Leitor que defende o design inteligente comenta artigo de Marcelo Leite, “De símios e genomas”
Sem dúvida foi uma grande conquista científica: decifrar toda a 'planta' genética dos chimpanzés em poucos anos
Mensagem de Enézio E. de Almeida Filho (neddy@uol.com.br), coordenador do Núcleo Brasileiro de Design Inteligente:
O artigo de Marcelo Leite -- "De símios e genomas", (Folha de SP, Mais! de 4/9/05, p. 9) esboçou historicamente a questão mas não destacou os pontos mais relevantes e esclarecedores para o leitor leigo entender tão intrigante e polêmica questão: 'a busca das diferenças fundamentais capazes de explicar e ancorar uma nítida separação entre a espécie humana e seu parente símio mais chegado': o chimpanzé (Pan troglodytes).
A Thereza Venturoli, da revista “Veja”, também abordou a questão num artigo intitulado -- "O primo das selvas". [1]
Embora tenha salientado a confirmação da divergência seqüencial das letras de DNA de 'apenas 1,23% dos dois genomas', o leitor não especializado ficou sem saber o que isso significa vez que já foi anunciado em estudos anteriores 98-99% de semelhança seqüencial de DNA.
Todavia, aquele estudo considerou tão-somente as regiões codificadoras de genes (por exemplo: a seqüência da proteína do citocromo c), que constituía somente uma fração muito pequena dos 3 bilhões de pares de bases de DNA de nossa 'planta' genética.
Naquela ocasião -- 2001 – todo o genoma humano havia sido seqüenciado mas o genoma do chimpanzé não. A maioria dos divulgadores científicos não mencionou, mas aqueles estudos foram baseados num pequeno 'locus' da totalidade do DNA das duas espécies.
O que é realmente interessante na última edição especial da "Nature" devotada aos chimpanzés, é que os pesquisadores anunciaram o seqüenciamento do genoma desses animais. [2].
Sem dúvida foi uma grande conquista científica: decifrar toda a 'planta' genética dos chimpanzés em poucos anos.
Os pesquisadores afirmaram: "a confirmação mais dramática" até aqui da teoria de Darwin de que a espécie humana teve um ancestral comum com os símios. Será mesmo?
Neste artigo os pesquisadores afirmam que há pouca diferença genética entre nós (somente 4%). Mas isso é o dobro da diferença que foi anunciada há poucos anos. [3].
Embora tenha abordado “en passant” a questão da divergência seqüencial, Marcelo Leite não destacou o significado da magnitude dessas diferenças.
O que significa 1.23% de divergência 'no plano da seqüência propriamente dita de letras químicas de DNA'? Para o leitor não especializado, isso não representa muito, até ele ser informado de que isso representa ~35 milhões de mutações!
Se houve alguma surpresa com 'a quantidade de cortes (deleções) e inserções de grandes trechos que os diferencia', Marcelo Leite logo em seguida minimiza: 'coisa de 3%'.
A grande surpresa, que o leitor leigo não ficou sabendo, é que há entre ~40-45 milhões de bases presentes nos humanos e ausentes nos chimpanzés, e vice-versa.
Esses nucleotídeos de DNA extras são chamados de "inserções" ou "deleções", porque são considerados como tendo sido adicionados ou perdidos da seqüência. Isso coloca o número total de diferenças de DNA em quase 125 milhões.
Contudo, uma vez que as inserções podem ser maior do que o tamanho de um nucleotídeo, há cerca de 40 milhões de eventos distintos de mutações que 'separariam' as duas espécies.
Uma vez que, freqüentemente, é muito difícil determinar se a diferença é resultado de uma inserção ou deleção, isso é chamado de "indel." Os 'indels' podem ser virtualmente de qualquer tamanho.
Para tornar o raciocínio mais fácil, consideremos uma página de texto com 4.000 letras e espaços. Seriam necessárias 10.000 páginas de texto para termos 40 milhões de letras.
As diferenças entre os humanos e os chimpanzés incluem ~35 milhões de bases de DNA diferentes, ~ 45 milhões no DNA humano e ausentes no chimpanzé e ~ 45 milhões no DNA do chimpanzé e ausentes na espécie humana.
Como teria acontecido 40 milhões de eventos distintos de mutações para se fixarem numa população em apenas ~300.000 gerações (o clássico nunca resolvido e seletivamente evitado: o 'dilema de Haldane')? [4]
Esse problema fundamental, que Marcelo Leite não perguntou (?), deve ser levado em conta porque os autores reconhecem que a maioria da mudança evolutiva é devida à deriva genética neutra ou aleatória.
Isso se refere à mudança quando a seleção natural não está operando. Sem uma vantagem seletiva, fica muito difícil explicar como que este número imenso de mutações puderam se fixar numa população.
O leitor leigo não pôde, não pode e nunca poderá perceber a magnitude do que realmente significa ser humano e ser chimpanzé se não for devidamente informado ser o assunto muito mais complexo e as dificuldades que isso representa para a tese do ancestral comum.
Nota: este texto foi escrito “com ajuda de um Ph. D. em Biologia”, segundo o próprio autor.
Referência:
1. Thereza Venturoli. "O primo das selvas", VEJA 1921 # 31, de 07/07/05, p. 113. 2. The Chimpanzee Sequencing and Analysis Consortium 2005. "Initial sequence of the chimpanzee genome and comparison with the human genome," Nature 437:69-87. 3. As pesquisas de semelhança entre chimpanzés e humanos têm ignorado tipicamente as inserções e as deleções, embora isso seja responsável pela maioria das diferenças. Uma pesquisa feita por Roy Britten inclui essas inserções e deleções e obteve um número aproximado dos 4% aqui reportado. Britten, R. J., "Divergence between samples of chimpanzee and human DNA sequences is 5% counting indels," Proceedings National Academy Science 99:13633-13635, 2002. 4. Haldane, J. B. S., "The Cost of Natural Selection", Journal of Genetics, vol. 55, p. 511-524, 1957.