‘Ciência é nova commodity global’, afirma Miguel Nicolelis
Para paulista radicado nos EUA, Brasil pode ocupar posição de destaque com declínio americano
Cristina Amorim escreve para a ‘Folha de SP’:
O paulistano Miguel Nicolelis, 43, é famoso por duas grandes paixões: a neurociência, que lhe trouxe reconhecimento científico mundial, e o Palmeiras, time do coração que -admite- não tem conquistado tantos títulos quanto ele.
Nicolelis acaba de ser indicado como um 50 líderes mundiais da ciência pela revista ‘Scientific American’, no momento em que capta atenção e recursos para um projeto pessoal: o Instituto Internacional de Neurociência, a ser construído em Macaíba, periferia de Natal (RN).
Ele acredita que o centro -que reúne laboratório e escolas para a comunidade carente- será um divisor de águas na formação do que chama de ‘um exército de sonhadores’.
Exército esse que vai ajudar o Brasil a ocupar uma posição importante em um novo panorama mundial, que ele prevê baseado na retenção de conhecimento, não na capacidade bélica.
‘A ciência está extravasando os portões dos campi universitários e está se transformando em commodities das sociedades modernas.’ O cientista mora há quase 20 anos nos EUA, onde chefia o Centro de Neuroengenharia da Universidade Duke, na Carolina do Norte. De lá, concedeu entrevista telefônica à Folha.
Folha - Como está o clima entre a comunidade científica nos EUA após a reeleição do presidente George W. Bush?
Miguel Nicolelis - É surpreendente, porque tem muita gente que apóia o Partido Republicano, mesmo na comunidade científica. Agora, as pessoas que não apóiam estão tão deprimidas quanto nós estrangeiros estamos. Claramente, foi uma decisão da qual os EUA só devem se recuperar daqui a muitos anos. Para o país e para o mundo, essa reeleição foi um golpe muito duro. Tanto é que há muitos cientistas americanos e estrangeiros deixando os EUA. Quando a política ou a visão religiosa do mundo começa a influenciar decisões científicas, você começa a assustar as pessoas que têm um pouco mais de criatividade e liberdade intelectual. Isso está começando, acho que eles vão sofrer um êxodo tremendo.
Folha - O sr. começou a se projetar no cenário internacional como o criador do Centro de Neuroengenharia da Universidade Duke. De onde veio a idéia?
Nicolelis - Eu estava começando a fazer os experimentos em que a gente estava retirando sinais do cérebro dos ratinhos, depois dos macacos, para controlar braços mecânicos. E eu vi claramente que existia uma oportunidade única de criar essa estrutura, porque não existia nada igual nos EUA. Então, surgiu o centro e foi uma explosão, com a possibilidade de trabalhar com pessoas de todo o campus da Duke que estavam interessadas no cérebro, independente da formação delas.
Folha - Quantos estudos o sr. publicou desde a abertura do centro?
Nicolelis - Bom, nos últimos dez anos eu publiquei, no meu laboratório, por volta de 110 estudos. Nos últimos quatro anos foi uma explosão muito grande, nós devemos ter publicado uns 70.
Folha - Por que essa explosão nos últimos quatro anos?
Nicolelis - Porque a técnica foi aprimorada a um ponto que hoje a gente consegue fazer coisas que nenhum laboratório faz. Nós temos um trabalho, que está vindo agora, que vai ser uma explosão. Em Parkinson, nós conseguimos descobrir uma nova coisa com camundongo que ninguém nunca tinha visto. E até em seres humanos, mostrando que o que a gente fez no macaco é viável de ser feito nos seres humanos.
Folha - O sr. mencionou futuras descobertas grandiosas. O instituto em Natal fará parte disso?
Nicolelis - Ah, claro, claro. Ele é o primeiro de uma série de 12 institutos que essa associação que nós criamos quer construir pelo Brasil. Não em neurociência só, mas em outras 12 áreas de ciências que a gente acredita serem fundamentais para o futuro do Brasil. É quase uma questão de soberania o Brasil investir nessas áreas.
Folha - Como assim?
