Fundamentalismo religioso no RJ, artigo de Maria Isabel Landim e Cristiano Moreira
O que Darwin não poderia prever era que religiosos retrógrados das sociedades do século XXI ainda considerariam a teoria da evolução como ameaça aos seus dogmas
Maria Isabel Landim e Cristiano Moreira são biólogos. Artigo publicado em ‘O Globo’:
Charles Darwin preparava-se para virar pastor da Igreja Anglicana quando surgiu a oportunidade de embarcar em uma viagem (de certa forma sem retorno) ao redor do mundo, a bordo do HMS Beagle.
Em 1831, Darwin parte da Inglaterra acreditando em idéias fixistas e criacionistas. Nesta viagem ele pôde exercer a atividade de ávido coletor de espécimes e principalmente de fatos, o que mostrou ser, ao longo de sua vida, um dos seus grandes talentos.
Através das suas observações, ele refletiu sobre a idade da Terra (ainda se trabalhava com os 6.000 anos bíblicos, calculados pelo bispo Ussher) e o fixismo das espécies (que eram tidas, pela ortodoxia da época, como criação direta de Deus e imutáveis).
Acompanhar os diários escritos por Darwin durante sua viagem a bordo do Beagle e os escritos depois de seu retorno à Inglaterra é uma apaixonante aventura de circunavegação das idéias de um dos homens que mais influenciaram a visão contemporânea do que somos.
Ao retornar à Inglaterra, Darwin estava repleto de fragmentos de informação e de suposições tão radicais que, mesmo depois de juntar, durante 20 anos, evidências suficientes de vários campos da história natural, ele ainda relutava em publicar sua teoria. Conhecia bem a história de Galileu Galilei.
Em 1858, porém, ele recebeu uma carta com um artigo escrito por Alfred Russel Wallace, contendo idéias muito semelhantes às suas, apontando a Seleção Natural como o fator de promoção da evolução das espécies.
Esse fato precipitou a publicação do seu livro mais conhecido, ‘Origem das espécies’, em 1859, que estrategicamente omitia a questão da origem do homem.
Darwin sabia que ali, naquele ponto específico, epicentro da moral e do domínio das religiões, a radicalidade de sua teoria se faria clara e ameaçadora ao status quo da cultura vitoriana — de onde vinham todos os seus referenciais.
Estava certíssimo. Mas, por outro lado, a mensagem do ‘Origem’ era tão clara que a sociedade vitoriana deu esse passo sozinha: concluir que o homem descendia de uma forma ancestral de primata, comum aos grandes primatas (orangotango, gorila e chimpanzé).
Isso significava, em última instância, negar ao homem uma origem divina e atribuir ao que conhecemos como consciência apenas uma diferença de grau em relação às outras espécies (brutas, como diriam alguns contemporâneos de Darwin).
Essa era uma idéia tão subversiva para a época que o então poderoso sir Richard Owen preferiu ignorar as evidências contidas nos seus próprios estudos, cometendo um crime específico, a aderir a tais idéias — e ser esquecido pelos seus contemporâneos em um final de vida obscuro.
A repercussão das idéias de Darwin provocou uma forte reação entre os membros da Igreja Anglicana e religiosos em geral. Com o histórico confronto entre Thomas Henry Huxley (‘o bulldog’ de Darwin) e o bispo Samuel Wilberforce inaugurou-se o longo debate entre evolucionistas e religiosos.
A teoria evolutiva, como foi elaborada originalmente por Darwin, foi enriquecida com as novas áreas do conhecimento (por exemplo, genética, biologia molecular, biologia evolutiva do desenvolvimento) que surgiram depois dele.
Mas, na sua essência, ela continua válida e tão eficiente na compreensão dos fenômenos biológicos que permitiu o atual desenvolvimento da biologia e contribuiu na elaboração de uma nova visão de mundo.
Ela permanece como a estrutura conceitual básica da biologia e é amplamente aceita, inclusive por religiosos mais liberais que não buscam na Bíblia um relato literal.
O que Darwin não poderia prever era que religiosos retrógrados das sociedades do século XXI ainda considerariam a teoria da evolução como ameaça aos seus dogmas. Que esses religiosos tentariam se infiltrar nos ambientes acadêmicos através da propagação do discurso pseudocientífico do design inteligente.
Mesmo após o perdão do Papa a Galileu (atrasado em uns 400 anos), a caça às bruxas do conhecimento parece estar em voga. Estamos assistindo a religiosos e políticos inescrupulosos, ávidos por dominar grandes rebanhos de desinformados, direcionarem a sua fome por mais um dízimo ou um voto ao ensino público, oferecendo doutrinação religiosa em estados laicos, como o Rio de Janeiro. O fundamentalismo religioso é a grande ameaça à evolução das sociedades atuais.
O preconceito irracional que a teoria evolutiva atrai sobre si, por encarar sem rodeios a condição humana, é lamentável. Transforma o legado de Darwin em privilégio de uns poucos letrados. A ampla disseminação das conquistas da ciência é um fator básico de promoção da democracia. Não há por que temer a evolução. (O Globo, 14/2)