O Brasil conheceu a mandioca há 20 séculos atrás e dele a planta se originou e de difundiu por todo o mundo
Nagib Nassar é professor titular de genética da UnB (http://www.geneconserve.pro.br). Artigo enviado pelo autor ao “JC e-mail”:
A mandioca que é a comida diária de mais de duzentos milhões de brasileiros está agonizando.
Sua produtividade estagnou em um nível mais baixo do que na década 1960, e mais atrasada do que se encontra num pais pobre em recursos como a Índia, país que conheceu a cultura há menos de um século.
O Brasil conheceu a mandioca há 20 séculos atrás e dele a planta se originou e de difundiu por todo o mundo.
Analisei os dados da organização de agricultura e alimentos (FAO) das Nações Unidas sobre a produtividade da mandioca nos últimos trinta anos no Brasil e na Índia.
Notei uma queda constante da produtividade existente no Brasil, caindo de 14,8 ton/ha na década 1960 para 12,5 ton/ha durante todas as décadas de 70, 80 e 90, e continua neste patamar ate este momento.
O Brasil não é mais o maior produtor mundial ficando agora em segundo lugar. Na Índia, a produção aumentou de 9 ton/ha no início de 1970 para 25 ton/hectare na década de 1990, e atingiu 27 ton/hectar em 2000.
Veja mais detalhes extraídos dos próprios números da FAO e de seu último livro anuário:
1. O total de áreas cultivadas na América do Sul durante a década de 1960 (cerca de 2.480.000 hectares) produziu 34.400.000 toneladas. A produtividade por hectare foi de aproximadamente 14,3 toneladas.
2. A contribuição do Brasil foi 88% do total da produção da América do Sul e um terço da produção mundial.
3. Desde o inicio de 1972, a produtividade por hectare começou a cair constantemente na América do Sul, descendo de 14,3 toneladas por hectare para 11.8 toneladas por hectare durante a década de 1980.
4. No Brasil, o maior produtor mundial na época, e responsável por mais de 88% de produção da América Sul, a queda foi notada constantemente durante todas as décadas de 1970, 1980 e 1990. A produtividade caiu de 14,8 na década 1960 a 12.5 toneladas/ha durante todas as décadas seguintes.
5. Na Índia, a produtividade por hectare nos primórdios dos anos 70 foi de 9 toneladas/ha, aumentando na década de 80 para 17,7 toneladas por hectare e continuando em aumento surpreendente durante a década de 1990 para aproximadamente 25 toneladas por hectare e chegando 27 toneladas por hectare em 2000.
A produtividade da mandioca sofreu queda na América do Sul durante a década 1970, 1980 por causa dos seguintes fatores: o principal produtor do continente, o estado do SP no Brasil, contribuiu com cerca de 1/3 da produção total do país, com uma media de produtividade de 21 toneladas por hectare.
Este nível de produtividade foi possível graças às técnicas seguidas pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC). Desde o início da década de 70, os agricultores de SP substituíram a mandioca por outras culturas, de acordo com a política de subsidio do governo. Conseqüentemente, a mandioca não poderia competir.
As áreas de cultivo da mandioca diminuíram no país. Neste meio tempo, os cultivares da mandioca produzidos pelo programa nacional e plantados em outros estados não mostraram o mesmo desempenho dos cultivares do IAC vistos em SP, contribuindo assim para a redução da produtividade no Brasil em todo o continente.
Um fato extremamente impressionante foi o ritmo vertical de crescimento da produtividade na Índia nos anos 1980 e 1990 graças ao trabalho liderado pelo Instituto Central de Pesquisa da Mandioca (CTCRI) em Kerala, elevando a produção de mandioca de 9 toneladas por hectare na década de 70 a 25 toneladas por hectare na década de 90 e 27 ton/ha em 2004.
Ambos CTCRI da Índia e IAC da Campinas na década de 60 seguiram método genético de melhoramento baseado de aproveitamento do fenômeno genético de heterose para desenhar seus programas e desenvolver clones muito produtivos.
Levanto meu chapéu e me curvo profundamente em respeito ao trabalho do programa indiano e aprendi uma grande lição sobre seu planejamento e execução. Resumo seus princípios:
1. Aproveitamento do fenômeno genético do heterose para desenhar seu programa de melhoramento e executá-lo estrategicamente durante os anos e por longo prazo.
2. Exploração da capacidade técnica de ampla base de melhoristas altamente qualificados na área do melhoramento genético. O Centro Indiano CTCRI conta com 14 cientistas melhoristas da mandioca, todos com Ph.D. em genética e melhoramento, Não há nenhum técnico que possua menos que um doutorado e muito menos alguém que tenha feito sua tese de doutorado com outra cultura.
3. O vigor e rigidez do centro indiano em controlar e avaliar variedades lançadas anualmente. Qualquer variedade tem que passar por varias comissões julgadoras constituídas nacionalmente por técnicos fora do CTCRI.
4. O controle mais severo de trabalho dos melhoristas seguido pelo centro, monitorando e avaliando em cada ano a produção nacional da cultura e como está evoluindo e fazer a cobrança necessária dos melhoristas, caso hajam falhas.