A Terra está isolada no espaço como a ilha de Páscoa no Pacífico
Fernando Reinach (fernando@reinach.com) é biólogo. Artigo publicado no ‘Estado de SP’:
A Ilha de Páscoa foi descoberta em 1722. Distante 3.500 quilômetros da costa do Chile e medindo 25 quilômetros, é o local mais isolado do planeta. Encontraram uma ilha coberta por vegetação rasteira, pobre em animais, praticamente sem árvores, habitada por índios que comiam ratos, praticavam canibalismo e sobreviviam de agricultura rudimentar.
Mas o que chamou a atenção dos descobridores foram as enormes estátuas de pedra, os moais. São quase 900 torsos de até 20 metros distribuídos por toda a periferia da ilha. Quem teria produzido os moais?
Nos últimos dez anos o mistério foi desvendado. Arqueólogos conseguiram reconstituir a história do homem na ilha a partir das camadas de lodo acumuladas nos pântanos.
As camadas mais profundas preservam amostras de pólen e sementes existentes na ilha desde 3 mil anos atrás. A idade de cada camada de lodo pode ser determinada com uma precisão de 50 anos, tornando possível reconstituir o que ocorreu com a fauna e a flora da ilha ao longo do tempo.
A mesma técnica foi usada para analisar restos de comida, ossos de animais, pedaços conchas, espinhas de peixe e tudo que se acumulou nas diversas camadas de lixo deixadas pelas gerações que habitaram a ilha. Isto permitiu reconstituir as mudanças nos hábitos alimentares ao longo do tempo.
Os primeiros seres humanos desembarcaram ali pouco antes do ano 900 vindos de outras ilhas do Pacífico. Encontram uma ilha coberta por florestas com árvores grossas e palmeiras gigantes (dados dos pântanos). Era habitada por diversos tipos de pássaros, muitos incapazes de voar. As tartarugas marinhas eram abundantes. Os primeiros habitantes pescavam golfinhos longe da costa com canoas feitas de troncos (dados das camadas de lixo).
Centenas de anos mais tarde, apareceram as plantas domesticadas e os ratos, trazidos de outras ilhas da Polinésia. O início do desmatamento coincidiu com o aparecimento da agricultura e permitiu o aumento da população.
A ilha chegou a ter 30 mil pessoas por volta do ano 1200. Entre os anos 1000 e 1400 foram produzidos os moais, tarefa que ocupava boa parte da população. O transporte deles era feito por até 500 pessoas com cordas feitas de palmeiras e rolos de troncos.
Os dados dos pântanos mostram a diminuição das florestas a partir dos anos 1200, com o pico do desmatamento em 1400. Em 1600 já não existiam mais árvores na ilha. Sem árvores, sem canoas. Sem canoas, sem peixe.
Com a destruição das florestas e a chegada dos ratos, desapareceram os ovos e os pássaros. A parca vegetação rasteira foi incapaz de proteger o solo, o que levou à diminuição da quantidade de alimentos.
Por volta de 1650 surgem os primeiros ossos humanos roídos e cozidos nas pilhas de lixo. Junto a eles, os ossos de ratos, agora uma fonte de proteína. Fome e guerras reduziram a população. Sobraram 2 mil pessoas famintas, isoladas no meio do Pacífico pela falta de canoas. Foi esta a ilha descoberta em 1722.
Num período de 800 anos, o homem chegou à Ilha de Páscoa, criou uma civilização, destruiu o ambiente e quase se extinguiu. Mas ficaram os moais, que nos avisam: cuidado com a Terra, ela está isolada no espaço como a Ilha de Páscoa está isolada no Pacífico.
A história completa está em: Collapse. How societies choose to fail or succeed, Jared Diamond, Viking Penguin Press, 2005. (O Estado de SP, 2/2)