10. Ônibus movido a hidrogênio com pilha a combustível e algodão cor de chocolate serão lançados este ano
Galembeck recomenda como obrigatório nas Universidades o ensino da leitura e redação de patente
Flamínio Araripe escreve para o “JC e-mail”:
Um ônibus a hidrogênio com pilha a combustível da Coppe-UFRJ e o algodão cor de chocolate da Embrapa. São duas novidades anunciadas para este ano na mesa-redonda "O papel das instituições científicas e tecnológicas nas atividades para a inovação", realizada nesta segunda-feira na Reunião Anual da SBPC, em Belém. O tema foi coordenado pelo químico Fernando Galembeck, da Unicamp, e debatido por Paulo Emílio Valadão de Miranda (Coppe) e Luiz Paulo de Carvalho (Embrapa-PB).
O diretor de Inovação da ABDI, Evando Mirra, informou na apresentação da mesa que o painel discute o papel das Universidades e dos institutos de pesquisa no ambiente e nos processos de inovação. "Existe muita coisa acontecendo de representativo do enorme movimento da sociedade brasileira de transformação e de evolução", disse ele.
Fernando Galembeck questionou a opção das instituições de publicar cada vez mais 'papers' sem impacto inovador. Criticou o aumento de cooperações 'internacionais' esmiunçando (sem saber) patentes de colegas estrangeiros. Questionou ainda a razão de se fazer grandes gastos que geram "índices de impacto" e nenhum impacto econômico, e ainda a formação de gente para o aeroporto, a evasão de cérebros.
O coordenador recomenda aumentar a produção científica e usá-la interagindo com os agentes econômicos. Propõe formar pessoal qualificado, crítico, capaz de diagnosticar e compreender o seu contexto, planejar e agir. O objetivo das instituições, segundo ele, é o de contribuir para adquirirmos, como nação, um maior significado global.
Galembeck sugere que as exposições do painel sejam complementadas com a indicação de perspectivas futuras para a pesquisa na área, estimulando a reflexão acadêmica sobre as mesmas. Para ele, esta reflexão deve ser capaz de aprender as rápidas mudanças de cenário. O físico recomenda a criação de observatórios permanentes deste cenário, avaliação das instituições e Universidades, além da adoção de mecanismos institucionais de tomada de decisão.
Para Galembeck, a criação de regras acerca do tema por parte do governo deve servir para alavancar o setor e a política, não para inibir, causando o efeito contrário. O químico da Unicamp atribuiu a uma "limitação do sistema de ensino superior" a pouca produção de patentes no país. "Hoje é difícil esperar que isso não seja parte obrigatória de um bom ensino para a graduação e principalmente a pós-graduação", disse ele, ao observar que o problema principal é não protegermos nossa propriedade intelectual.
Segundo Galembeck, a Reitoria da Unicamp em 1986 instituiu uma portaria que considera que qualquer coisa obtida em laboratório de pesquisa na Universidade deve ter sua propriedade industrial protegida.
"Patente é uma maneira de se facilitar a difusão do conhecimento, garantindo o direito da sua exploração por um tempo limitado para o inventor. É muito mais um direito de difusão do que de restrição", disse Galembeck. O físico da Unicamp enfatiza que ler e escrever patente deve ser obrigatório tanto quanto ler e escrever 'papers'.
Galembeck considera a principal contribuição para a inovação a formação de gente. Para ele, o Brasil oferece uma boa formação científica, mas precisa atender a exigências para que os profissionais formados tenham conhecimento contextualizado, domínio da área e sejam globalmente competitivos.
O coordenador evitou falar sobre o seu próprio trabalho de pesquisa para fazer uma apresentação geral. "Estamos na sociedade do conhecimento. Conhecimento agrega valor e cria produtos novos e viabiliza commodities. No Brasil temos uma idéia estranha de que commodities são produtos que não dependem de aporte científico e tecnológico. De fato, exigem um aporte contínuo de ciência e tecnologia, muito forte", recomendou.
