“Vários critérios são artificiais, não correspondem ao conceito universal da produtividade cientifica”
Mensagem de Nagib Nassar, professor da UnB, enviada ao presidente do CNPq, Erney Camargo, e ao “JC e-mail”:
“Permita-me opinar sobre o que foi publicado no JC referente aos critérios dos Comitês Assessores.
Acredito que a crítica publicada no JC por um pesquisador tem certa razão. Visitei as páginas dos três CAs da minha área (ciências da vida) , e observei:
1. Vários critérios são artificiais, não correspondem ao conceito universal da produtividade cientifica. Por exemplo, o comitê assessor da agronomia coloca pontuação para avaliar a produtividade.
Notei que foram dados pontos a publicação em um jornal igualzinho aos dados para orientação de um aluno de mestrado. Isto é: um pesquisador que publica quatro trabalhos em revistas indexadas e renomadas será superado por um pesquisador que não publicou nada, mas, simplesmente, orientou cinco alunos de mestrado, das suas teses não saiu nada original, nada publicado, pois as referidas teses não tem nada de conhecimentos merecedores de publicação.
Isto, com certeza, refletirá sobre a magnitude da produção nacional e vai encorajar os pesquisadores a produzir teses quaisquer, não se preocupando em publicar. Também refletirá sobre a qualidade dos cursos de pós-graduação, que tem como uma de suas funções principais produzir conhecimentos novos.
2. Todos os três referidos comitês não reconhecem o tipo de autoria do trabalho publicado; i. e. se o pesquisador é único autor, ou se há dois, três ou mais pesquisadores que participem da autoria. Em muitos casos encontram-se até dez autores participantes de um único trabalho. Todos ganham o mesmo ponto igual a um único autor.
Não se sabe qual foi o tamanho da contribuição de cada um, o que ele fez e qual o seu papel. Certamente muitos deles simplesmente (pegaram carona) incentivados pelos tais critérios, e pelo sistema errado de tal pontuação. Acredito que o certo seria diferenciar esses tipos de autorias na avaliação, fazendo com que eles ganhem pontos correspondem ao peso de sua contribuição.
3. Num certo comitê, fica bem claro o qualquer observador que os critérios colocados pelo comitê refletem condições individuais dos próprios membros do comitê. Por exemplo, um comitê exige para classificação ao nível IA orientação de 9 teses de mestrado. E por que não 10?!! Ainda no mesmo comitê não é exigido nada de número, qualidade e impacto dos trabalhos publicados pelo pesquisador durante sua vida acadêmica e cientifica! Nada se fala sobre quanto seus trabalhos contribuíram em criar novos conceitos e fizerem pensamento de cientistas em sua área.
4. Publicar é o objetivo do CNPq, mas em qual revista? O conceito universal atualmente seguido identifica a publicação valida por ser em uma revista indexada com corpo editorial de reconhecido talento. Além disso, recentemente, entrou na cena o índice de citação. Não se pode igualar uma revista como a Cell de indice 20 como uma revista de indice 0.2. Infelizmente, esse fator não foi considerado em critérios de todos os três comitês.
Eles dão ponto a publicação independente de prestigio, nome, e índice de citação da revista. Até colocaram como revistas validas, nomes desconhecidos totalmente no circulo cientifico, e totalmente desindexadas. Com certeza isso refletirá na qualidade e na classificação da categoria do Brasil perante a comunidade mundial cientifica. Pois as estatísticas feitas pelo ISI consideram somente os trabalhos publicados em revistas indexadas.
5. Acredito que a maneira para resolver essa questão seria a de que os critérios serem revisados por um comitê multidisciplinar para todas as áreas de ciências da vida, não deixando para os membros dos comitês a definição dos critérios. O ideal seria que esse comitê multidisciplinar fosse constituído por cientistas de reconhecido mérito nacional, independente de serem membros dos comitês assessores ou não.