3. Pesquisadores das áreas de Zoologia e Botânica questionam critérios adotados pela Capes para o novo sistema Qualis
“Percebemos agora, com apreensão, que algumas das mais importantes revistas nacionais nas áreas de Zoologia e Botânica foram rebaixadas no novo Qualis, apesar das melhorias substanciais pelas quais vêm passando”, afirmam 78 pesquisadores em carta enviada à Capes
Na carta destinada ao presidente da Capes, Jorge Guimarães, os pesquisadores das áreas de Zoologia e Botânica ressaltam o esforço de vários editores de revistas nacionais “em melhorar a qualidade dos nossos meios de divulgação, na esperança de ver suas revistas reconhecidas pela Capes”.
No entanto, afirmam, “o devido reconhecimento pelo esforço empreendido não veio”. Os pesquisadores apontam “como um caminho alternativo para as revistas nacionais o uso pela Capes do sistema SciELO, que vem avaliando e monitorando há anos o parque de revistas científicas brasileiras”.
Além do presidente da Capes, receberão cópia da carta os presidentes do CNPq, Marco Antonio Zago, da SBPC, Marco Antônio Raupp, e da ABC, Jacob Palis Jr.; o diretor de Avaliação da Capes, Lívio Amaral; o diretor científico da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz; os membros titulares do Colégio de Ciências da Vida e do comitê de área “Ciências Biológicas I” da Capes; e os membros do Comitê de Assessoramento de Zoologia e de Botânica do CNPq.
Leia a íntegra da carta, com data de 19 de maio:
“A instituição de uma metodologia continuada de avaliação da produção científica brasileira pela Capes parecia representar, em um primeiro momento, um estímulo saudável ao aprimoramento da produção científica nacional. De fato, a implantação do Qualis aprimorou substancialmente a qualidade de nossas revistas e a produção científica de nossos programas de pós-graduação.
A comunidade científica não somente procurou publicar em periódicos com maior índice de impacto como também foi visível o esforço por parte de vários editores de revistas nacionais em melhorar a qualidade dos nossos meios de divulgação, na esperança de ver suas revistas reconhecidas pela Capes.
Entretanto, o devido reconhecimento pelo esforço empreendido não veio. Pelo contrário, percebemos agora, com apreensão, que algumas das mais importantes revistas nacionais nas áreas de Zoologia e Botânica foram rebaixadas no novo Qualis, apesar das melhorias substanciais pelas quais vêm passando. Algumas destas revistas, a exemplo dos Papéis Avulsos de Zoologia, dos Arquivos e Boletim do Museu Nacional, do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, da Acta Botanica Brasilica, da Hoehnea e da Revista Brasileira de Botânica, são reconhecidas internacionalmente e foram utilizadas historicamente como veículos importantes de divulgação da comunidade científica brasileira.
Cabe salientar que o Arquivo do Museu Nacional é a revista científica mais antiga do Brasil, publicada ininterruptamente desde 1875 e agora se vê ameaçada de extinção. Outras, com histórico mais recente, também passaram por uma profunda reformulação e já despontam como importantes veículos de comunicação nas suas áreas de especialidade.
Muitas destas revistas pertencem a Sociedades científicas que contam em seu corpo editorial com pesquisadores com longo histórico de produção científica de qualidade. Podemos citar entre estas a Revista Brasileira de Ornitologia e a Zoologia (antiga Revista Brasileira de Zoologia), além das já citadas Acta Botanica Brasilica (revista oficial da Sociedade Brasileira de Botânica) e a Revista Brasileira de Botânica (revista da Sociedade Botânica de São Paulo). Nenhuma destas revistas foi qualificada pelo Qualis à altura da posição que ocupam, especialmente por terem sido historicamente responsáveis pela divulgação das ciências zoológica e botânica brasileiras.
É importante ressaltar que o Brasil vive um momento de grande efervescência nas ciências biológicas, que resultou em aumento substancial de produtividade. Esta fase vem impulsionando a reformulação de algumas revistas, assim como tem favorecido o surgimento de outras em áreas onde ainda é clara a carência de veículos de comunicação para divulgação do conhecimento científico. Neste esforço, visando atender aos critérios da Capes, estas revistas mantêm atualmente normas rígidas de publicação, asseguradas por corpos editoriais de qualidade que reúnem destacados especialistas de todo o mundo.
Contudo, apesar da maioria destas revistas nacionais apresentar hoje a qualidade, o formato e a regularidade das melhores revistas internacionais da área, correm o risco de serem extintas por falta de apoio e reconhecimento por parte do sistema de avaliação Qualis. A eventual extinção da maioria das revistas brasileiras eliminará de vez a oportunidade histórica que o Brasil tem de se firmar como uma liderança detentora de veículos de comunicação de qualidade para esta importante área de conhecimento.
