Novo presidente da Embrapa: 'Temos dificuldades com a legislação'
Para Sílvio Crestana, decretos e instrumentos tornaram Embrapa parecida com o serviço público, sem as vantagens da iniciativa privada
Herton Escobar escreve de São Carlos, SP, para ‘O Estado de SP’:
Em 20 anos de trabalho como pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Sílvio Crestana ajudou a construir a imagem de prestígio e competitividade de que a instituição desfruta hoje no campo científico internacional.
Agora, como seu novo presidente, ele assume o compromisso de tornar a empresa competitiva também para seus próprios profissionais. Ao mesmo tempo em que deseja evitar eventuais turbulências pela troca de administração, Crestana acredita que chegou a hora de repensar o modelo da Embrapa - sua organização, demandas e missões.
‘É um modelo de sucesso, mas que foi concebido há 30 anos e começa a mostrar sinais de declínio’, afirma Crestana, empossado na presidência da empresa há exatamente um mês.
‘Estamos com dificuldade para repor quadros e manter talentos. A carreira da Embrapa não está bem estruturada e já perdemos um número importante de profissionais para a iniciativa privada e as Universidades. Além disso, temos um número grande de profissionais que estão próximos da aposentadoria, já chegaram ao último nível de carreira e não têm mais estímulo para continuar na Embrapa.’
O resultado, segundo ele, é que uma das instituições de pesquisa agropecuária mais conceituadas do mundo está à beira de um abismo de conhecimento.
De um lado, conta com um grupo pequeno de profissionais em começo de carreira – qualificados, mas ainda sem a experiência de um pesquisador veterano.
De outro, com um número muito grande de pesquisadores já experientes, mas em fim de carreira, que sairão sem deixar pupilos para dar continuidade ao trabalho.
No topo de prioridades, portanto, está a negociação de um novo plano de cargos e salários junto ao Ministério do Planejamento, além da abertura de novos concursos.
Hoje, o holerite de um doutor em começo de carreira na Embrapa não chega a R$ 4.000. ‘Esse salário não é competitivo para segurar um doutor’, reclama Crestana. ‘É um problema muito sério.’
Apesar do orgulho que sente em trabalhar para a Embrapa, Crestana admite que a falta de perspectiva profissional, aliada a orçamentos em queda e uma legislação limitante, já começa a pesar na auto-estima dos pesquisadores.
‘Há um certo arrefecimento que precisa ser trabalhado’, diz. ‘Temos um caminhão descendo na banguela que está indo muito bem; mas vem uma subida pela frente, e ele vai precisar de muito estímulo para continuar subindo.’
Crestana recebeu ‘O Estado de SP’ no prédio da Embrapa Instrumentação Agropecuária, em São Carlos, no interior paulista – região onde nasceu, cresceu e trabalhou grande parte de sua vida.
Eis a entrevista que ele concedeu ao jornal paulista:
Qual a explicação para essa situação tão complicada que o senhor está descrevendo? Trata-se de um processo natural ou fruto de decisões erradas no passado?
É importante lembrar que isso não é conjuntural; é estrutural. Uma dificuldade que tem aparecido nos últimos 10 ou 15 anos. Isso é mostrado de forma evidente no orçamento da Embrapa. Se você olhar o orçamento de 1996, pela correção do IGPDI, a Fundação Getúlio Vargas projetaria um orçamento para hoje de R$ 1,1 bilhão a R$ 1,2 bilhão. Nós temos quase R$ 900 milhões, então estamos defasados R$ 300 milhões em relação a 96. Ao mesmo tempo, nossas demandas só aumentaram. Há novas demandas na área de café, citros e no setor florestal, por exemplo. Temos ainda a demanda ambiental, porque hoje não basta produzir, tem de produzir sem degradar o meio ambiente. Depois tem a outra demanda desse governo, que é a demanda social explícita de contribuir para com os agricultores menos competitivos e também com os assentamentos da reforma agrária. Além das demandas regionais e internacionais.
E está difícil atender a todas elas?
O cobertor é curto. A Embrapa tem excelência reconhecida e é vista como tendo competência para assumir novas responsabilidades. No entanto, o orçamento está em queda há dez anos, temos dificuldades de manter quadros e dificuldades com a legislação, principalmente no que diz respeito a propriedade intelectual e contratos com a iniciativa privada. A Embrapa era um instituição pública de direito privado, mas a jurisprudência foi fazendo com que ela caísse praticamente num regime jurídico único. Há uma série de decretos e instrumentos que tornam a gestão da Embrapa muito difícil, com baixíssima liberdade para tomar decisões. Acabamos ficando muito parecidos com o serviço público, sem as vantagens do serviço privado.
Qual a solução para isso?
Precisamos aumentar o investimento público em ciência e tecnologia - nesse caso, para a pesquisa agropecuária. Mas sabemos que não há espaço muito grande para isso, devido à competição por recursos públicos para outras áreas importantes, como saúde e educação. Vai depender muito da economia brasileira ou de a gente conseguir deixar ciência e tecnologia fora do superávit primário, o que seria um sonho.
E quanto à iniciativa privada?
