Adalberto Fazzio: ‘A ciência deve se desenvolver com planejamento baseado na agenda brasileira’
O presidente da Sociedade Brasileira de Física (SBF), em seu discurso na cerimônia de abertura do Ano Internacional da Física no Brasil, explicou as razões da efeméride e defendeu mais verbas para a pesquisa básica
Eis a íntegra de seu discurso:
‘Estamos aqui reunidos para iniciar as atividades do Ano Internacional da Física. A Unesco e depois a ONU resolveram decretar 2005 como o Ano Internacional da Física.
Por que a Física? E por que 2005?
Em 1905, trabalhando em um escritório Suíço de Patentes, Albert Einstein publicou cinco trabalhos fantásticos. O primeiro artigo chegou à revista ‘Annalen der Physik’ em 18 de março.
Neste trabalho ele examinou as conseqüências da natureza corpuscular da luz, o efeito fotoelétrico, pelo qual viria receber o premio Nobel em 1921.
Ainda em 1905, o jovem cientista, de apenas 26 anos, apresentou sua tese de doutoramento, que tratava das dimensões das moléculas e como estas contribuem para a mudança na viscosidade da água.
Em seguida, submeteu para publicação um trabalho que dizia respeito ao incessante movimento de pequenas partículas na água-chamado de Movimento Browniano.
Em junho desse ano, introduziu a Teoria Especial da Relatividade. Motivado pelo fato experimental de que a velocidade luz é constante, mudou as leis da mecânica de forma a compatibilizá-las com a experiência...
E em setembro, como conseqüência dessa teoria, deduziu a equação mais famosa da física, E=mc2, mostrando a equivalência de massa e energia, trabalho publicado na revista ‘Annalen der Physik’.
Ou seja, a escolha deste ano é a forma de comemorarmos os 100 anos dos trabalhos fundamentais de Einstein. E respondendo a primeira pergunta, é o ano e o momento mais apropriado para nós divulgarmos todas as ciências.
Assim o maior objetivo deste ano é chamar a atenção do público em geral e em especial dos jovens, para a importância e o impacto da Física no mundo moderno. O impacto não diz respeito somente aos avanços dos conhecimentos em física, mas também às contribuições da física em outras áreas do conhecimento, à sua importância para a construção de um mundo melhor.
Para citar alguns poucos exemplos, olhemos para o século XX. A grande revolução da informática/computação — tem as raízes na invenção do transistor em 1948 pelos físicos John Bardeen, William Shockley e Walter Bratain, o que lhes valeram o prêmio Nobel de física em 1956.
E não podemos esquecer também que a Internet — o famoso ‘http://www’ — teve seu nascimento com os físicos de partículas do Cern.
Na biologia, graças aos estudos de raios-X, o biólogo James Watson e o físico Francis Crick desvendaram a estrutura do DNA.
Na medicina, onde a parceria física–medicina remonta aos tempos mais antigos, a física médica como a concebemos hoje, teve seu inicio no final do século XIX com a descoberta dos raios-X, pelo físico Wilhelm Rontgen, marco da medicina moderna.
Hoje há a área de diagnóstico por imagens na física médica, composta de radiologia, medicina nuclear, ultra-sonografia, imageamento por ressonância magnética etc. Todas essas técnicas tiveram a forte participação dos físicos. Vários físicos receberam o premio Nobel em medicina, na área de diagnóstico de imagens.
Com a formulação da mecânica quântica, a fronteira entre química e física deixaram de existir. Temos aqui presente, prestigiando e enriquecendo nosso evento, o físico e professor Walter Kohn, premio Nobel de química em 1998.
Também na economia, na meteorologia, na metrologia...
Enfim, a física permeia todas as áreas do conhecimento. E não podemos esquecer que ela é a base fundamental hoje da nanociência-nanotecnologia.
A física no Brasil teve vigoroso desenvolvimento nos últimos 35 anos. A criação do sistema nacional de pós-graduação e programas especiais de fomento à pesquisa tiveram papel importante nesse sucesso.
Tivemos significativo avanço nos índices de produtividade científica e podemos afirmar que hoje nossa participação no cenário mundial é notável.
Mas, não podemos esquecer que o principal fator, para esse desenvolvimento, foi o apoio contínuo à formação de recursos humanos, quadro de professores e pesquisadores de boa qualidade.
É preocupante que, nos últimos 10 anos, os recursos financeiros destinados pelo Governo Federal à ciência deixaram de acompanhar o crescimento da comunidade científica.
A ciência deve se desenvolver com planejamento baseado na agenda brasileira, estabelecendo prioridades com foco em sua inserção na vida econômica e social do país – apoio sustentado e sem descontinuidade.
Lembro que planejamento científico não deve ser interpretado como dirigismo. A história nos ensinou que o avanço científico sempre foi cheio de surpresas.
As grandes inovações não são sempre previsíveis, e por isso é fundamental que uma parcela do orçamento de ciência e tecnologia seja sempre assegurada, para que mediante competição por mérito intrínseco de cada proposta nossos cientistas tenham espaço, recursos e condições para desenvolver sua criatividade segundo suas próprias iniciativas, com liberdade e com cronogramas ditados pelos objetivos científicos.
