23. Lançamento do livro “O Povo de Luzia - Em Busca dos Primeiros Americanos”, de Walter Alves Neves e Luís Beethoven Piló
Arqueólogo e geógrafo fazem em livro o primeiro relato pessoal da descoberta que mudou a pré-história brasileira
Claudio Ângelo escreve para a “Folha de SP”:
O paleontólogo americano Daniel Lieberman costuma dizer que, no estudo da evolução humana, você nunca deve esperar que os ossos de que dispõe respondam às perguntas que você formula. Walter Neves não escapou a essa maldição: depois de quase duas décadas medindo e escavando os fósseis humanos das cavernas de Lagoa Santa, na sua Minas Gerais natal, o arqueólogo da USP obteve mais perguntas que respostas.
No meio do caminho, no entanto, os trabalhos de Neves e seus colegas ajudaram a mudar as teorias sobre a ocupação das Américas. Resultaram na afirmação, hoje lugar-comum, de que os primeiros habitantes do continente se pareciam mais com os aborígenes australianos do que com os índios atuais.
Em sua gênese, no entanto, tal idéia era pura heresia. Sua legitimação envolveu, como Neves gosta de dizer, "sangue, suor e lágrimas". Essa história, um dos capítulos mais fascinantes da arqueologia brasileira, acaba de ganhar um relato em primeira pessoa, pelas mãos de Neves e do geógrafo Luís Beethoven Piló.
Logo na introdução de "O Povo de Luzia - Em Busca dos Primeiros Americanos", a dupla de pesquisadores já denuncia sua mineirice: "Este livro não vai mudar radicalmente a sua vida. Na verdade, não vai mudá-la nem um pouquinho". Exagero de modéstia.
A riqueza de informações da obra tem, sim, o dom de revelar ao leitor leigo um Brasil pré-histórico ao qual pouca gente tem acesso. Ajuda, assim, a suprir uma carência crônica do sistema educacional nacional: a de divulgação científica de qualidade, que ajude na formação de uma identidade cultural ao ligar o brasileiro a seu passado.
Uma brasileira
Neves e Piló flutuam com erudição sobre temas que vão da microgeologia de formações cársticas e técnicas de datação arqueológicas à história da ciência. Juntar essa dissonância numa narrativa coerente é um desafio considerável para cientistas, acostumados a não se arriscarem além da estreiteza de suas áreas de especialização.
O livro passa nesse teste, mas sem louvor: há redundância de informações no texto. A personagem-título da obra há muito merecia ter sua história contada em livro. Luzia (a história oficial dá conta de que se trata de uma brincadeira com Lucy, o fóssil de australopiteco) é um dos fósseis humanos mais antigos das Américas. Tudo indica que tenha morrido tragicamente, entre 10.200 e 11.500 anos atrás, sem enterro.
Também tragicamente (num acidente de carro) morreu em 1977 sua descobridora, a arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire, três anos depois de ter escavado o fóssil.
Emperaire foi parar em Lagoa Santa seguindo a trilha de Peter Lund, dinamarquês que nos anos 1830 foi o primeiro a explorar a região e a propor (outra heresia) que os homens pré-históricos dali teriam convivido com bestas supostamente extintas no Dilúvio.
Depois da morte de Emperaire, o material coletado em Lagoa Santa ficaria engavetado no Museu Nacional até ser reexaminado por Neves e pelo argentino Héctor Pucciarelli, no fim dos anos 1980. A dupla constatou que todos os fósseis humanos de Lagoa Santa com mais de 8.000 anos de idade tinham formato de crânio mais parecido com o dos africanos e australianos modernos.
E mais: Luzia era tão antiga que fazia supor que uma onda migratória anterior à que trouxe os avós dos índios atuais da Ásia chegara, colonizara o continente e fora eliminada depois por competição ou guerra.
A explicação batia de frente com a ideologia dominante na arqueologia americana da época, o chamado modelo "Clovis First", hoje já enterrado. Arqueólogos dos EUA pregavam que a ocupação das Américas havia ocorrido há menos de 12 mil anos, com populações mongolóides (asiáticas típicas) e caçadoras de grandes mamíferos.
Aos fatos
Tanto quanto a história de Luzia e de Lagoa Santa em si, chama atenção a sobriedade dos autores no tratamento das evidências arqueológicas.
Neves, que nunca foi conhecido por sua discrição, mostra-se um cientista honesto, disposto a criticar os outros e a si mesmo com base em dados. Admite, por exemplo, que o registro arqueológico de Lagoa Santa é problemático e que a idade antiga de Luzia é uma incômoda exceção num mar de datas mais recentes.
Por fim, recua de afirmações que ele mesmo fez na década de 1990 de que a América pré-histórica foi palco de invasão e genocídio -e que deu argumento para críticos da demarcação de terras indígenas.
"O Povo de Luzia" prova que, embora os ossos não tragam todas as respostas, uma boa teoria não se deixa estragar por fatos incômodos; ao contrário, torna-se mais fascinante, por mais misteriosa.
O livro contém 336 págs., Ed. Globo e, custa R$ 32. (Folha de SP, 27/4)