Aí temos um longo caminho a ser trabalhado, que envolve a criação de um nova cultura - segundo a qual, na medida em que o agronegócio é rentável, cria-se mecanismos que não necessariamente envolvem colocar recursos na Embrapa. O desafio inicial seria chegar a um meio a meio, com 50% de investimento público e 50% privado. Nos EUA. a iniciativa privada colabora com 70%. A gente pretende criar uma Agência de Inovação Tecnológica, à luz da Lei de Inovação Tecnológica, que viabilize novos arranjos institucionais e permita construir alianças estratégicas com a iniciativa privada, terceiro setor, governos municipais, estaduais e até internacionais, se for o caso.
Algo que a legislação não permite atualmente?
Algo que a gente tem muita dificuldade para fazer. Principalmente na parte de transferência de tecnologia, treinamento e serviços, que fazem parte da nossa nova agenda de demandas.
O senhor é conhecido como uma pessoa que valoriza muito a tecnologia e uma das críticas que eram feitas à administração passada era de que ela privilegiava o pequeno agricultor, em detrimento do agronegócio. Como encara essa discussão?
Quando se fala em tecnologia, não há como dizer que uma beneficia o grande mas não o pequeno, ou vice-versa. Quando você gera conhecimento, esse conhecimento deve ser disponibilizado. Se ele estiver disponível, você pode trabalhá-lo para beneficiar uma ou outra coisa. É uma questão de decisão. Por exemplo, se você tem uma praga e você desenvolve uma variedade de planta que é resistente a essa praga, isso vai beneficiar todos que trabalham com aquela planta - não importa se eles têm 10 hectares ou mil hectares. O grande desafio hoje é fazer PDI: pesquisa, desenvolvimento e inovação. Desenvolvimento é transformar o conhecimento em algo mais palpável, algum produto. Agora, se esse produto fica na prateleira, o país não ganhou muita coisa. Nosso desafio não é só desenvolver tecnologia, mas ter certeza de que esse produto seja incorporado ao setor produtivo e ao setor social. É isso que se chama inovação.
Então não existe esse negócio de trabalhar só para o pequeno ou só para o grande?
A Embrapa tem historicamente trabalhado com tecnologia para pequenos, médios e grandes produtores. Não privilegiamos ninguém, porque todos são importantes. Agora, você pode dizer que, com esse orçamento, se vamos fazer pesquisa de uma coisa, então vamos deixar de fazer de outra. É o cobertor curto. Não tem jeito. Vamos trabalhar para atender todos, mas não dá para fazer isso com esse orçamento.
Falando de uma tecnologia específica: qual sua opinião sobre os transgênicos?
Trato disso com muita tranqüilidade. Quando se trata de comercialização, se pode ou não plantar, isso não cabe à Embrapa. Isso é um discussão do Congresso, sobre a Lei de Biossegurança, que está sendo partilhada por toda a sociedade. Podemos gostar ou não de alguma coisa, mas isso é uma opinião pessoal. O que a gente tem de concreto na Embrapa é que vamos trabalhar com todas as ferramentas que permitem desenvolvimento científico e tecnológico na agricultura. A transgenia é uma delas. Não podemos ter preconceitos ou mitos. Se a legislação permitir, nós vamos usar, sem dúvida nenhuma.
O senhor mencionou a demanda ambiental e a soja – que foi difundida no Brasil pela Embrapa – é hoje apontada como grande inimiga da preservação, principalmente na Amazônia e no cerrado. Isso é mito ou verdade? A agricultura pode conviver pacificamente com o meio ambiente?
A agricultura pode tanto colaborar com o meio ambiente quanto destruí-lo. Nosso trabalho na Embrapa é para que ela possa ter sustentabilidade ambiental; ou seja, produzir sem degradar. Quanto à soja, se o preço continuar do jeito que está, a fronteira vai recuar e não avançar. Na próxima safra, não essa que já está sendo plantada, dificilmente vamos manter a área cultivada. E se ela vai diminuir, porque eu vou trabalhar num ambiente de destruição de floresta, que dá muito mais trabalho e custa muito mais? Então, quanto a isso, pode esquecer. Já passamos pela queimada, pela pecuária e agora é a vez da soja de ser o grande vilão. Depois não sei o que vai vir por aí, mas tem sempre um grão ou animal que vai ser o demônio da destruição.
Dos estudos à luz de lampião para a unidade em S. Carlos
Sílvio Crestana, 50, entrou para a Embrapa como pesquisador em 1984, na ocasião da inauguração da unidade de Instrumentação Agropecuária, em São Carlos, no interior paulista. E permanecia lá até agora.
Estava praticamente em casa. Nascido numa fazenda da pequena Analândia, a poucos quilômetros dali, fez graduação e mestrado em física no Instituto de Física e Química de São Carlos, da USP.
Neto de imigrantes italianos, conta que cresceu trabalhando na fazenda da família de dia e estudando de noite, à luz de lampião. ‘Não tinha carro, energia, telefone, nada. Dos nove filhos, ninguém nasceu na maternidade. Quem fazia o parto era meu pai’, lembra, com um sorriso.
Estudou, fez doutoramento no exterior e virou especialista em física de solos.
Na Embrapa, foi responsável pela implantação do primeiro Laboratório Virtual da Embrapa no Exterior (Labex), dentro do Serviço de Pesquisa Agrícola dos EUA.
É apontado por colegas como cientista e administrador de altíssima competência.
Foi escolhido presidente no fim de 2004, em substituição a Clayton Campanhola, que estava no cargo havia dois anos e vinha se desentendendo com o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues. (O Estado de SP, 27/2)