Algodão Bt: apelo à consciência nacional!, artigo de Nagib Nassar
O plantio foi autorizado sem um estudo válido e confiável sobre seu impacto ambiental no Brasil
Nagib Nassar (http://www.geneconserve.pro.br) é professor titular de Genética da UnB. Artigo enviado pelo autor ao ‘JC e-mail’:
Com a publicação da decisão da CTNBio, que liberou o algodão Bt, ficou claro: até mesmo os defensores do algodão Bt admitem que haverá riscos para o meio ambiente.
Refiro-me à decisão de liberação do plantio, que definiu áreas do Nordeste e do Amazonas como áreas de exclusão. Nessas áreas crescem espécies nativas.
A decisão definiu que o algodão Bt não pode ser cultivado nessas áreas, sob pena de polinizar as espécies nativas e criar ervas monstros, resistentes a insetos e pragas.
E mais: na época da colheita, os algodoeiros terão de ser retirados até a raiz, porque a toxina Bt no solo é altamente destruidora e se mistura com facilidade com a argila e age contra microorganismos, impedindo a decomposição da matéria orgânica.
O plantio foi autorizado sem haver um estudo válido e confiável sobre seu impacto ambiental no Brasil. Havia o argumento, de quem se beneficiará do plantio do Algodão Bt, de que ele aumentará a produtividade e reduzirá o custo da produção. Isso é uma falsidade!
Há dados convincentes que vieram da Índia, particularmente o Estado de Andra Pradesh, onde o Algodão Bt é plantado há duas décadas. Lá, a cada ano a área plantada vem diminuindo; chegou a um tamanho rudimentar, refletindo frustrações e inibição dos agricultores.
Os estudos feitos e publicados por cientistas indianos, com base na experiência de mais de 500 agricultores durante mais de dois anos (2001-2002), mostram que o algodão Bt produziu menos frutas por planta, exibiu menos tolerância às condições adversas e apresentou um número maior de insetos sugadores, quase o dobro do que no algodão comum.
Trata-se de resultado lógico e esperado, pois a toxina Bt mata os predadores desses insetos sugadores, o que estimula estes a crescer.
O custo total de 1 hectare plantado por algodão Bt esteve na faixa de US$ 92, contra US$ 82 no caso de algodão comum! Um elemento importante de custos de plantios é o custo de sementes, e essas são muito caras no caso algodão Bt, chegando até a 120 vezes mais do que a comum.
O que atrai a atenção do estudo indiano é a resistência encontrada em insetos à toxina Bt, após poucas gerações de plantio. Em diferentes países, foram encontrados resultados semelhantes: a toxina não tem nenhum efeito após a terceira ou quarta geração.
A tendência é altamente perigosa, considerando-se a devastação dos predadores naturais.
O mais preocupante é o aspecto da segurança nacional: os agricultores brasileiros não terão suas próprias sementes asseguradas para plantio nas futuras safras.
A famosa multinacional proíbe os agricultores de armazenar as sementes para uso no ano seguinte. Eles têm que destruir todas as sementes do ano e são obrigados a comprar de novo sementes da própria multinacional, pagando 120 vezes mais caro do que semente comum.
A pergunta é: se a produção não vai aumenta, o custo não vai se reduz, e os pesticidas vão continuar os mesmos, por que o Brasil se dispõe a sofrer tantos riscos e tanta destruição ambiental?