'Poder dos EUA está diminuindo', afirma Zbigniew Brzezinski
O ex-conselheiro de Segurança Nacional dos EUA
Patrícia Campos Mello escreve para “O Estado de SP”:
Dezoito anos atrás, o bloco soviético começou a desintegrar-se e os EUA emergiram como a única superpotência mundial. O país era uma potência inconteste - admirada, vista como líder natural e merecedora de seu status.
Hoje, os EUA são hostilizados por aliados e inimigos, e sua liderança global é cada vez mais questionada.
A posição unilateralista em questões que envolvem desde o aquecimento global até tribunais internacionais, guerras como a do Iraque e violações aos direitos humanos em Abu Ghraib e Guantánamo causaram um dano profundo à reputação mundial dos EUA.
Mas a América tem uma segunda chance, afirma Zbigniew Brzezinski, um dos mais respeitados especialistas em política externa dos EUA.
'Assim como no século 20 os EUA vieram simbolizar a luta das democracias contra o totalitarismo, o próximo presidente terá de sintonizar o país com o espírito da nossa era - uma busca por maior igualdade e justiça social - para manter a supremacia americana', diz Brzezinski, que foi conselheiro de Segurança Nacional no governo Jimmy Carter e atua no Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais.
Ele acaba de lançar o livro Second Chance: Three Presidents and the Crisis of American Superpower (Segunda chance: três presidentes e a crise da superpotência americana), no qual analisa o desempenho dos três governantes americanos no mundo pós-guerra fria e o desafio de recuperar a legitimidade da liderança dos EUA.
Abaixo, trechos da entrevista que concedeu ao Estado em seu escritório.
- Os EUA ainda são a superpotência mundial?
Sem dúvida. Mas o poder dos EUA, por causa de suas próprias políticas, está diminuindo. A América está mais fraca porque prejudicou sua credibilidade, um importante elemento do poder. Até 2003, o mundo estava acostumado a acreditar na palavra do presidente dos EUA - mas dois meses depois da invasão de Bagdá, Bush dizia em entrevista que tinham sido encontradas armas de destruição em massa. Os EUA também perderam parte de sua legitimidade. E diminui também o respeito que havia pelo poder militar americano, por causa da incompetência de sua operação no Iraque.
- O sr. afirma que o atual governo é pautado por uma 'paranóia maniqueísta'...
O neoconservadorismo que prosperou no governo Bush, doutrina rival do globalismo, é maniqueísta. Baseia-se em certezas morais do bem contra o mal, 'com a gente ou contra a gente'. Tudo isso está relacionado à chamada guerra contra o terrorismo, que criou uma cultura de medo nos EUA e reduziu a autoconfiança dos americanos.
- Em termos de liderança global, o sr. dá nota B a Bush pai, C a Clinton e F a Bush. Quais foram os principais acertos e erros de cada um em política externa?
Bush pai lidou extremamente bem com a desintegração da União Soviética e a fase inicial da campanha para expulsar Saddam Hussein do Kuwait (embora não tenha tirado todo o poder do ditador iraquiano). Mas ele não tinha um conceito mais ambicioso do mundo no momento em que os EUA emergiram como o único poder global. Clinton atuou bem na expansão da Otan, que garantiu estabilidade na Europa; e na crise iugoslava. Mas, em oito anos de governo, não fez nenhum progresso no Oriente Médio - aliás, deixou a situação pior do que era antes. Ele personificou a auto-indulgência como um conduta pessoal e da nação, quando havia a oportunidade de a América se identificar com a nova busca de justiça social e atenção aos pobres. Quanto a Bush, acho que não preciso explicar.... em meu livro, o nome do capítulo sobre seu governo é 'Liderança catastrófica'.
- Quais os riscos que os EUA terão de enfrentar até o fim do governo Bush, em 2008?
Existe o risco de a guerra do Iraque se prolongar indefinidamente, escalar e até se espalhar por causa de algum incidente que pode ser usado para justificar uma operação militar no Irã.
- Quais seriam as conseqüências de a guerra se espalhar para o Irã?
Se nos envolvermos num conflito com os iranianos, enquanto a guerra do Iraque se desenrola e a situação no Afeganistão se complica, é muito provável os EUA acabem sozinhos, metidos em uma guerra no Iraque, Irã, Paquistão e Afeganistão. E isso teria conseqüências evidentes para a supremacia americana.
- A esta altura, ainda é possível negociar com o Irã? O Departamento de Estado tem sinalizado uma mudança de rota, concordou em participar na conferência com o Irã...
