Lei que tramita no Congresso pode emplacar híbrido da mandioca desenvolvido pelo professor da UnB Nagib Nassar. Alimento é aperfeiçoado por cruzamento genético para ter mais proteína
Tornar a mandioca mais nutritiva é, há quase 30 anos, o alvo das pesquisas do professor da Universidade de Brasília (UnB) Nagib Nassar.
Desde a década de setenta, ele trabalha com a hibridização da mandioca, cujas pesquisas já lhe renderam cinco indicações ao Prêmio Mundial para a Alimentação (World Food Prize) pelo aumento nutricional da mandioca (de 1,5% para 4% de proteínas).
Mas o pesquisador do Departamento de Genética do Instituto de Ciências Biológicas não parou por aí e, até o final de 2004, espera desenvolver o híbrido com valor protéico de 5%.
Suas pesquisas ganham ainda mais importância com uma lei em tramitação no Congresso Nacional que prevê a redução da importação da farinha de trigo. Ela deverá ser substituída gradualmente pela farinha de mandioca.
O problema até hoje é que a quantidade de proteína do trigo é de 7% e da mandioca é de 1,5%. Nesse caso, o híbrido produzido pelo professor Nassar seria a melhor solução.
"Se a lei que tramita no Congresso for aprovada, todos vão ter de comer da minha mandioca", afirma. O professor esclarece, entretanto, que tal aumento só é obtido por meio da técnica de cruzamento genético natural entre espécies.
"Essa técnica consiste em duplicar os cromossomos da planta original", explica. Tal mecanismo científico, segundo ele, aumenta de 30% a 40% o conteúdo de proteína do vegetal.
A importação do trigo representa para o Brasil um fator agravante de desequilíbrio econômico. Isso porque o país não possui condições climáticas ideais para produzir trigo o ano inteiro, sendo obrigado a importar o cereal.
Nassar afirma que a saída para esse desequilíbrio será misturar a farinha de trigo à farinha de mandioca, na proporção de 70% de trigo e 30% de mandioca.
Transgênico x híbrido
A mandioca desenvolvida na UnB não é um transgênico, produto proibido pela legislação brasileira. "Minha técnica não é a mesma utilizada em produtos geneticamente modificados", explica.
O processo que resulta num alimento transgênico consiste em transferir genes de um organismo para outro utilizando vírus ou bactérias (processo conhecido como engenharia genética).
O professor utilizou em seu primeiro experimento (que resultou no híbrido de valor protéico para 4%) apenas a técnica da genética cruzando espécies silvestres (que possuem 8% de proteínas) com a mandioca comum.
Atualmente, no experimento que promete a obtenção de 5% de proteína, ele já consegui duplicar os cromossomos artificialmente, técnica conhecida como poliploidia.
"O que produzimos é híbrido da mandioca com alto conteúdo protéico produzido com técnicas tradicionais", esclarece.
Segundo Nagib Nassar, a mandioca enriquecida, além de ser uma alternativa para reequilibrar a balança comercial na questão do trigo, pode ser usada na luta contra a fome no Brasil e no mundo. (UnB Agência, 27/12)