Leitores comentam artigo "Carl Sagan e a vela na escuridão", de Marcos Sawaya Jank e Rodrigo C. A. Lima
“A ciência e os cientistas também são assombrados pelos demônios. A luz deve vir
do controle ético da ciência e dos cientistas. E isto é feito pela sociedade civil, através de seus representantes”
Mensagem de Domingos S.L. Soares, professor do Depto. de Física e Astrofísica do Instituto de Ciências Exatas da UFMG:
“Ao contrário do que os autores, Marcos Sawaya Jank e Rodrigo C. A. Lima, querem fazer parecer, não só o mundo ‘é assombrado pelos demônios’, mas também a ciência e os cientistas.
É extremamente salutar que a CTNBio não esteja se rendendo aos interesses financeiro-comerciais das grandes empresas na tomada de suas decisões.
Afirmações feitas pelos autores do tipo: ‘Vale notar que a preocupação com biossegurança não é exclusiva de consumidores, ambientalistas e outros grupos sociais, mas, principalmente das empresas que investem grandes somas para desenvolver e colocar novos produtos no mercado’ beiram as raias da hipocrisia.
As empresas estão principalmente preocupadas com o lucro, o que é intensivamente demonstrado pela historia da humanidade.
Especialmente, nas empresas que lidam com a produção e processamento de alimentos, a preocupação principal e' o lucro, conjugada com uma maneira de escamotear os malefícios que possam ser causados à população consumidora.
A conceituada revista cientifica britânica Nature exige dos autores de artigos submetidos para publicação uma declaração de origem do financiamento das pesquisas envolvidas no trabalho submetido. Esta medida visa a dar a conhecer os vínculos de interesses representados pelos autores (cientistas).
Por que os membros da CTNBio e os autores do artigo em discussão, por exemplo, não declaram as fontes de seus financiamentos de atividades? A sociedade quer e deve saber com quem está lidando.
De minha parte, declaro ser total e completamente financiado por recursos públicos, pois exerço atividades profissionais numa Universidade publica, e não possuo auxilio financeiro externo.
A ciência e os cientistas também são assombrados pelos demônios. A luz deve vir do controle ético da ciência e dos cientistas. E isto é feito pela sociedade civil através de seus representantes.
Dizer que "...a comissão deveria pautar-se por respostas estritamente técnico-científicas para o tema da biossegurança dos produtos transgênicos" é figura de retórica, pois pressupõe que a ciência e os cientistas estejam completamente desvinculados de interesses alheios à própria ciência. O que e' absolutamente falso.
O ceticismo pregado pelo grande Carl Sagan estende-se a todas as atividades humanas, especialmente quando o objetivo e' a exploração dissimulada do semelhante.”
Leia agora a mensagem de Gerson Machado (gerson@machadobd.com):
Este comentário refere-se às notícias veiculadas no JC e-mail de 20 e 21/12 (http://www.jornaldaciencia.org.br/index2.jsp?id1248 e http://www.jornaldaciencia.org.br/index2.jsp?id1249) com referência à suposta lentidão nos trabalhos da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio).
Os comentários comparando a comissão a uma assembléia-geral ou tentando exaltar a ciência sem entretanto apresentar informações transparentemente tanto sobre riscos quanto a respeito de supostos benefícios, demonstram uma falta de objetividade e uma distorção do conceito de ciência para fins de ideologia ou comerciais.
O tipo de atitude da maioria dos críticos da CTNBio que querem acelerar a aprovação de OGMs no Brasil desconsiderando que vários países sequer consideram a sua aprovação (tolerância zero no Japão e várias restrições na Suécia, Suíça, Alemanha, França, UK, Irlanda, Áustria, etc), não pode ser chamada de ciência.
Os críticos não oferecem nada que possa ser construído como uma proposta balanceada a respeito de política, segurança pública, eficácia, qualidade, custo, informação ou uso racional.
Ciência não é a disciplina de escolher apenas a evidência que alguém considere suportar as suas hipóteses. Ninguém pode se chamar de cientista ignorando evidência in-vitro, in-vivo e no meio ambiente contra uso de OGMs e mostrando uma falta de respeito para com aqueles que são intitulados de ambientalistas, como se não fossem ou pudessem ser cientistas.
Profissionais que consistentemente ignoram evidência não estão capacitados para liderar estes trabalhos e denigrem ao seu próprio nome bem como ao nome de suas instituições.
De forma que não haja manipulação de dados com risco ambiental e de saúde para fins puramente comerciais, dados de mercado, laboratório, opinião de consumidores e cientistas bem informados e que não tenham conflitos de interesse, bem como informação decente mostrando efeitos de longo prazo no consumo de OGMs deve ser disponibilizada.
A epigenética nos mostra que a nutrição pode ser usada para dinamicamente afetar os nosso mapa genético, positiva ou negativamente. Consistentemente os dados de consumo de OGMs mostram aumento de defeitos genéticos, redução de vida, contaminação e vários outros problemas que levam à maioria dos consumidores em países avançados a exigirem a descrição “nenhum OGM” nos rótulos de produtos que consomem ou nos restaurantes que visitam…
É sabido que organismos e biologia não são Newtonianos e que abordagens reducionistas são completamente erradas ou severamente limitadas. A realidade é que a biologia é quântica e trabalha a nível atômico e subatômico onde as leis de Newton falham e eletromagnetismo e outras energias reinam.
A manipulação isolada de genes, em contraste com evolução natural, portanto representa uma abordagem extremamente primitiva e fadada a causar efeitos de longo prazo que não são passíveis de análise a curto prazo e baixo custo.
Todas as biotecnologias podem entretanto ser utilizadas para monitorar, otimizar e balancear a produção natural de espécies mais adaptáveis, o que permite ciência sem os efeitos nefastos de OGMs e a rejeição dos consumidores informados.
A maioria dos interessados em OGMs hoje o fazem por razões comerciais, inclusive os vários “cientistas” e jornalistas que consistentemente ignoram evidências contra seu uso ou nunca declaram conflitos de interesse, o que deveria ser prática comum no Jornal da Ciência ou em qualquer publicação.
Ora, até mesmo o caso de proteção de propriedade intelectual ligado a OGMs não é sustentável pois não se pode patentear o ciclo reprodutivo natural. Se alguém produzir uma vacina de DNA contra câncer de um pai, ninguém precisa pagar royalty para o fabricante a respeito de crianças que sejam imunizadas.
Não é sustentável o caso de cobrança de royalties ligados a patenteamento de descendentes de algo que se auto reproduza, sejam objetos vivos ou objetos inanimados. O que é sim viável é a cobrança de compensação pela contaminação do que antes tinha DNA natural, por todos aqueles que sejam lesados, inclusive com responsabilidade da União.