20. Capes e a política de capacitação no exterior, artigo de Nagib Nassar
“O aluno doutorando nos Estados Unidos gasta em média, com taxas escolares e mensalidades, cerca de cem mil dólares para sua formação. Isto é quatro vezes o que se necessita para formar um doutor no país”
Nagib Nassar é professor titular de Genética na UnB. Artigo enviado pelo autor ao “JC e-mail”:
Um colunista da “Veja” em seu último artigo alega que a Capes está seguindo uma política errada e antiamericana ao criar quadro de doutores no país e o fortalecimento de programa de pós-graduação no Brasil. Ele pede que a Capes mude seu plano e mande mais doutorandos para os Estados Unidos.
O jornalista argumenta usando números sem nenhuma base e sem citar a fonte de seus dados. Ele diz, por exemplo, que o número de brasileiros doutorandos nos Estados Unidos é muito pouco, comparado aos 94 mil indianos, mas não se diz de onde vem esse número.
O número verdadeiro, conforme os dados disponíveis, não ultrapassa 500 alunos indianos doutorandos nos Estados Unidos e isto é muito pouco mais do que os cerca de 300 brasileiros doutorandos atualmente naquele país. Lembramos, ainda, que o número da população indiana é de um bilhão de habitantes.
Não só se usa falsos números, mas também há muita confusão do colunista na sua visão científica e de capacitação.
A política da Capes sempre objetivou formar quadro de doutores tanto em longo como em curto prazo e a sua atuação para criar e administrar programas de capacitação inovadores impressionam qualquer observador.
Não há nada de antiamercano no plano atual da Capes para fortalecer cursos de pós-graduação nacionais a custo de enviar doutorandos ao exterior. Vários cursos no país são do mesmo nível e muitas vezes ultrapassam seus pares no exterior, como os da USP, da UFRGS e de Viçosa.
Há outros cursos que se receberem mais apoio da Capes podem atingir um excelente nível. Esse é o único fator limitante para os seus crescimentos científicos. Isto é o que a Capes pretende fazer quando dedica parte dos recursos de doutorando no exterior para apoiar cursos nacionais.
O aluno doutorando nos Estados Unidos gasta em média, com taxas escolares e mensalidades, cerca de cem mil dólares para sua formação. Isto é quatro vezes o que se necessita para formar um doutor no país, e assim ainda há o fortalecimento e a criação de infra-estrutura para desenvolvimento de cursos de pós-graduação no país.
Há muitos cursos que têm em seu fator limitante para crescer a falta de bolsas no país. Se o dinheiro destinado para os EUA e Europa forem destinados a esses cursos, eles terão oportunidade de crescer e formar muito mais doutores.
O engano do colunista se estende ainda a outra área que é a de produção científica de alunos de doutorado. A produção científica de um aluno doutorando nos EUA tem vínculo à universidade americana e ao departamento onde ele estudou e não ao Brasil, isto é um ganho cientifico para EUA e não para o Brasil.
Além disso, o assunto estudado num país estrangeiro normalmente reflete um problema daquele país e não do Brasil, resolvendo um problema da indústria ou da vida americana, mas não o de nosso país. Contrário a isso, se o aluno doutorando estuda no Brasil o problema de sua tese reflete um problema brasileiro e beneficia antes de qualquer coisa a ciência nacional. Se o seu argumento fosse o de acompanhar o desenvolvimento cientifico nos EUA ou na Europa, ele poderia estar certo, mas isso nunca foi mencionado nem tão pouco tocado pelo jornalista.
Esta questão de acompanhamento do desenvolvimento científico no exterior é realizada pela Capes por outro mecanismo compatível aos outros elementos mencionados acima. Por exemplo, há vários programas inovadores neste sentido como o programa de doutorado sanduíche, ou o que traz cientistas americanos distintos em suas área de conhecimento para lecionar e orientar em cursos de pós-graduação do Brasil.