geração contínua de tecnologia, descobrem-se as melhores combinações dos fatores de produção.
Ou seja, com o emprego de variedades melhoradas em diversidade de cultivos, associados à correção e fertilização do solo em equilíbrio, manejo integrado de plantas, do solo, de pragas, doenças e espécies invasoras, pode-se melhor explorar o potencial produtivo, com balanço favorável.
Ao se aumentar a eficiência, maximizando a relação benefício/custo, tem-se, como resultante, a intensificação da atividade em áreas já incorporadas à produção. Racionaliza-se o seu uso, poupando o ambiente e mantendo as reservas. Ou, quando o agricultor se capitaliza, aplicando tecnologia, novas investidas sobre o ambiente são evitadas.
Portanto, é errôneo imaginar que nas práticas agropecuárias não se medem conseqüências. Há riscos mesmo quando se protege, de forma inconseqüente e a qualquer custo, o ambiente. Produção agropecuária e proteção ambiental não são incompatíveis como muitos querem fazer a sociedade internalizar.
Um dos caminhos a seguir, implica em política pública de longo prazo, com investimento na formação de profissionais para o setor agropecuário. Nada do que existe, seja avançado ou de domínio público tradicional, se põe em prática sem educação, treinamento. Pode funcionar assim: a popularização de tecnologias é atingida quando se sabe demandar, por se conhecem os processos produtivos, e, em conseqüência, como interferir. Daí toma-se a decisão do que produzir, como e onde fazê-lo.
Torna-se necessário conscientizar os produtores, pequenos ou grandes, sobre sua importância e contribuição para minorar o efeito estufa, livrando-o do complexo de culpa que nele tem sido inculcado. Depois de uma queimada acidental a vegetação, ao crescer de novo, incorpora carbono ao longo do tempo. Veja-se a dinâmica da vida com otimismo.
Um agricultor profissionalizado, confiante, esclarecido e orgulhoso de seu trabalho deixa de pensar em como rolar dívidas, pois tenderá a superar essa limitação. Passa a se preocupar em como reduzir o passivo ambiental de ações passadas. Estas não decorrem de culpa, mas da alternativa do que lhe foi possível fazer com os meios disponíveis à época.
O produtor agropecuário consciente sobre o balanço positivo da atividade, contrabalançando a emissão de gases estará pronto a atingir metas realistas.
Enquanto se aprimoram os sistemas de produção, técnicas não tendenciosas devem ser desenvolvidas para medir o saldo dos efeitos da ação humana e os resultados tornados públicos, possibilitando demonstrar o equívoco de julgamento ou mesmo preconceitos.
Aí sim, avançando na milenar arte e ciência de trabalhar a terra, as plantas e os animais, os agricultores rebaterão comentários infundados sobre sua atividade. Eles contarão com a ajuda de profissionais treinados e as pessoas sensíveis do meio urbano.
Em decorrência do sucesso, toda a nação terá orgulho de voltar-se para nossa vocação inquebrantável. E se deixará para sempre a imagem de vilania, resgatando o herói hoje perdido no anonimato dessas imensas e bucólicas paisagens brasileiras.