Considerando o alto nível de penetração e de citação destas revistas no cenário internacional, bem como sua adequação evidente às novas regras internacionais de divulgação científica, vemos com apreensão a sua classificação nos patamares mais inferiores (B4 e B5) do Qualis. Entretanto, a inclusão destas revistas nos níveis B4 e B5 não se deve ao baixo valor de Fator de Impacto (FI) das revistas em questão, mas ao simples fato do próprio Qualis não dispor de meios para calcular o FI das revistas brasileiras.
A alternativa encontrada pelo programa parece ter sido a de classificar todas as revistas que não estejam no Journal Citation Report (JCR) nos níveis mais baixos da sua escala de avaliação. Uma alternativa mais adequada e justa teria sido a de solicitar a organismos especializados independentes, como a Bireme sediada no Estado de São Paulo, a produção dos índices de impacto das revistas brasileiras que ainda não pertencem ao JCR. Tal medida evitaria a implementação de regras conciliatórias arbitrárias, tais como a designação de um grupo de revistas “indicadas” para comporem o grupo A do Qualis, revistas estas com índices de penetração, qualidade e citação iguais ou inferiores aos de outras revistas nacionais que não tiveram a sorte de serem escolhidas.
Neste ponto específico, a nova comissão do Qualis informou que não adotará esta prática para o próximo triênio. Entretanto, apesar da medida ser salutar porque acaba com uma condenável prática clientelista, esta não é suficiente e não repara as distorções e incoerências ainda existentes nos procedimentos de avaliação do Qualis. Um indício da sua incoerência pode ser ilustrado no abandono, sem razão aparente, do índice de meia vida como valor de avaliação das revistas. Este índice é de grande relevância em razão das especificidades das áreas de Botânica e Zoologia e deveria, no nosso entender, receber maior importância no processo de avaliação. A decisão de eliminar o índice de meia vida do processo de avaliação não constitui uma decisão em sintonia com as especificidades da área.
As revistas brasileiras têm a difícil tarefa de se consolidarem em um ambiente hostil, tanto fora como dentro do País, enfrentando a concorrência das revistas estrangeiras e o gargalo da avaliação Qualis. O próprio meio acadêmico tem se encarregado de avaliar as revistas ao produzir uma pressão salutar que leva, em última instância, à hierarquização das revistas por mérito. Neste sentido, a nova iniciativa Qualis é prejudicial, pois não estimula a consolidação da nossa ciência, mas reforça a desagregação do nosso conjunto de revistas de qualidade da área. Atribuir o nível de mérito adequado às revistas brasileiras certamente estimularia um círculo virtuoso que levaria, em última instância, a que se igualem em competitividade com revistas internacionais de “nível A” no JCR.
Com base no exposto acima e em nome das diversas sociedades, entidades e instituições representadas aqui, sugerimos que a Capes, após consulta à comunidade científica, revise as regras recentemente implantadas visando a uma avaliação mais justa das revistas brasileiras e internacionais, compatível com uma melhora sustentada da qualidade das nossas revistas mais importantes.
Neste sentido, apontamos como um caminho alternativo para as revistas nacionais o uso pela Capes do sistema SciELO, que vem avaliando e monitorando há anos o parque de revistas científicas brasileiras. A SciELO oferece as mesmas ferramentas quantitativas fornecidas pelo JCR, que poderiam ser empregadas para ranquear as revistas brasileiras independentemente do grupo de revistas incluídas nesta base de dados.
A criação de duas listas Qualis independentes, uma internacional gerenciada através dos índices JCR (que incluiria revistas internacionais e nacionais que dispõem desse sistema de avaliação) e outra nacional cuja avaliação seria baseada nos índices SciELO, representaria um estímulo à publicação de qualidade e à melhora das revistas nacionais, evitando também o estabelecimento de metodologias compensatórias questionáveis para as revistas que não pertencem à base de dados JCR.
Acreditamos que dessa forma, o sistema Qualis não funcionará como um fator de desestímulo para a publicação de artigos de qualidade em revistas nacionais devido a causas circunstanciais. Mais do que exportar autores para revistas internacionais, precisamos tornar nossas revistas atraentes para nossos próprios autores e para autores de outros países.
Este documento foi endossado e segue assinado por 78 pesquisadores brasileiros representando 14 sociedades científicas brasileiras, 22 Programas de Pós-Graduação em Zoologia e Botânica e 31 revistas nacionais de Zoologia e Botânica.
Resposta a este manifesto deve ser encaminhada ao Dr. Rodney Ramiro Cavichioli, coordenador do Fórum das Sociedades Científicas Brasileiras e presidente da Sociedade Brasileira de Zoologia (email: presidente@sbzoologia.org.br), representando os assinantes do documento.
Nota da redação: A relação dos signatários da carta pode ser vista no endereço http://www.sbzoologia.org.br/sistema/imgs_fckeditorCarta_Qualis-CAPES_mai2009.pdf