Ornitólogos começam neste sábado trabalho para localizar o periquito-cara-suja, um dos dois psitacídeos mais ameaçados no Brasil, que vive em áreas de caatinga em Pernambuco e no Ceará
Começa sábado a primeira das dez expedições científicas em busca do cara-suja, um dos dois psitacídeos – grupo de aves que inclui as araras, jandaias, papagaios e periquitos – mais ameaçados de extinção do Brasil.
O periquito, de 25 centímetros, é restrito aos estados de Pernambuco e Ceará, onde habita os brejos de altitude, ilhas de floresta úmida em plena caatinga.
Os ornitólogos, ligados à Associação de Pesquisa e Preservação dos Ecossistemas Aquáticos (Aquasis), percorrerão a Serra de Baturité, no Ceará, à procura de dados sobre a biologia do periquito-cara-suja.
O local é uma das duas áreas onde a espécie tem registros científicos recentes. O outro é Serra Negra, brejo de altitude entre Floresta, Inajá e Betânia, no Sertão de Pernambuco.
“Queremos saber quantos periquitos-cara-suja restam em Baturité, onde eles se reproduzem, quantos filhotes têm e de que se alimentam”, afirma o coordenador do projeto, o biólogo da Aquasis Weber Andrade de Girão e Silva.
A pesquisa, com duração de um ano, é financiada pela Fundação O Boticário de Proteção à Natureza.
Na lista do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) de animais ameaçados de extinção, o cara-suja figura na categoria criticamente em perigo de extinção.
Ele e a arara-azul-de-lear perdem, em risco de desaparecer, apenas para a ararinha-azul, hoje restrita ao cativeiro. As principais ameaças enfrentadas pelo periquito são a perda de habitat e o tráfico de animais silvestres.
“Os brejos de altitude são locais que sofrem muita pressão, seja pelos moradores do Sertão seja por veranistas”, afirma Weber.
A comercialização da ave, denominada cientificamente Pyrrhura griseipectus, remonta ao século 17, quando naturalistas alemães ligados ao governo holandês no Nordeste do Brasil descreveram pela primeira vez o cara-suja. “Desde aquela época, que a ave é vítima do tráfico”, afirma Weber.
O biólogo também teve projeto de pesquisa aprovado pela Fundação Loro Parque, em Terenife, nas Ilhas Canárias, possessão espanhola na costa oriental africana.
A entidade, que mantém a espécie em cativeiro, aprovou projeto para identificação dos locais, no Nordeste brasileiro, onde a ave ainda se encontra.
Além de Pernambuco, a Aquasis buscará a ave em Alagoas, onde há registros visuais.
Pouco se sabe sobre a ecologia do cara-suja, que tem o corpo coberto por penas verdes, azuis (embaixo das asas), vermelhas (embaixo da cauda e do ventre), cinzas (peito) e brancas (ouvidos).
“Embora sua situação na natureza seja grave, a espécie se reproduz bem em cativeiro e há uma significativa população nativa”, anima-se Weber. (Jornal do Commercio, Recife, 24/1)