Africanização do Brasil, artigo de Reinaldo Gonçalves
O autor é professor da UFRJ. Artigo publicado no “Jornal do Brasil”:
Apagão em três regiões, epidemia de dengue, crimes políticos, seqüestro de empresários, atentado contra lideranças dos sem-terra, massacre em presídio, impunidade, ineficácia do aparelho repressivo do Estado, empobrecimento do país e aumento do desalento e do desemprego.
Essas são algumas das tragédias recentes vividas pelo povo brasileiro. Não são fatos isolados. Tudo é resultado de um modelo trágico, que tem mergulhado o país em uma trajetória de instabilidade e crise. A oposição ao atual modelo fala do processo de africanização do Brasil.
Houve, ao logo das três últimas décadas, a tragédia econômica, social, política e institucional da grande maioria dos países da África Subsaariana. O processo de africanização não tem, obviamente, conotação étnica.
A africanização do Brasil caracteriza-se pela ocorrência simultânea dos seguintes fenômenos: desestabilização macroeconômica, desmonte do aparelho produtivo, esgarçamento do tecido social, deterioração política, degradação institucional e má governança.
A vulnerabilidade externa do país tem significado a ocorrência de crises cambiais. A pergunta persiste: quando o Brasil será a ''bola da vez''? O governo reage com políticas econômicas que têm provocado o desempenho medíocre da economia a partir de 95.
O crescimento da renda per capita foi inferior a 0,9% no período 95-2001. O rendimento médio real do brasileiro caiu 10% nos últimos três anos. O Estado brasileiro está quebrado, com a dívida pública crescendo exponencialmente.
A dívida pública per capita cresceu de 1.000 reais, em 1995, para cerca de 4.000 reais em 2001. O desemprego continua elevado. A taxa de desemprego só não explode porque o desalento aumentou, isto é, as pessoas estão desistindo de procurar emprego. Tudo isto chama-se, tecnicamente, desestabilização macroeconômica.
O desmonte do aparelho produtivo reflete-se não somente nas taxas medíocres de investimento e no desemprego, mas também nos resultados negativos da privatização. O racionamento de energia, o apagão e os telefones celulares mudos são exemplos recentíssimos.
O nível de ociosidade na indústria e no comércio também expressa esse desmonte do lado real da economia. O movimento comercial no último Natal foi uma tristeza. O crescimento recente da inadimplência é outro sintoma.
O esgarçamento do tecido social expressa-se não somente pelo aumento do desalento, mas também pela insegurança crescente, pela violência generalizada e pela falta de perspectiva.
Sem contar a tragédia da área da saúde (no momento, a epidemia da dengue) e o desempenho medíocre na educação. A expansão do narcotráfico e da violência nas áreas pobres é evidente em todas as capitais. Não é privilégio de Campinas ou SP o crescimento exponencial da criminalidade.
A degradação atinge instituições diversas, das escolas federais de ensino superior ao aparelho repressivo do Estado. A crise recente da UFRJ é exemplo. A incapacidade do aparelho repressivo de garantir a vida de presidiários é outro exemplo.
Os escândalos recentes envolvendo senadores da República mostram a degradação de uma instituição-chave, o Congresso Nacional.
A má governança completa o quadro de africanização. Depois de ter provocado uma significativa transferência de renda de trabalhadores para rentistas, de lograr resultados medíocres na economia e na área social, o governo alcança resultados pífios na reforma agrária (como foi destacado pela imprensa internacional).
A degradação moral e ética é pouca disfarçada. Por que tanto esforço para barrar a CPI da Corrupção? As tragédias recentes não são fatos isolados. São o resultado de um modelo que fracassou. Vai consumir muito tempo consertar os estragos dos últimos anos.