Os transgênicos Bt e os transgênicos resistentes aos herbicidas: entre falsos mitos e verdades, artigo de Nagib Nassar
É falso o mito que o Brasil crescerá com a soja transgênica e o Algodão Bt. A verdade é outra. Somente as multinacionais coletarão mais ganhos e royalty
Nagib Nassar é professor titular de Genética da UnB (http://www.geneconserve.pro.br). Artigo enviado pelo autor ao ‘JC e-mail’:
Quando a câmara aprovou o projeto de lei para o cultivo de transgênicos no Brasil, muita gente aplaudiu e disse: a produção de soja somente agora irá crescer! E nós estaremos modernizados como os EUA!
Isto não é verdade! Não existirão ganhos para o Brasil ou para a nação brasileira! Refiro-me aos transgênicos Bt, representados pelo algodão Bt e os transgênicos resistentes a herbicidas (RH), representados pela soja round up, que são as principais culturas afetadas pela nova lei.
O crescimento do plantio e produção da soja no Brasil, nos últimos 10 anos, não tem nada a ver com a soja transgênica. Vários fatores, tais como: a mão de obra barata, abundância de área cultivável e recursos híbridos, são os responsáveis e continuam, assim, permitindo mais crescimento, para que o Brasil seja o maior produtor mundial, ultrapassando os EUA.
O que acontecerá, após a nova a lei, é que uma grande parte dos ganhos dos agricultores brasileiros irá para as multinacionais, que exigem, para a utilização de suas sementes, 120 vezes mais do que o preço da semente nacional.
Por isso, e por tantos ganhos, as multinacionais divulgam, por meio de suas propaganda, que os transgênicos alimentam os povos que sofrem de fome e acabam com a pobreza dos paises que os adotam!
Falam em modernizar o nosso país, com o uso dos transgênicos, porém todos os paises da União Européia os proíbem! Serão eles atrasados?
As multinacionais alegam que o uso dessas variedades reduz as perdas causadas pelas ervas daninhas e o ataque de insetos. Elas alegam, também, que o seu uso diminui a aplicação de agroquímicos, mas o que acontece, conforme documentado na literatura cientifica, é o contrario (veja Alteiri, 2000; Krimsky and Wrubel, 1999).
O pior ainda é a dependência da agricultura nacional sobre uma variedade só i.e. a monocultura.
Imagina o que acontecerá se essa variedade de soja transgênica for infectada por uma doença e mostrar alta susceptibilidade? Sabe-se que a variedade transgênica da soja atualmente no mercado é altamente susceptível à nova doença que é a ferrugem da soja.
Essa doença causou perda de mais de 20% da soja nos EUA. Com a nova lei, há a expectativa de que essa variedade seja plantada na maior parte do Brasil. Quanto o país perderá com isso?!
No caso do Algodão Bt, o prejuízo ambiental é ainda maior! O efeito da toxina Bt no solo é altamente destruidor! Ela persiste ativa no solo e se mistura com facilidade com a argila. Ela fica protegida contra degradação microbial e age contra microorganismos, impedindo a decomposição da matéria orgânica e criando, assim, uma serie de problemas para a agricultura orgânica (Saxena et al. 1999, Alteiri; 2000).
A toxina Bt tem efeito fatal sobre predadores, causando desequilíbrio nas populações de insetos e o surgimento de ataques de novos insetos, não nocivos anteriormente.
Como o algodão tem alta taxa de polinização cruzada, há perigo de ocorrência de fluxo de seus genes transgênicos às espécies e raças nativas, criando delas novos monstros agressivos e invasores (Kjellisson e Simonsen, 1994; Krimsky and Wrubel, 1999; Losely et al. 1999; Mellon and Risler, 1998; Snow e Moran 1997).
Como o Brasil é o centro de origem dessa cultura, o plantio de uma variedade transgênica substituirá a imensa diversidade da cultura, ou a reduzirá drasticamente, e os melhoristas perderão suas fontes de genes para melhorar e selecionar novas variedades.
Conclui-se que o uso maciço dos transgênicos Bt e os resistentes a herbicidas (HR) colocam em risco a nossa saúde e o nosso ambiente.
O efeito ecológico não é limitado a criar novos tipos de insetos e ervas daninhas monstros, invasores e agressivos, mas estende a propagar toxinas no ambiente.
Essas toxinas se movem em fluxo seqüencial de alimentos. Há, sobre tudo, a perda de nosso inestimável patrimônio genético, que é a fonte da matéria genética para o melhoramento, tornando nossas culturas mais vulneráveis às doenças e à degeneração.
É falso o mito que o Brasil crescerá com a soja transgênica e o Algodão Bt. A verdade é outra. Somente as multinacionais coletarão mais ganhos e royalty.
Referências:
Alteiri, M. A 2000. The ecological impacts of transgenic crops on agroecosystem health. Ecosystem Health 6:13-23.
Kjellsson, G. and V. Simosnson 1994. Methods for assessment of transgenic plants. Berkauser Verlag, Brasil
Krimsky, S. and P. P. Wrubel 1999. Agricultural Biotechnology and the environment: Science, Policy and social issues. University of Illinois Press, Urbana.
Losey, J. E., L. S. Rayor and M. E. Cater 1999. Transgenic pollen harms monarch larvae. Nature 399,241.
Mellen, M. and J. Rissler 1988. Now or never: Serious plans to save a natural pest control. Union of concerned scientists. Washington D.C.
Saxena, D., S. Flores and G. Stotzsky 1999. Insecticidal toxin in root exudates from Bt corn. Nature 401, 480.
Snow, A. A. and P. Moran 1999. Commercialization of transgenic plants: Potential ecological risks. Bioscience 47:86-96.