14. O que comemorar no Dia do Professor?, artigo de Paulo Ghiraldelli Jr.
“Uma sociedade pouco afeita ao mundo da cultura toma o professor do ensino fundamental como quem “ensina menos”
Paulo Ghiraldelli Jr. é filósofo (http://www.filosofia.pro.br). Artigo enviado pelo autor ao “JC e-mail”:
O “dia do professor” é comemorado no âmbito do ensino não universitário. O ensino superior no Brasil ignora-o. O professor universitário tem vergonha de ser professor, ele quer ser “pesquisador” ou ser expressamente chamado de “professor universitário”. Mesmo nos cursos de pedagogia ou nos cursos de licenciatura há uma tentativa clara de ignorar o “dia do professor”.
Quem ensina em faculdade ou universidade e ganha um pouco mais do que aquele que ensina no âmbito da escola fundamental quer distância – social e até física – daquele que seu colega que, enfim, pode ter sido seu aluno em um curso de licenciatura.
Esse tipo de sentimento, em nosso país, está acoplado claramente ao desprestígio social que advém do achatamento salarial de professores ao longo de décadas, algo que começou nos anos 60 e que nunca mais parou.
Junto disso veio a formação cada vez mais precária desses professores e, então, sem salário e sem saber, ele passou a ser um cidadão de segunda categoria. Tem diploma superior, mas como ensina crianças, é visto como quem “ensina coisas menores” e, por isso mesmo, aparece socialmente como quem deve de fato receber um salário menor que qualquer outro profissional com o mesmo tempo de estudo que ele.
Uma sociedade pouco afeita ao mundo da cultura toma o professor do ensino fundamental como quem “ensina menos” na medida em que ele ensinaria coisas sem a grande importância do que é ensinado na escola profissionalizante, que é a universidade.
Não há como quebrar esse tipo de pensamento caso não exista uma política pública dirigida de maneira revolucionária para a recuperação salarial do professor em um prazo rápido, e não a médio prazo.
As formas até agora apresentadas pelos que estiveram no governo são paliativas, e algumas delas, como o piso salarial e o Fundef, não se mostraram redentoras. Ambos os mecanismos estão dando mais problemas do que resolvendo. Aliás, no caso do piso, ele virou teto em alguns lugares e virou barreira em municípios pobres.
Acoplado a esse drama do desprestígio e baixos salários, o professor da escola pública (e não raro, também da escola particular) sofre ainda do abandono das autoridades. Estudos mostram que em alguns estados da Federação, mais de 80% dos professores já foram agredidos fisicamente por alunos, no ambiente escolar, ao longo da carreira. Isso sem contar a famigerada frase de alguns alunos: “estudar? Eu não, eu ganho mais que a senhora, lá com os meus manos”.
E quem são “os manos”? Não são nada manos. São os intermediários do tráfego de drogas, que fazem dos jovens “mulas”. De fato, não há como o professor rebater e dizer: “eu ganho mais”, pois não é verdade. E o professor que diz “você vai acabar preso ou morto”, recebe na cara uma sonora gargalhada.
Pois ser preso ou morto por bala, na sociedade atual, é algo que a classe média, onde os professores estiveram um dia (meus pais, por exemplo), vê que está bem presente em sua vida.
Essa é a sociedade brasileira. Quem teima em desconhecer essa face do Brasil ou conhecê-la só através de números tem pouco a dizer no dia dos professores.
Deveríamos culpar o governo federal por tudo isso? Bem, o governo federal tem sim uma culpa nisso. Ele não vem cumprindo a lei, ou seja, não destina para a educação a quantia do orçamento que é o que está obrigado a fazer pela lei. Isso tem um peso negativo.
Mas, além disso, há um problema da relação do MEC com a educação como um todo. Para agir sobre a educação brasileira, segundo o modelo atual, o MEC precisa atuar por meio de convênios com as secretarias de estado. Isso cria mecanismos de vinculação política entre o governo federal e os Estados que, enfim, ajudam apenas os políticos a cumprirem pactos em favor de suas candidaturas. Isso pouco ou nada faz em favor da melhoria da escola e do trabalho do professor.
Não estou dizendo que deveríamos federalizar todo o ensino básico, mas certamente o MEC deveria ter uma capacidade de colaborar com cada escola, de modo direto, sem qualquer convênio. Há tímidos programas desse tipo, mas eles deveriam ser o grosso da ação do MEC e teriam de ser menos burocráticos. Além disso, não deveriam visar a escola somente, e sim diretamente o bolso do professor, melhorando seu poder de compra, sua vida social.
Uma medida assim acoplada a uma reestruturação completa dos cursos de pedagogia e licenciaturas em geral, exigindo qualidade desses cursos, seria algo possível de ser feito pelo MEC. Agora, medidas paliativas que tiram do nosso bolso dinheiro para formar professores que já passaram pela universidade e não foram bem formados, é bitributação. Isso não vale, não é boa política.
Também não é boa política tentar melhorar as licenciaturas sem um investimento nelas, só pela divisão de trabalho no interior do MEC. Por exemplo, colocar a Capes para cuidar do ensino básico, por meio da atenção que ela pode dar às licenciaturas, foi uma medida errada. A Capes não tem tradição nessa área e já tem serviço demais no ensino de pós-graduação.
Do modo como está o MEC nada mais é que “babá de manifestação de universidades”. Um dia tem de punir um reitor, outro dia tem de empossar mais um. Fora disso, o serviço do MEC é estabelecer convênios. Nisso, o dinheiro vai, mas nunca se sabe se chega. E às vezes o dinheiro não vai e, então, não chega mesmo. E se há denúncia da imprensa, o máximo que se faz em resposta é o velho “vamos investigar”. E morre nisso.
Assim, no dia dos professores, nem lembramos mais da maçã. Só temos coisas a dizer que não merecem comemoração.