Países tentam salvar Aral, vítima do maior desastre ambiental causado pelo homem
Com décadas de atraso, começa a primeira tentativa de salvar o que restou da vítima do maior desastre ambiental já provocado pela Humanidade.
Por boa parte do século XX, programas de crescimento econômico da antiga União Soviética exploraram o Mar de Aral. Na verdade, um lago entre Cazaquistão e Uzbequistão que um dia chegou a ser o quarto maior do mundo.
Os rios que o alimentavam foram desviados, suas águas usadas excessivamente em irrigação e o que sobrou recebeu cargas elevadas de poluentes. Como resultado, hoje restam cerca de 30% de Aral, mar que muitos ambientalistas consideram condenado. Não é o que pensa o governo do Cazaquistão.
Ele conseguiu um empréstimo de US$ 126 milhões junto ao Banco Mundial para um projeto que tenta salvar o Mar de Aral e, com ele, o abastecimento de água de alguns dos países mais áridos do mundo.
Ouro branco esgotou a água
Especialistas dizem que é pouco, mas se o projeto render ao menos alguns resultados, será um caso raro em que o homem reverte os efeitos da destruição que ele mesmo causou. Segundo a ONU, nenhum desastre ambiental é tão grande quanto o do Aral.
A tragédia começou há mais de cinco décadas, quando a extinta União Soviética resolveu empregar a água de Aral para irrigar plantações de algodão no Uzbequistão e no Cazaquistão. Na avaliação dos burocratas soviéticos, o então chamado “ouro branco” era mais importante do que a pesca e o equilíbrio ecológico.
— Que Aral morra de forma esplêndida — disse, certa vez, o engenheiro Grigory Voropaev, responsável pela transposição do curso dos rios Amu Darya e Syr Darya, importantes para alimentar o lago.
De 1961 a 1970, os níveis de água desceram, em média, 20 centímetros por ano. Nos anos 80, essa taxa passou a ser de 90 cms por ano.
A falta de planejamento na transposição fez com que o deserto que cercava Aral avançasse e alterasse o clima local. Tempestades de areia levaram ao desaparecimento de várias espécies.
A água que restou se tornou salobra, recebendo também despejos industriais e pesticidas. Cerca de 75% de área de Aral desapareceram, forçando milhares de pessoas, que dependiam da pesca e da agricultura, a migrarem para outras regiões. A poluição atingiu as mesmas plantações de algodão que praticamente decretaram a morte do Mar de Aral. Doenças como bronquite, alergias, artrite e anemia passaram a afetar a população que permaneceu na região.
O governo pretende construir um dique que possa recuperar parte do mar. Um projeto menor iniciado há alguns anos conseguiu ampliar parte do lago e trazer mais chuvas, dando esperança a quem considerava Aral perdido. Mas as previsões são de que, se nada for feito, ele desaparecerá até 2015. (O Globo, 10/4)