Leitores comentam adoção do criacionismo em escolas americanas
‘Uma teoria é uma reunião de fatos. Seguindo-se este raciocínio, a Evolução não é um fato: são vários’
Mensagem da professora e pesquisadora Karin von Schmalz-Peixoto, do Depto. de Biologia, Área de Genética, da Universidade Federal Rural de Pernambuco:
‘Foi com tristeza que li a nota no JC E-Mail de 21 de janeiro de 2005 que dois estados americanos instituíram o ensino criacionista em suas escolas como ‘alternativa’ à evolução.
Ainda mais preocupante foi perceber que esta notícia foi publicada como uma nota, sem maiores explicações, deixando em dúvida a posição defendida pelo ‘Jornal da Ciência’.
Como professora de Genética e Evolução da UFRPE, tenho freqüentemente que estabelecer limites com meus alunos sobre o que minha disciplina se propõe a discutir. Em primeiro lugar, acredito que a crença pessoal de um indivíduo é intocável.
A Criação Especial, crença bíblica largamente difundida no mundo ocidental, está no âmbito de estudo da Filosofia, Teologia, Antropologia ou Sociologia. A Biologia estuda a Evolução. Há uma centena de cursos universitários que não dependem ou não necessitam da aceitação dos processos evolutivos.
Infelizmente para os muito religiosos, as Ciências Biológicas são totalmente baseadas na Teoria Evolutiva. Um estudante de biologia deve incorporar a teoria evolutiva de modo que seu trabalho seja relevante.
Como disse Theodosius Dobzhanski, ‘nada na biologia faz sentido a não ser sob a luz da evolução’. Há vários cientistas que crêem em um deus, mas acreditam que este deus criou a processo evolutivo, que está em ação há quase quatro bilhões de anos, e não toda a biodiversidade em seis dias.
Em segundo lugar, costumo dedicar uma aula apenas à elucidação do método científico. Um erro comum, que adotamos dos americanos, é confundir a palavra ‘hipótese’ com ‘teoria’.
Quando os americanos colocaram um adesivo dizendo que ‘A evolução não é um fato, é uma teoria’, mostraram uma total ignorância do método científico. O que eles queriam dizem, mas não podiam por não ser verdade, é que ‘a evolução é uma hipótese’.
Hipóteses são deduções inteligentes. Surgem da observação esporádica ou da reunião de informações anedotais ou paralelas, e devem ser postuladas em forma de pergunta ou predição: ‘Será que a vida surgiu de material abiótico?’ ou ‘Se um experimento reproduzir as condições ambientais da Terra pré-biótica, material biológico irá formar-se’.
Teorias são hipóteses comprovadas por fatos. Se os fatos, obtidos experimentalmente ou compilados de fontes fidedignas, comprovam a hipótese, ela se torna uma teoria, e várias teorias podem ser reunidas em um modelo científico.
Se uma hipótese não é comprovada por fatos, deve ser rejeitada ou reformulada. Desta forma, uma teoria é uma reunião de fatos. Seguindo-se este raciocínio, a Evolução não é um fato: são vários.
A negação de uma miríade de fatos é, portanto, uma questão de escolha. Nada há de errado em um advogado ou músico que decide ignorar o método científico e os fatos que apóiam uma teoria como a da evolução.
Mas quando um cientista age da mesma forma, corre-se o risco de criar uma geração de pesquisadores obsoletos que desperdiçam recursos em projetos irrelevantes.
Aqueles que acham que a vida é tão complexa que só poderia ter surgido através do ‘design inteligente’ aparentemente desconhecem a excelente explicação dada por Richard Dawkins em seu livro (e programa de computador) ‘O Relojoeiro Cego’.
Também ignoram, ou não entendem, as leis da probabilidade e o que significa a enormidade temporal de quatro bilhões de anos.
A sabedoria popular há muito prega a sensatez: cada macaco no seu galho. De mesmo modo que eu não iria a uma congregação religiosa para pregar a Teoria Evolutiva, não permito que religiosos discutam a Criação Especial em minha sala de aula.
O ensino do Criacionismo em escolas secundárias como uma ‘alternativa’ à Evolução parece-me tão obsceno quando a conversão forçada dos índios por missionários cristãos, com o agravante de fazer um jovem secundarista pensar que pode seguir carreira nas ciências biológicas acreditando que toda a vida surgiu do sopro divino há seis mil anos atrás.
Nota do editor: O ‘Jornal da Ciência’ considera um atraso de vida o ensino do criacionismo no Brasil e em qualquer parte do mundo. Por isso mesmo, estamos sempre preocupados em divulgar notícias a respeito.
Mensagem de Marcelo Brilhante de Medeiros, da Embrapa:
‘É sintomático que os EUA e seu governo reacionário instituam o ensino de criacionismo em escolas. É a volta das fogueiras de livros da idade média e do nazismo, o fortalecimento da ultra-direita branca e cristã, com seus ideais fascistas.
Esta idéia de criacionismo também prolifera no Brasil, capitaneada por conservadores reacionários, que ameçam o avanço da ciência. As sociedades científicas precisam reagir.’
Mensagem de Willian Edson Pereira (willian-edson@uol.com.br):
‘Segundo o design inteligente, a vida é tão complexa que só poderia ter sido projetada por um ser criador. ‘
Não poderia ser mais preconceituosa tal frase, já que em momento algum a teoria do DI arvora a presença de um criador, a afirmação fundamental do DI é direta e muito inteligível, isto é: existem sistemas naturais que não podem ser adequadamente explicados em termos de forças naturais não-dirigidas e que exibem características que em quaisquer outras circunstâncias nós atribuiríamos à inteligência. Portanto, o DI pode ser definido como a ciência que estuda os sinais de inteligência.
Tal afirmação é uma forma de nos descaracterizar em debate cientifico e objetivo.’