"Riqueza vem do conhecimento, cria empregos e permite melhoria na qualidade de vida", disse Galembeck. Como exemplo de geração de riqueza, ele citou o setor de química no país, que contribuiu com US$ 81,6 bilhões para o PIB nacional. "Não perdemos para nenhum país, a não ser os do G-8 mais a China", compara.
O químico informa que em 2005 o Brasil gerou a primeira patente de um fármaco que resultou da interação entre Universidade e empresa e que em 2007 já produziu cinco registros de patente de fármacos. O setor químico, segundo ele, emprega doutores e tem redes de pesquisa. Todavia, em 1982, quando ocorreu a Reunião da SBPC em Belém do Pará – recorda – há 25 anos o setor era muito pequeno e dependente. Mudou por causa da ação de pessoas, entidades e governo.
Conforme Galembeck, olhando exportações do Brasil é difícil encontrar alguma coisa importante que não tenha aportes recentes de ciência e tecnologia. Como exemplo, destacou o setor de bioenergia, a produção de combustíveis, a petroquímica e o álcool que em 2002 teve o seu preço equiparado ao do petróleo. "O Brasil é líder em inovação na produção de combustíveis renováveis, a preços competitivos".
De acordo com Galembeck, a Amazônia é um bom lugar para perceber a importância das instituições de pesquisa. Ele conta a história da borracha, do que chama de folclore do ciclo da decadência, que roubaram as sementes. "Uma verdade é que durante muitos anos o Brasil teve o monopólio da borracha e no período foi feito muito pouco em relação a desenvolvimento de ciência e tecnologia e inovação".
Em comparação, Galembeck conta que em 1888, dom Pedro II inaugurou em Campinas, São Paulo, o Instituto Agronômico (IAC), em grande parte criado para viabilizar a introdução de uma cultura exótica no país, o café, o que foi muito bem sucedido. Já o Instituto Agronômico do Norte, parte hoje da Embrapa e o INPA, só foram criados nos anos 50. "A borracha que foi uma grande fonte de riqueza para o país, não chegou a merecer atenção".
Paulo Emílio Valadão de Miranda, da Coppe-UFRJ, mostrou o design do ônibus a hidrogênio com pilha a combustível que, segundo ele, chegará nas ruas do Rio ainda este ano. O layout foi criado por três alunas da Escola de Belas Artes da UFRJ. O veículo tem 12 metros de comprimento, autonomia para 300 Km e comporta 100 passageiros.
A inovação é uma aposta no futuro, na transição dos combustíveis fósseis para os de fontes mais limpas, diz Paulo Miranda. Só vapor de água sai do cano de escapamento do ônibus. É movida a baterias de ion de lítio com tração nas rodas traseiras e três portas. O projeto tem apoio da Finep e das empresas BR-Petrobras, WEG, Brasscar e Rotarex.
Miranda relatou como funciona o trabalho do Laboratório de Hidrogênio da Coppe. A unidade, disse ele, se esforça para fundamentar bem o que faz, adota uma exigência exacerbada com a qualidade, trabalha em colaboração científica em redes e multidisciplinar com físicos, químicos, engenheiros de diversas especialidades e sociólogos. Possui ainda infra-estrutura bem instalada, mão-de-obra muito qualificada em dedicação integral e exclusiva.
A interação com empresas via Fundação Coppetec é responsável por uma carteira de R$ 200 milhões por ano de projetos em andamento, nos quais trabalham 300 doutores em dedicação exclusiva, mais 300 doutores contratados, 2 mil alunos de mestrado e mil alunos de doutorado. O setor trabalha com projetos financiados a longo prazo e faz mais desenvolvimento do que consultoria, informou.
Paulo Miranda disse que a programação de trabalho é feita em conjunto com o pessoal da indústria, "que tem praticidade na visão das coisas, tem cinética mais rápida e se preocupa mais com patente do que com publicação de 'paper'. O coordenador do serviço informou que adota uma permanente política de divulgação pública por meios de assessoria de imprensa, TV, rádio e jornais, que produz em média três interações mensais com a mídia.
