5. Pesquisadores querem liberdade para ir além do “arroz com feijão”
Físicos brasileiros cobram mais apoio do CNPq para projetos de risco, que podem ou não resultar em publicações
Herton Escobar escreve para “O Estado de SP”:
“O Brasil já faz muito bem o arroz com feijão. Está na hora de fazer coisas mais sofisticadas.” Com essa analogia culinária, o físico Constantino Tsallis chama a atenção para um gargalo cada vez mais apertado, que ameaça estrangular o crescimento da ciência brasileira: a dificuldade de distribuir recursos escassos, de maneira equilibrada, para uma população cada vez maior e mais exigente de pesquisadores.
Pelas regras atuais do CNPq, principal órgão de fomento à pesquisa do governo, apenas projetos mais convencionais são contemplados, enquanto trabalhos mais arriscados e de longo prazo acabam negligenciados, segundo o físico.
Uma rigidez burocrática que, segundo ele, inibe a ousadia intelectual dos pesquisadores e diminui as chances de o País chegar a descobertas científicas mais significativas - daquelas que podem render um Prêmio Nobel. “Ninguém ganha o Nobel fazendo feijão com arroz. Isso todo mundo faz”, aponta Tsallis, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio.
Pratos mais elaborados, segundo ele, exigem liberdade para ousar nos condimentos e experimentar novas receitas. “Pela mentalidade atual, projetos de grande risco são jogados fora quase que de cara”, afirma Tsallis. “Muitas pesquisas que poderiam ter um impacto grande acabam não sendo feitas”, concorda o diretor do CBPF, Ricardo Galvão. “O pesquisador simplesmente não se arrisca. Prefere continuar sempre na mesma linha de pesquisa, porque sabe que aquilo vai render resultados garantidos.”
Tsallis, de 64 anos, expôs suas críticas em uma carta aberta à Sociedade Brasileira de Física (SBF), publicada no mês passado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e pela Academia Brasileira de Ciências (ABC).
O texto é especialmente direcionado ao Comitê de Assessoramento de Física e Astronomia do CNPq, grupo de cientistas responsável pela avaliação e concessão das prestigiosas Bolsas de Produtividade em Pesquisa. Mas as críticas, segundo Tsallis, valem para todo o sistema de bolsas e fomento.
Para ele, falta flexibilidade ao CNPq para apoiar cientistas que não se encaixam no modelo padrão de produção. Ele questiona algumas exigências básicas, como a obrigação de orientar alunos de doutorado e publicar um número mínimo de trabalhos por ano em revistas selecionadas.
“São todos critérios razoáveis, que na média funcionam muito bem, mas que, usados da maneira errada, se tornam extremamente nocivos”, disse Tsallis ao Estado. “Os critérios deveriam ser sempre indicativos, nunca eliminatórios.”
A reclamação, curiosamente, parte de um cientista que não tem muito do que reclamar. Nascido na Grécia e nacionalizado brasileiro, Tsallis preenche com folga todos os requisitos do CNPq. Mantém bolsa de produtividade há mais de 20 anos, já orientou 26 teses de doutorado e tem quase 300 trabalhos publicados, com cerca de 8 mil citações - números que o qualificam como um dos cientistas mais influentes no País.
É também o cientista brasileiro com o segundo maior número de citações nominais (quando um outro cientista menciona seu nome no título de um trabalho, por exemplo), com 1.019 citações - atrás apenas de Carlos Chagas, que tem 5.598. Isso graças a uma importante teoria da física estatística que ele publicou em 1988, conhecida como “entropia de Tsallis”. “Levanto essa questão porque estou cansado de ver dúzias de bons cientistas serem desestimulados pelo mau uso de critérios”, afirma o físico.
O Estado conversou com vários pesquisadores sobre o tema. Muitos concordaram com Tsallis, outros consideraram suas críticas exageradas e influenciadas por motivações pessoais. Mas todos estão de acordo que o sistema de avaliação brasileiro pode - e deve - ser melhorado. Ou pelo menos discutido.
“Durante toda a minha gestão no CNPq insisti para que a comunidade científica discutisse os critérios de julgamento adotados pelos comitês”, disse o pesquisador Erney Camargo, da Universidade de São Paulo (USP), que presidiu o CNPq de 2003 a 2007. “O professor Constantino está apenas fazendo o aconselhável e sua proposta (de debater o tema) coincide plenamente com minha posição.” (O Estado de SP, 24/2)
“Temos muita gente boa para pouco dinheiro”
Para o físico Marcelo Knobel, tarefa de distribuir verba é complicada
A preocupação sobre a distribuição de bolsas e recursos surge como efeito colateral do crescimento explosivo da comunidade científica brasileira nas últimas décadas, impulsionado pela expansão da pós-graduação. O País forma, hoje, perto de 10 mil doutores por ano.
