Clonagem, células-tronco e bebês de proveta levam discussão sobre origem da vida para o Conclave
Fellipe Awi e Roberta Jansen escrevem para ‘O Globo’:
Karol Wojtyla tornou-se João Paulo II no mesmo ano (1978) em que nasceu o primeiro bebê de proveta do mundo, a inglesa Louise Brown.
De lá pra cá os avanços científicos foram tantos e tão rápidos que hoje o tema é considerado fundamental na escolha de um novo papa, como vêm destacando em seguidas entrevistas cardeais reunidos em Roma para o conclave e também cientistas.
Dos avanços consideráveis na reprodução assistida à clonagem, passando pelos estudos com células-tronco embrionárias, boa parte das conquistas científicas dos últimos 26 anos está intrinsecamente relacionada à manipulação de embriões.
Nunca a ciência esteve tão perto da origem da vida e, por isso, vem suscitando cada vez mais polêmica sobre os limites éticos das pesquisas.
Momento do início da vida é motivo de debate
Se a maioria dos cientistas defende as experiências com embriões por considerá-los um aglomerado de células capazes de ajudar na busca de tratamentos para doenças hoje incuráveis, a posição da Igreja sobre o tema parece consolidada, pelo menos em sua voz oficial.
Em sua linha de raciocínio, os católicos convergem basicamente para a condenação de qualquer tipo de interferência na formação da vida humana.
O argumento é baseado no conceito de que a vida começa no instante seguinte à fecundação, como sustenta o cientista católico francês Jérôme Lejeune.
Por isso, as terapias genéticas, a fertilização in vitro e mesmo o uso de embriões descartados por clínicas de reprodução assistida seriam condenáveis.
— Os embriões usados nas experiências com células-tronco já são pessoas. Por isso, não podem ser tratados como bichos de laboratório. Uma finalidade positiva, que é a de salvar a vida de um adulto, não é justificada por um meio negativo — afirma o monge beneditino Dom Estevão Bettencourt, professor de teologia do Seminário São José.
A geneticista Mayana Zatz, grande defensora das pesquisas com células-tronco embrionárias, discorda do monge. Ela trabalha com pessoas que sofrem de distrofias musculares e vê nessas experiências a esperança de desenvolvimento de futuros tratamentos.
— As pesquisas com células-tronco lançam uma nova luz, uma esperança para uma série de doenças hoje incuráveis. Estamos falando de usar tecnologia para salvar vidas, acho que Igreja deveria se posicionar a favor — sustenta a especialista. — Você diria a uma pessoa que está morrendo que sua vida é menos importante que a de um embrião congelado?
Para historiador, Igreja pode rever suas posições
Dom Estevão e outros teólogos católicos defendem apenas os estudos com células-tronco do cordão umbilical que, em seu entender, seriam mais eficientes que a de embriões, o que é contestado pela maioria dos cientistas.
Professor de história das religiões da Universidade do Estado do RJ (Uerj), Edgard Leite acha que a Igreja pode rever alguns pontos, a exemplo do que já fez em outros momentos da História.
— Há muita cobrança de vários setores da sociedade para que a Igreja redefina algumas posições. Tenho a impressão de que o próximo Papa, ou os próximos, deverá abordar esses temas de uma forma inovadora — sustenta. — A Igreja sempre se transformou ao longo da História. Mas ela se adapta preservando seus elementos teológicos mais essenciais.
Leite lembra que o próprio João Paulo II reviu a posição da Igreja em relação a Galileu Galilei e reconheceu a importância da obra evolucionista de Charles Darwin.
— A Igreja deve sustentar seus valores, mas precisa refiná-los para poder aplicá-los no mundo tal e qual ele é, de forma a orientar seus fiéis de maneira mais precisa e menos hostil — diz o historiador.
Para alguns cientistas, a posição sempre inflexível de João Paulo II sobre tais temas acabou silenciando vozes dissonantes dentro da própria Igreja que, agora, poderiam voltar a ser ouvidas.
É o caso do autor do livro “Bioética, novo conceito” e capelão do Hospital São Camilo (SP), o padre Hubert Lepargneur, que se mostra mais simpático aos avanços da ciência, inclusive o uso de células-tronco embrionárias.
— O embrião é uma vida em potencial. É complicado fixar o início da vida, porque ela é um processo. A lagarta pode ser considerada uma borboleta? — pergunta o padre, que se mostra mais reticente quanto à clonagem humana.
Mayana Zatz frisa que ainda há muita confusão entre a clonagem reprodutiva — que visaria à criação de cópias e é condenada pela maioria dos cientistas — e à terapêutica, voltada apenas para pesquisas.
— Essas coisas não estão escritas na Bíblia. À medida que a ciência avança, as religiões devem se adaptar aos novos tempos. Novos problemas surgem e também novas soluções.
Mas há vozes dissonantes também entre os cientistas. A geneticista Eliane Azevedo, professora de medicina e biologia da Universidade Federal da Bahia, é contrária às experiências com embriões.
— A ciência moderna adquiriu competência técnica para manipular a vida. Essa emoção vem inspirando discursos e convencimentos que aos poucos se distanciam da verdadeira percepção de que a finalidade da ciência é servir à vida.
Presidente da Sociedade Brasileira de Filósofos Católicos, Tarcísio Padilha prega maior diálogo entre religião e ciência.
— Dom Cláudio Hummes diz que é hora de ouvirmos os cientistas. E o Tettamanzi (Dionigi Tettamanzi, arcebispo de Milão) também é muito voltado para as questões bioéticas. (O Globo, 10/4)