Conforme Miranda, a divulgação serve para ver o trabalho sob o ponto de vista da aplicação social, sendo uma "boa dose de realidade, que obriga a responder pergunta de repórteres". Como exemplo de sucesso, o coordenador cita um trabalho feito na Coppe para a Renault publicado em meia página de jornal, o que mereceu do diretor de marketing da empresa o comentário de que a publicação pagou todo o investimento no projeto.
Como conclusão, Miranda assinala que "a gestão de uma equipe altamente qualificada e motivada para o trabalho científico-tecnológico, realizando trabalho interdisciplinar intenso de pesquisa e desenvolvimento em parceria com empresas, apoiando-se na colaboração científica e no trabalho em rede, atuante na divulgação pública dos resultados obtidos, gerou ambiente propício para o estabelecimento de uma cultura de inovação tecnológica".
O Laboratório de Hidrogênio realiza pesquisas nas áreas de pilhas a combustível de óxido sólido, armazenamento de hidrogênio, sensores e detectores de hidrogênio, produção de hidrogênio e ônibus híbrido com pilha a combustível. Miranda relatou ainda o trabalho da Rede PaCOS, que dissemina informações na área de pilha a combustível de óxido sólido envolvendo diversos estados, aberta a todos interessados que tem uma versão na área de pesquisa e desenvolvimento cooperativo para pesquisadores ou empresas associadas a projetos de P&D da Rede.
A Coppe tem incubadora de empresas e parque tecnológico que recebem processos oriundos das pesquisas do Laboratório de Hidrogênio associadas com empresas. "Inovação é o que, uma vez implantado, vai trazer uma receita superior em relação ao que existia antes", conceitua Miranda.
Luiz Paulo de Carvalho, da Embrapa Algodão de Campina Grande, relatou à luz do que absorveu no Centro de Desenvolvimento da Inovação (Centrim) da Universidade de Brighton, Reino Unido, todo o processo que fez a instituição nordestina conquistar o Prêmio Finep de Inovação Tecnológica em 2006. A inovação premiada é o algodão colorido, que empresários do Japão em visita à unidade disseram que teria mercado para exportação. Identificada a oportunidade, a unidade apostou no nicho de mercado, coletou genes de variedades silvestres existentes no Peru e adaptou em Campina Grande.
Conforme Luiz Paulo de Carvalho, o algodão colorido agrega valor, dispensa o preparo para tingimento e o tingimento, reduz custo, reduz gastos com água e energia e reduz a quantidade de efluentes e serem tratados. Segundo ele, o tingimento e o alvejamento do algodão são poluentes, geram resíduos com altas concentrações de sais, barrilha, umectantes, soda cáustica - cerca de 15% dos resíduos são liberados na água.
A produção e comercialização envolve a Cooperativa de Produção do algodão colorido, que reúne 26 empresas terceirizadas, 11 cooperados prestadores de serviços, 10 associações e cooperativas de artesãos. Além disso, envolve artesãos anônimos, exporta para a Itália, Alemanha, França, Estados Unidos e Espanha, possui loja em Portugal e franquias na Europa, mais de 30 franquias no Brasil e participa de feiras internacionais.
O esforço resultou no algodão das cores creme, verde, marrom e bege. "A Embrapa está lançando o algodão da cor chocolate", anuncia Luiz Paulo de Carvalho. O ciclo da inovação, segundo ele, envolve Pesquisa (facilitar criatividade, identificar oportunidades), Exploração (investigar, selecionar e validar idéias), comprometimento (tomar decisões, comprometer todos os recursos), realização (montar equipe, gerenciar processos, manter equipe no foco), otimização (avaliar custo-benefício, avaliar novas aplicações para a inovação, aperfeiçoar os processos, reconhecer aqueles que participaram).