A coleção da UnB mantém espécies já extintas e outras mais nutritivas, enriquecidas por cruzamentos gênicos
As espécies silvestres de mandioca nativas do Brasil possuem genes capazes de transformar o tubérculo numa planta mais protéica, resistente a pragas e a bacterioses, tolerante a seca e com alta produtividade.
Apesar de tantas vantagens, 17 espécies delas estão à beira de extinção no seu habitat natural, o Cerrado brasileiro, e pelo menos três já foram extintas.
Foi o que observou o agrônomo egípcio e professor da Universidade de Brasília (UnB), Nagib Nassar. Há 30 anos o especialista, referência mundial no assunto, visita as áreas que concentram grande parte dessas plantas nas regiões de Corumbá de Goiás, Chapada dos Veadeiros e Goiás.
Em suas andanças pelo campo, ele notou o sumiço das espécies Manihot pilosa, M. oligantha e M. neusana – todas com grande potencial genético. O resultado foi publicado em agosto de 2006 na revista científica Genetic Resources and Crop Evolution, editada em Amsterdã, Holanda.
“Elas não são mais encontradas na natureza, mas foram preservadas na Estação Biológica da UnB”, comemora Nassar. Ele criou no local a única coleção viva de mandioca do mundo.
São 20 espécies silvestres diferentes que geraram, cada uma, cerca de 50 plantas. O cruzamento das mandiocas silvestres em extinção com tipos comuns do tubérculo possibilitou a geração de 12 híbridos com as propriedades especiais já citadas.
Apenas uma das mandiocas híbridas, a que tem duas vezes mais proteínas que a comum, chamada ICB 300, se fosse comercializada, seria suficiente para deixar o professor milionário. Mas essa nunca foi sua intenção.
“Essa pesquisa é feita com dinheiro público, por isso ela pertence a todos os brasileiros”, diz o professor.
Parceria - Para beneficiar a população com o estudo, Nassar firmou uma parceria com o Ministério de Meio Ambiente (MMA) no segundo semestre de 2005.
Por meio do projeto, estacas e mudas de mandioca com alto teor protéico são distribuídos a pequenos agricultores do Distrito Federal e para assentamentos de sem-terra.
Outra instituição que sempre apoio Nassar através vários projetos é o CNPq, que contribui na manutenção da coleção viva na UnB. “Sem apoio desse órgão, minha plantas não existiriam e não cresceriam bem”, disse o professor.
As mandiocas híbridas também já atravessaram o Atlântico e foram parar na Oeste da África.
Por meio de um acordo com o Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA) da Nigéria, este país recebeu alguns híbridos originados na própria UnB na década de 1980.
Hoje, as variedades desenvolvidas a partir dessas espécies cobrem uma área de mais de 4 milhões de hectares, o que levou a Nigéria a se tornar o maior produtor mundial do tubérculo. (UnB Agência)