Com certeza é possível, por que não? Esses são passos na direção correta e, se continuarmos assim, podemos ter várias negociações com o Irã, relacionadas ao Iraque e à estabilidade do Oriente Médio, sobre uma continuação da colaboração que tivemos, do Irã, no Afeganistão, em 2002. E, por último, poderíamos ter um diálogo sobre o problema nuclear, desde que os EUA recuem nas exigências rígidas demais que impuseram, e se transformaram em um impedimento para qualquer negociação.
- O que o sr. esperaria, em termos de política externa, dos principais candidatos às eleições de 2008 - Barack Obama, Hillary Clinton, Rudy Giuliani e John McCain?
Obama iria significar a grande mudança, o símbolo da América que realmente é uma sociedade universal. Já Hillary seria uma continuidade dos anos Clinton, o que não é uma coisa negativa, mas, diante da atual degradação da posição dos EUA no mundo, talvez algo dramaticamente novo seja necessário. Acho que Giuliani e McCain, a esta altura, estão presos no apoio à política externa de Bush, que não pode ser mantida depois de 2008. A questão é: qual dos dois iria mudar de política? Acho que nenhum republicano conseguirá vencer a eleição se fizer campanha com base na continuidade das políticas de Bush.
- O que o sr. acha das políticas de Bush para a América Latina?
Bush manteve uma política de indiferença e negligência em relação à América Latina, mas não houve uma hostilidade. O problema é que os EUA ficaram tão absortos em sua própria guerra no Iraque desde 2003, e desde 2001 em sua pretensa guerra contra o terror, que não tiveram tempo para mais nada.
- Então, além de se envolverem em uma situação de difícil solução no Oriente Médio, os EUA negligenciaram outras regiões do mundo?
Sim, e as conseqüências mais dramáticas são vistas na América Latina - a ascensão do populismo democrático antiamericano. Até então, os EUA conseguiam promover democracias genuínas na região como forma de consolidar seu relacionamento com os latinos. A alternativa a isso eram os regimes não-democráticos, do tipo castrista ou peronista. O que é novo é a emergência das democracias populistas antiamericanas na Venezuela, Bolívia, que são um desafio ainda maior do que os regimes não-democráticos.
- Os EUA estão tentando resgatar o relacionamento com a América Latina, o presidente Bush acaba de fazer uma viagem à região. Ainda dá tempo de se redimir?
Essa viagem foi muito positiva porque mostrou do interesse, mas os problemas são mais profundos. O antagonismo em relação aos EUA vem da imagem de país unilateralista preocupado apenas com seus próprios interesses. A globalização, que é um fenômeno positivo, produz muitas dificuldades no curto prazo, problemas agudos. Se os EUA apostam na globalização como motor de mudanças, deveriam se preocupar mais com os problemas causados pela globalização.
- Se os EUA realmente perderem poder, quem poderia emergir como a próxima superpotência mundial?
O fato é que não há alternativa para os EUA - e é por isso que a América tem uma segunda chance, o nome do meu livro. Aqueles que estão sentados em São Paulo ou Caracas, sentindo 'schadenfreude' (prazer com a desgraça alheia) por causa das dificuldades que os EUA estão enfrentando, deveriam pensar duas vezes. Eu sou crítico em relação à política externa americana, mas o mundo não será melhor sem os EUA como estímulo para mudança, sem o país como ponto de equilíbrio, fonte de inovação. Os EUA são o único país verdadeiramente global, domesticamente também - o Brasil é uma sociedade global, mas, domesticamente, ainda é muito provinciano. O fracasso dos americano significaria anarquia global.
- Como o sr encara uma possível liderança chinesa?
A China pode estar emergindo como líder em suas relações com a África e talvez no Extremo Oriente. Mas como pode um país que tem 1,3 bilhão de habitantes, dos quais no mínimo 800 milhões vivem em péssimas condições, ser um líder? A China impressiona e tem feito progressos, mas para ser líder é preciso ser bem-sucedido em várias dimensões.
- É possível resolver o conflito do Iraque no curto prazo?
Sim, mas não haverá solução enquanto o Bush não se dispuser a mudar suas políticas.
- O sr. não vê o presidente Bush finalmente mudando de rumo?
Só se os líderes republicanos disserem a ele, em particular: o sr. está conduzindo o partido a um suicídio nas eleições de 2008. Não vejo isso acontecendo agora, mas talvez mais para frente, à medida em que as eleições se aproximarem e a guerra do Iraque tiver ainda mais impacto, os republicanos dirão a Bush: sua política é insana, esta é uma guerra de orgulho presidencial, não de interesse nacional. (O Estado de SP, 25/3)