Máquina foi criada para ajudar a entender mecanismo de locomoção
Carlos Orsi escreve para "O Estado de SP":
Nadar e andar são movimentos com ritmos e formas de coordenação diferentes. A maneira como os primeiros seres a dividir a vida entre o mar e a terra conseguiram passar de um ambiente para outro sempre intrigou os cientistas.
Agora, um robô que simula a espinha dorsal de uma salamandra oferece a resposta: sem muita dificuldade.
Criada por pesquisadores europeus, a máquina, apelidada com o 'nome científico' de Salamandra robótica, tem um corpo de 85 cm, dividido em nove segmentos e quatro patas.
É impulsionado por dez motores: seis nas juntas dos segmentos e um em cada pata.
Mais importante, Salamandra robótica tem sistema nervoso artificial, baseado em parte no da lampreia (peixe semelhante à enguia, que nada oscilando o corpo numa onda em forma de S).
O sistema usa ainda um modelo matemático criado pela equipe de Auke Jan Ijspeert, da Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça. O resultado do experimento é descrito hoje na revista Science.
O sistema nervoso do robô é dividido em dois geradores centrais de padrão (GCPs). Um deles, o GCP do corpo, faz a Salamandra robótica oscilar como uma lampreia nadando. O outro, o GCP dos membros, faz com que as patas se movam.
Os testes com o robô mostraram que aumentar a força do sinal enviado pelo cérebro faz com que as patas se movam cada vez mais rápido, até que um limite é atingido.
A partir daí, o GCP dos membros trava, e a oscilação em 'S' toma conta do corpo, o que faz com que a máquina passe a rastejar como cobra, se estiver em terra, ou a nadar, na água.
O comportamento do robô confirmou o modelo matemático que prevê que o uso do GCP dos membros causa interferência no do corpo, o que força as ondulações a perder intensidade, estabilizando-as num ritmo adequado ao caminhar.
Só quando o gerador central de padrão dos membros sai de cena - sobrecarregado por sinal intenso do cérebro - é que o GCP do corpo volta a dominar.
Além de lançar luz num mecanismo neurológico importante para a evolução da vida na Terra, Salamandra robótica pode representar avanço na evolução dos robôs.
É uma das poucas máquinas capazes de adotar três modos distintos de locomoção: nada, caminha e rasteja. 'Este estudo é uma demonstração de como robôs podem ser usados para testar modelos biológicos', diz o artigo. (O Estado de SP, 9/3)