Polêmico projeto de lei que regulamenta a profissão de astrólogo põe em pé de guerra os astrônomos e a comunidade científica
Cláudia Amorim escreve para o 'Jornal do Brasil':
As listas de argumentos incluem perguntas bem-humoradas como Se os astrólogos são tão bons assim, por que eles não são mais ricos? . Ou ainda: Qual é a probabilidade que 1/12 da população da Terra (500 milhões de pessoas) esteja tendo o mesmo tipo de dia?
É com questionamentos como esses que profissionais normalmente encontrados em atividades de laboratório e centros de pesquisa têm voltado suas baterias na direção do Senado Federal. Para lá será enviado um dossiê em preparo há três semanas com resultados de testes a que a astrologia foi submetida.
O motivo é o projeto de lei nº 43, do senador Artur da Távola, que pretende regulamentar a profissão de astrólogo e que o estudo do assunto figure a nível de terceiro grau, ou como pós-graduação, doutorado etc. . A proposta deixou indignada a comunidade científica e reanimou a antiga rixa entre astrologia e astronomia.
A Sociedade Astronômica Brasileira (SAB) acusou a iniciativa do parlamentar de obscurantista, equivalente a regulamentar o curandeirismo ou o charlatanismo como profissão legal , diz o texto difundido pela entidade na internet.
É o site da mesma SAB que divulga a tradução do kit de defesa contra a astrologia , de Andrew Fraknoy, publicado originalmente na revista 'Sky & Telescope', que propõe as questões citadas acima. Para muitos de nós é difícil saber como responder polidamente a alguém que leva a sério essa antiga superstição , diz o texto.
A indignação e os protestos acabaram crescendo em proporções astronômicas e se estenderam bem além dos domínios da SAB. Nos impérios primitivos, sempre existia um oráculo, feiticeiro ou astrólogo real.
Agora, caso a astrologia seja mesmo regulamentada como profissão, nada impedirá o governo de criar cargos como o de astrólogo geral da União , dispara o engenheiro Ronaldo Cordeiro.
O físico brasileiro Marcelo Gleiser, que dá aulas no Darmouth College, nos EUA, considera que o projeto pode resultar em uma volta à Idade Média e lembra que o cargo público de astrólogo existia até o Renascimento, quando deu origem aos postos de astrônomo e conselheiro da corte, que não consultava os astros para decidir como aconselhar , frisa.
A Sociedade da Terra Redonda (STR), grupo que tem como objetivo estimular o pensamento científico, também comprou a briga. Aprovar o projeto significa legitimar uma discriminação.
Assim como no racismo há um pré-julgamento por causa da cor da pele, a astrologia promove um preconceito baseado na data de nascimento.
O recurso poderá ser usado, por exemplo, na ocupação de cargos, ou, no caso que está previsto no projeto original [artigo 6º], de astrólogos dirigirem ou assessorarem serviços públicos, as deduções deles poderão servir para decidir políticas públicas , revolta-se Daniel Sottomaior, um dos coordenadores da STR e fundador da ONG Ciência e Cidadania.
O desdobramento apontado por Sottomaior é justamente o que mais assusta Marcelo Gleiser.
Legitimar o uso da astrologia de forma que ela seja usada para seleção de emprego é ridículo, é discriminação profissional. Em lugar nenhum do mundo a profissão de astrólogo é regulamentada. Na verdade, não entendo o objetivo desse projeto, é uma grande perda de tempo, o Brasil tem tantos problemas mais sérios. A comunidade científica em peso está revoltada. Espero que o congresso consulte profissionais diferentes para discutir a questão antes de votá-la, diz Gleiser.
No entanto, alguns membros da comunidade acadêmica saem em defesa dos astrólogos, ainda que sem se colocar contra ou a favor do projeto.