No sistema atual de financiamento da pesquisa brasileira, isso será possível se parte substancial dos recursos for destinada aos Editais Universais do CNPq.
O financiamento da demanda espontânea possibilitou o desenvolvimento e a diversificação da pesquisa em todo o país. O CNPq hoje vem sendo penalizado em seus orçamentos anuais — os recursos destinados à demanda espontânea foram extremamente reduzidos.
A esperada mudança qualitativa no apoio às atividades de pesquisa e desenvolvimento tecnológico em áreas temáticas decorrentes da injeção de recursos adicionais pelos Fundos Setoriais só poderá ocorrer se, de fato, esses fundos apoiarem pesquisa inovadora e de amplo espectro — que abranja toda a cadeia do conhecimento.
Os apoios à pesquisa induzida devem vir acompanhados de forte investimento em pesquisa básica.
A física é a base última não somente das ciências naturais, mas também de quase toda a ciência e tecnologia contemporâneas. Isso faz com que seja ensinada como disciplina básica nas engenharias e outras ciências naturais.
Como já disse, o programa de pós-graduação brasileiro, criado há pouco mais de três décadas, pode ser considerado uma das mais bem sucedidas ações de política científica no país.
Nos últimos 30 anos, a pós–graduação formou cerca de quatro mil doutores em física. Comparado com os países mais desenvolvidos, esse numero é ainda pequeno e deve crescer.
No entanto, as Universidades e os Institutos de Pesquisa não têm conseguido absorver os cerca de 200 doutores que formamos anualmente em física, e o número deles trabalhando na indústria é ínfimo.
É, portanto, chegado o momento de acrescentar aos objetivos do programa de pós-graduação contribuições que permitam à física se envolver mais diretamente com setor não acadêmico, como programas já existentes em países mais desenvolvidos.
O ensino de ciências, além de preparar profissionais para serviços diretos à sociedade e a formação de pesquisadores capazes de contribuir para o avanço da ciência e tecnologia, é importante para o futuro exercício da cidadania.
No ensino fundamental e médio, o aprendizado das ciências naturais deve contribuir para a educação do cidadão, através da compreensão do papel desta no desenvolvimento da tecnologia. A educação em ciência, em todos os níveis, dá ao estudante uma visão do mundo fundamentada na observação objetiva. Esse treinamento é um instrumento essencial numa sociedade democrática.
A incorporação do conhecimento científico à cultura popular é outro aspecto da mesma questão. O cidadão comum precisa processar informações de forma objetiva e comunicar-se de forma estruturada, ter espírito crítico e ser capaz de ler a tecnologia de seu tempo.
Estamos, hoje, diante de questões cujo entendimento e encaminhamento de possíveis soluções exigem, cada vez mais, da população, uma base mínima de conhecimento científico.
Por exemplo, temas como produtos transgênicos, aquecimento global, clonagem terapêutica, células-tronco etc., exigem, além de opiniões técnicas, decisões éticas e políticas, que, em última análise, devem ser tomadas pela sociedade.
Assim, sem nenhuma alfabetização científica, o indivíduo ficará incapacitado para exercer plenamente sua cidadania.
Aqui, não podemos deixar de louvar o empenho do atual governo com ações para diminuir o analfabetismo cientifico.
E parabenizar a SBPC, que, ao longo de muitos anos, tem se empenhado nessa direção através de diferentes programas — reuniões anuais e regionais, publicações, revistas etc.
Neste ano a SBF estará promovendo várias atividades, em todo país, mostrando a importância da ciência.
Faremos várias exposições itinerantes; os Departamentos de Física [das Universidades] de todo o Brasil (mais de 50) estarão promovendo a Semana da Física, com palestras, cursos, mesas-redondas etc.
Durante a Reunião Anual da SBPC, neste ano, em Fortaleza, estaremos cumprindo uma programação voltada para os trabalhos de Einstein.
E iremos a Sobral, cidade cearence, que, em 1919, acolheu a expedição inglesa para a confirmação da teoria da relatividade geral, através da observação do eclipse, com apresentações de peças teatrais sobre a Física Moderna.
Estamos lançando hoje a nossa série de livros 'Temas Atuais em Física', com 12 volumes escritos por nossos colegas, dedicados a professores do ensino médio e fundamental.
Lançamos também o livro 'Física para o Brasil', que tem como objetivo fazer um balanço do estado das pesquisas nos assuntos mais relevantes da Física, no Brasil e no mundo. Quais são os grandes desafios? Quais são as áreas em que contribuições de cientistas brasileiros poderão ser relevantes?
Abordamos tópicos multidisciplinares. Examinamos a estrutura educacional, a formação de recursos humanos, a inclusão social etc. Sempre de forma propositiva! E tudo em linguagem bastante acessível ao grande publico.
Gostaria aqui de agradecer o apoio do MCT, CNPq, Finep, CGEE, Uerj e Cefet.
Encerro, desejando para nós muito sucesso neste Ano Internacional da Física’. Muito Obrigado. Adalberto Fazzio