16. Transgênicos e o novo império, artigo de Nagib Nassar
“O plantio de uma variedade transgênica Bt significa substituição da variedade local, gerando muitas consequências prejudiciais”
Nagib Nassar é professor titular de Genética da UnB. Artigo enviado pelo autor ao “JC e-mail”:
A matéria do jornalista Rafael Garcia, do jornal Folha S.Paulo (Ciência, 25/1), que analisa o livro da escritora francesa Marie-Monique Robin sobre uma multinacional fabricante de transgênicos, tocou profundamente na consciência nacional e gerou indignação: até quando o povo brasileiro poderá sofrer com os tóxicos transgênicos e com a manipulação das multinacionais?
Sabe-se que mais de 90% dos transgênicos vendidos no Brasil e no mundo são fabricados pela multinacional da qual o livro trata. Os exemplos mencionados na obra lembraram-nos da Companhia Britânica das Índias Orientais, que durante dois séculos transformou os privilégios comerciais em um grande império. Para obter seu poder ela corrompeu autoridades inglesas. Em qualquer época, quando seu monopólio expirava, ela obtinha renovações de sua carta oferecendo novos empréstimos ao governo britânico.
Não é muito diferente o exemplo contemporâneo da multinacional fabricante de transgênicos, analisado pela escritora francesa e exposto pelo jornalista.
Apesar de a maioria dos países europeus proibir as vendas dos transgênicos Bt, o Brasil autorizou seu plantio e consumo. A liberação do milho Bt pela comissão CTNBio recebeu muitas críticas das comunidades civil e foi alvo de processos jurídicos.
Outro ponto é que os legisladores brasileiros exigiram da CTNBio que demonstre claramente o não envolvimento de qualquer membro seu com empresas fabricantes de produtos que são submetidos ao julgamento da comissão. Na Europa e nos Estados Unidos vários escândalos foram causados ao se descobrir que uma autoridade era ligada a uma empresa que se beneficia de sua atividade governamental ou congressional.
A última liberação do milho transgênico Bt deveria considerar vários fatos, que são:
1. O plantio de uma variedade transgênica Bt significa substituição da variedade local, gerando muitas consequências prejudiciais. Uma delas é a substituição da ampla base genética e da diversidade local por uma faixa geneticamente muito estreita. Essa substituição conduz à vulnerabilidade, à doenças e à perda de genes úteis às variedades locais e indígenas.
Em um país como o Brasil há grande “heritage” de cultivares indígenas, que contribuíram e contribuem para o melhoramento do milho. Devemos considerar este aspecto quando se fala na liberação da variedade de milho Bt. Na literatura mundial, a diversidade genética dos conjuntos gênicos foi reduzida drasticamente pela introdução da monocultura.
2. O milho é uma cultura totalmente alógama com 100% de polinização cruzada, devido à sua estrutura reprodutiva dióica. Isto conduz a um fluxo gênico livre entre variedades transgênicas e variedades indígenas do Brasil. Os conjuntos gênicos indígenas serão altamente contaminados pelo gene Bt. Isto afeta tanto o processo evolutivo quanto os ecossistemas, reduzindo a aptidão e sobrevivência dos cultivares indígenas.
O gene Bt também se transfere da variedade transgênica às ervas daninhas, através da hibridação, criando ervas-monstros resistentes a insetos. O prejuízo da contaminação das variedades indígenas e locais se estende ainda à cultura do país, onde essas variedades tradicionais fazem parte da vida diária, das tradições e da economia da massa pobre da população.
3. Dizer que o uso desses transgênicos economiza o uso de inseticidas não é mais do que uma eminente falsidade. Seu uso apresenta uma redução de certos insetos, chamados catarpilar da lepidóptera, e aumenta muito o ataque de outros insetos. No final de contas, acaba-se usando a mesma quantidade de inseticidas. De fato esse transgênico não economiza a quantidade aplicada de inseticida, mas sim reduz as opções disponíveis para os agricultores que querem manejar o controle de insetos.
4. A toxina Bt tem efeito fatal sobre predadores, causando o desequilíbrio nas populações de insetos e o surgimento de ataques de novos insetos, não nocivos anteriormente. Há ainda o efeito da toxina sobre polinizadores úteis, como abelhas. Isto traz graves consequências sobre o ecossistema.
5. Há relatos sobre o efeito da toxina Bt no solo e de como ela é altamente destruidora. Ela persiste ativa no solo e se mistura com facilidade à argila. A toxina Bt fica protegida contra a degradação microbial e age contra microorganismos impedindo a decomposição da matéria orgânica, criando assim uma série de problemas para a agricultura orgânica. Dizer que a toxina Bt é natural no solo e produzida pelos respectivos bacilos não se compara de maneira alguma às imensas quantidades deixadas no solo pelas raízes de uma cultura Bt.
6. O perigo maior vem da toxina Bt na cadeia alimentar animal, seguido pela utilização do produto animal pelo homem, causando uma catástrofe incalculável para a saúde pública. Neste contexto há vários casos de intoxicação documentados pela imprensa mundial.
7. A plantação do milho Bt nunca melhorou as condições financeiras dos agricultores, nem reduziu o uso de inseticida em qualquer país, mas, ao contrário, há uma forte suspeita de que seja a causa de frequentes suicídios de agricultores em Bradesh (Índia), pela falência e frustração diante de uma realidade bem diferente da qual a propaganda os fez pensar.
Em culturas como as de milho, onde predomina a polinização cruzada, toda a região cultivada se contamina compulsoriamente. Os agricultores não têm como escolher. Eles são obrigados a plantar e colher sementes de plantas contaminadas. Não há outra opção. Eles são constantemente cobrados pelas empresas produtoras a pagar pelo plantam. O valor da semente transgênica chega a 120 vezes mais cara do que a semente normal. Os agricultores não têm como deixar de pagar. Este aspecto socioeconômico deve ser levado em consideração, quando se pensar em liberar o milho Bt no Brasil.
Há várias razões pelas quais a liberação do milho transgênico não deveria ser feita. Por exemplo: não foram feitos trabalhos experimentais que avaliam a segurança deste tipo de cultura sob condições brasileiras, durante um período suficiente, como manda a Constituição, nem há informação sobre o monitoramento da possível contaminação das culturas indígenas.
O mais grave não é não haver qualquer estudo disponível sobre o impacto socioeconômico deste tipo de milho sobre a economia da população brasileira e a sua vida social, nem mesmo um estudo sobre o efeito deste tipo sobre microorganismos úteis como o azetobacter e as condições agroecológicas do Brasil. O pior é a ausência completa de qualquer resultado sobre as possíveis contaminações na cadeia alimentícia do Brasil.