Sem muitas oportunidades no setor privado, muitos permanecem na academia, criando uma demanda cada vez maior por bolsas e investimentos dos órgãos públicos. Resultado: mesmo com aumento do número de bolsas, a demanda ainda é bem maior.
“Tem muita gente boa para pouco dinheiro, o que torna a tarefa de distribuir recursos extremamente complicada”, observa o físico Marcelo Knobel, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Cinco anos atrás, o CNPq oferecia 7.800 bolsas de produtividade. Hoje, são 10.300, com cerca de 3.300 “vagas” para julgamento - as bolsas valem por três anos e podem ser renovadas ou não. Dentro disso, o setor de física e astronomia tem 780 bolsas. No último julgamento, concluído em janeiro, foram 416 solicitações para 243 vagas - quase duas para uma.
O que deixa muitos cientistas descontentes, segundo Constantino Tsallis, é a maneira “inflexível” com que os critérios são aplicados. As bolsas de produtividade são muito disputadas pelos cientistas, mais até pelo prestígio do que pelo dinheiro. São como um “selo de qualidade” do pesquisador, o que ajuda não só no reconhecimento acadêmico, mas na disputa por recursos e promoções. O valor para um pesquisador do nível mais alto do CNPq é de R$ 1.250, mais R$ 1.300 de “adicional de bancada”, para equipamentos e viagens.
Com o aumento da demanda, as seleções passaram a ser cada vez mais centradas em critérios estatísticos e menos em avaliações individuais de mérito. Para ter uma bolsa de produtividade, é preciso, no mínimo, publicar uma média de dois trabalhos por ano em revistas científicas consideradas de alto nível pela Capes, do Ministério da Educação.
As normas do CNPq já fazem a seguinte ressalva: “É importante salientar que esta não é uma regra fixa, havendo situações em que a qualidade das revistas, o número de autores e o tipo de trabalho são considerados relevantes, e não só o indicador quantitativo.” O problema, segundo os críticos, é que essa orientação nem sempre é colocada em prática. “O comitê tem flexibilidade para decidir, mas é muito pouca”, diz o físico Luiz Nunes de Oliveira, do Instituto de Física de São Carlos da USP. “A impressão é que as decisões são muito mais baseadas em processos numéricos.”
“O que chamam de avaliação é na verdade uma contagem de trabalhos”, contesta o pesquisador Gil da Costa Marques, professor titular e ex-diretor do Instituto de Física da USP. Ele teve a bolsa de produtividade cancelada em 2006, após resolver se dedicar a uma nova teoria unificada sobre partículas elementares.
Focado na pesquisa, ele não publicou o mínimo de trabalhos e a bolsa - que mantinha havia 28 anos - foi cortada. “O problema da ciência no Brasil não é mais de números. O grande problema é que não há incentivos para trabalhos criativos e que demandem tempo para dar resultados.”
“Por que arriscar, se o meu tema está rendendo?”, pergunta o físico Roberto Jorge Vasconcelos dos Santos, aposentado da Universidade Federal de Alagoas. “Em vez de gerar o altíssimo padrão de produção que supostamente pretende, o sistema desestimula, mata no nascedouro novas vocações, desestimulando a pesquisa do novo e privilegiando a repetição de temas nos quais os já agraciados têm certeza de publicar.”
Outro físico reconhecido, que prefere que seu nome não seja publicado, também enfrentou dificuldades para manter a bolsa. Dono de um currículo invejável, teve a bolsa cancelada em 2003, após passar períodos como professor convidado na Universidade de Toulouse, na França.
“Terminado meu período lá, pedi novamente a bolsa, mas foi negada porque minha produção estava baixa em conseqüência de eu ter mudado de rumo nas pesquisas.” Só recuperou a bolsa no mês passado. “Acho que regras mais flexíveis seriam melhor para todo mundo. Na média, não mudaria muito, mas há casos especiais que poderiam ser beneficiados.”
Proteção
Propor um sistema alternativo que não traga o risco de mais e maiores injustiças é difícil, até para os críticos. Se, por um lado, critérios estatísticos penalizam alguns cientistas, por outro, são garantia de transparência e objetividade, blindando contra influências pessoais e favorecimentos.
Hoje, qualquer cientista pode entrar na internet e averiguar o currículo de um colega. Se um pesquisador que publica mais do que outro tem a bolsa negada, é certo que o comitê será questionado. “É preciso reconhecer que hoje tudo é transparente, e isso é fundamental”, diz o ex-presidente do CNPq, Erney Camargo. “Erros podem ser cometidos, mas são poucos”, diz o físico José Roberto Drugowich, diretor de Programas Horizontais e Instrumentais do CNPq. “Acho que o sistema funciona bem.”
Drugowich aponta que a bolsa de produtividade é apenas um entre muitos instrumentos de fomento, e que pesquisadores não contemplados nesses casos podem recorrer a outras fontes. “Quem tem um bom projeto consegue recurso.” (O Estado de SP, 24/2)