‘Concordo plenamente que devemos tratar com espírito crítico avanços das biotecnologias na agricultura’
Eis a carta de Candotti:
Prezado prof. Nagib Nassar,
Obrigado pela atenciosa carta. Concordo plenamente que devemos tratar com espírito crítico avanços das biotecnologias na agricultura. De fato, esta questão tem sido central no debate das relações ciência-sociedade nos últimos tempos.
Tenho procurado observar dois princípios básicos (Nota de setembro de 2004) nas iniciativas da SBPC:
‘1. Deve ser oferecido todo o apoio à liberdade de pesquisa científica, inclusive de campo, na área de organismos geneticamente modificados... de modo a permitir que os nossos laboratórios de pesquisa tenham efetivas condições de competitividade internacional em áreas estratégicas do desenvolvimento científico e tecnológico.
2. As normas e licenças de comercialização de produtos de pesquisas devem observar os princípios de máxima cautela e de rigorosa avaliação dos interesses econômicos nacionais, de segurança alimentar, da saúde e de impactos ambientais, conforme previsto na legislação nacional e em consonância com os acordos internacionais vigentes.’
Por outro lado, na tramitação da lei sobre biossegurança, manifestamos que:
‘é inoportuna a introdução no projeto de lei de artigos relativos à clonagem humana, à obtenção de células tronco embrionárias e seu uso terapêutico, uma vez que a matéria, por sua especificidade e implicações éticas, deve ser objeto de legislação própria.
Reafirmamos na oportunidade que a SBPC defende a liberdade de pesquisa com células tronco embrionárias humanas, sua obtenção e utilização para fins terapêuticos, a pesquisa em clonagem terapêutica por transferência de núcleos de células somáticas e é contrária à clonagem humana com fins reprodutivos’.
Concordo que a liberação do algodão GT foi precipitada, espero, no entanto, que a Comissão de Biossegurança, com novo quorum e um Conselho Nacional atuante, serão capazes, de agora em diante, de implementar as normas de precaução.
Creio, por outro lado, que a biotecnologia aplicada à agricultura é um território a ser conquistado pelos laboratórios de pesquisa que observam os princípios de cautela e precaução.
Apoiados pelos movimentos que defendem o uso do progresso cientifico para produzir alimentos baratos, nutritivos e acessíveis à população.
Reconheço que se trata de uma difícil batalha contra o agressivo avanço das grandes empresas transnacionais que buscam em primeiro lugar ampliar seus interesses econômicos e o controle dos mercados das sementes.
O que, aliás, devemos lembrar, vem ocorrendo desde muito antes da introdução das modernas técnicas de engenharia genética e vem sendo combatido com grande energia pelos movimentos democráticos empenhados pela defesa do acesso às sementes mais produtivas.’