Cito as palavras de Isaac Newton, que foi um grande astrólogo: só se pode falar sobre o que se conhece, diz a física do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) Darci Esquivel, que tem a astrologia como hobby. Isso não tem nada a ver com o meu trabalho, sou uma cientista. Respeito a astrologia humanista, para o auto-conhecimento, numa abordagem jungiana. Não tem nada a ver com predizer o resultado da loteria. Como em tudo, até na medicina, há milhares de facetas, como o charlatanismo. Sobre o projeto, especificamente, não sei, mas há que se reconhecer outros tipos de conhecimento, defende.
Filipe Ceppas, professor de Filosofia da Universidade Gama Filho e de didática da UFRJ, chama de autoritários os detratores da astrologia, que, para ele, deve ser vista como uma porta de entrada para a História da ciência e a compreensão científica dos fenômenos celestes.
Ele argumenta: 'Não tomei posição a respeito do projeto. Mas achei o tipo de ataque que foi feito absurdo, desproporcional, cientificista. Como se o que não é ciência não tivesse valor em termos de conhecimento.'
Ceppas concorda com os que dizem que a astrologia não é uma ciência, mas faz uma advertência aos adversários mais veementes.
'Os que atacam com zelo implacável a astrologia e outras 'crenças populares', sem levar em consideração seus aspectos lúdicos, históricos, simbólicos e psicológicos, parecem se igualar aos astrólogos infelizes que defendem a astrologia como ciência', alfineta o professor, que ironiza: 'Decerto, eles nunca leram os textos fundamentais de Paul Feyerabend, Adorno ou Yates sobre o assunto'.
O presidente da SAB, Kepler Oliveira, professor do curso de doutorado em Física da UFRGS, contra-ataca: 'Procurei as referências que ele cita e elas não invalidam nossos argumentos. São apenas contra o determinismo na ciência.'
Eleito na SAB há três semanas, Kepler prepara um dossiê contra a astrologia. Ele promete enviar o documento a cada senador em nome da entidade, que aprovou uma carta de repúdio ao projeto de lei de Artur da Távola.
Apesar de estar do mesmo lado de Kepler nessa disputa, o físico Marcelo Gleiser dá à sua oposição um tom mais conciliador.
'Não tenho nada contra a astrologia, tenho ótimos amigos astrólogos. Sou até um crítico da postura reacionária na ciência. Não sou contra suprir a necessidade do ser humano de auto-ajuda, seja com astrologia, búzios, tarô ou runas. O problema é institucionalizar a astrologia da forma que o projeto propõe', critica o físico.
Presidente dos Sindicato dos Astrólogos do RJ, de onde partiu o anteprojeto adotado por Artur da Távola, Celisa Beranger lamenta a resistência e aguarda que o projeto de lei seja enviado à Câmara, o que está previsto para acontecer até o fim do ano.
'Sei das dificuldades, mas a regulamentação é importante para conseguirmos financiamento para pesquisas e respeitabilidade para a profissão', defende.
Mas, mesmo entre os astrólogos, há um grupo que não tem apreço pelo projeto que tramita no Senado, embora Celisa garanta que trata-se de uma minoria.
'Não vejo o menor cabimento. Da forma como está colocado, não sei como o projeto pode se encaixar na astrologia, embora eu ache que o senador tenha agido de boa-fé', diz Mônica Horta, que foi aprendiz do astrólogo Olavo de Carvalho, que atualmente ataca na posição de filósofo.
Mônica abomina o uso da astrologia na contratação de pessoal - 'é maluquice preterir ou contratar uma pessoa com base na astrologia' - e é partidária, como os astrólogos Antônio Carlos Harres, o Bola, e Maria Eugênia de Castro, presidente da Sociedade de Astrologia do RJ, da auto-regulamentação, uma contraproposta sugerida pela classe como alternativa para a empreitada de Artur da Távola em Brasília.
Até o fechamento desta edição, o senador não havia respondido ao pedido de entrevista feito pelo JB. (Jornal do Brasil, 8/9)