Estima-se que haja 90 milhões de roedores sob estudo no mundo; um par desses animais pode custar R$ 1.300
Douglas Birch escreve para "O Estado de SP":
Por mais de um século, os ratos têm sido as cobaias mais usadas pela ciência. Mas a quantidade desses animais nos laboratórios aumentou assustadoramente nos últimos cinco anos, depois que os cientistas descobriram que eles, de seus 30 mil genes, não têm apenas 300 em comum com os humanos.
A Fundação de Pesquisa e Desenvolvimento Alternativos, nos EUA, que tem como objetivo limitar o número de animais em experimentos, estima que haja 90 milhões de ratos sob estudo em laboratórios de todo o planeta - o equivalente à metade dos habitantes do Brasil, por exemplo.
Só na Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, também nos EUA, existem 100 mil ratos.
A semelhança com os humanos faz com que esses pequenos animais sejam perfeitos para estudar, entre outras doenças, a diabete, o mal de Alzheimer, a distrofia muscular e cânceres de todos os tipos.
Outra vantagem dos roedores é que eles não têm problemas com o incesto. Isso significa que gerações de irmãos e irmãs podem se reproduzir e criar animais com praticamente o mesmo DNA dos pais, o que faz com que os resultados dos experimentos possam ser reproduzidos.
Além disso, os ratos são pequenos e chegam à fase adulta com rapidez. Do nascimento à morte, em média, são dois anos e meio.
O médico Solomon H. Snyder, da Johns Hopkins, por exemplo, ajudou a abrir caminho para a criação do Viagra quando criou um rato que tinha um gene defeituoso que impedia a produção de um neurotransmissor - por isso, o roedor não conseguia ter ereções.
O veterinário responsável pelo laboratório de animais da Universidade Johns Hopkins, Christopher Newcomer, afirma que o número de ratos numa instituição pode servir de parâmetro para avaliar o quanto ela investe em ciência.
Não por acaso, esta é a instituição que mais recebe verbas do Ministério da Saúde americano para experimentos.
Em 1999, a Escola de Medicina da Johns Hopkins tinha 42 mil animais de laboratório, sendo que os ratos eram a vasta maioria. Atualmente são 100 mil. Segundo o veterinário da instituição, o crescimento deve se manter em torno de impressionantes 20% ao ano.
Com uma população tão grande, as entidades de defesa dos animais reclamam que os roedores não têm sido tratados como deveriam. Até o final dos anos 90, na mesma Johns Hopkins, os ratos eram mantidos em lugares inadequados.
Muitos, segundo fiscais do governo, eram maltratados. Além disso, não havia funcionários suficientes para cuidar de todos.
Nem tão virtuosos
Além de contribuir com os avanços da ciência, as pequenas cobaias movimentam um grande negócio. Só no ano passado, o Laboratório Jackson de Bar Harbor, dos EUA, vendeu 2,3 milhões de ratos para cientistas do mundo inteiro.
O preço de cada um varia. E muito. Um animal simples custa US$ 11 (cerca de U$ 24). Já um par de ratos com os mesmos sintomas do mal de Alzheimer não sai por menos de US$ 600 (R$ 1.300).
Apesar de suas incontáveis virtudes, os roedores não são tão perfeitos assim aos olhos do mundo científico. Eles são pequenos demais, por exemplo, para servir de modelo para procedimentos cirúrgicos.
Eles também não são as melhores cobaias para os estudos da linguagem (naturalmente) nem para observações de comportamento, principalmente o sexual - seus relacionamentos não são duradouros e sua estimulação é feita pelos odores.
Por essa e outras razões, os cientistas deverão continuar usando outros animais em suas experiências, dos minúsculos mosquitos aos nossos parentes macacos. (O Estado de SP, 26/3)