Nicolelis - A grande questão da soberania das nações no futuro do século 21 vai ser, basicamente, o domínio da tecnologia e da ciência. Realmente, a dependência de um país a outro não vai ser mais simplesmente por questões econômicas claras. Ela vai ser definida pela habilidade de um país desenvolver suas próprias tecnologias e se manter independente dos grandes poderes tecnológicos do mundo. As formas de dominação hoje são sutis. Você não precisa ter ‘marines’ invadindo seu país para ser dominado.
Folha - O Iraque deve ter outra posição sobre a sutileza.
Nicolelis - O Iraque é provavelmente o último exemplo, na minha opinião, das guerras coloniais típicas. Porque o pessoal que está no poder aqui [nos EUA] não tem sutileza. Mas, daqui para a frente, a dominação colonial vai ser feita em outros termos. Vai ser feita pelo domínio das grandes patentes, das tecnologias dos remédios, das comunicações, do espaço. O Brasil, se quiser manter a soberania, tem de investir maciçamente em áreas básicas de tecnologia. Isso é uma visão estratégica de longo prazo e a Associação Santos Dumont [da qual Nicolelis é co-fundador e que está por trás do instituto em Natal] não pensa só nisso, ela está pensando em formar um exército de sonhadores. Tendo em cada um desses campi uma escola única, que jamais foi feita no Brasil. Você remove da criança o medo de sonhar, de pensar criticamente. Você cria 12 campi como esse, educando mil crianças por ano, em cada um desses lugares, em 25 anos nós vamos ter um exército de sonhadores, cidadãos do mundo, que não vão ter receio de pegar seus 14 Bis e voar em algum lugar aí no Brasil.
Folha - É uma metáfora e tanto.
Nicolelis - Essa é a metáfora da Santos Dumont. Nós a criamos em homenagem ao maior cientista, maior sonhador que o Brasil já teve. Só que o Santos Dumont teve de sonhar seus sonhos quixotescos nos céus de Paris. E o que nós precisamos é que nossos futuros Santos Dumont possam sonhar sob a luz do Cruzeiro do Sul.
Folha - O sr. é um típico caso de fuga de cérebro.
Nicolelis - Nós somos vítimas do sonho, não tinha jeito. Era sair do Brasil ou renegar o sonho.
Folha - Globalização à parte, o sr. continua sediado nos EUA. O sr. tem cidadania americana?
Nicolelis - Não, eu sou brasileiro ainda. Eu continuo sofrendo para entrar no país porque eu sou um cidadão permanente, mas eu sou um cidadão brasileiro. Cientista brasileiro é um terrorista em potencial: um cara feliz, que só pensa em futebol, trazer esses valores para a América, hoje em dia, é uma coisa assustadora.
Folha - Pretende passar mais tempo no Brasil?
Nicolelis - Eu quero passar boa parte do meu tempo em Natal. Só que eu não quero criar Natal para ser o meu feudo. Eu estou criando Natal para uma geração que é mais jovem do que eu, que ainda tem chance de voltar permanentemente para o Brasil. Porque assim que Natal estiver andando, eu quero ir para o Piauí, entendeu? Queremos levar esse sonho que é o de que a ciência de ponta pode ser um agente de transformação, levando ciência de ponta para 12 localidades do Brasil e criando pólos econômicos em volta desses institutos, você cria um novo modelo econômico de fazer ciência no Brasil. A ciência está extravasando os portões dos campi universitários e está se transformando, realmente, em commodity das sociedades modernas.
Folha - Ao mesmo tempo que o sr. fala em globalização, fala em desenvolvimento local. Como as duas coisas se encaixam?
Nicolelis - Elas se encaixam porque o Brasil, para resolver seus problemas e ser uma nação não só feliz mas que influencie o destino da humanidade, tem de se inserir na comunidade internacional. E nós também temos muito a aprender com outros países em termos de organização. É uma loucura fazer alguma coisa no Brasil -os entraves burocráticos. As coisas não são liberadas porque faltam documentos que você nunca imaginou que existissem.
Folha - Quais são as críticas feitas ao sr. na academia?
Nicolelis - Não são críticas, são posturas de medo mesmo. Defensivas, que a gente aceita naturalmente, porque, como a gente gosta de dizer, ninguém vai parar o trem. As pessoas podem se juntar ao trem ou ver o trem passar e acenar, mas ninguém vai parar o trem, porque é uma bandeira do bem. Você vai para Macaíba, são 58 mil pessoas, com um grau de problemas sociais e econômicos que dá vontade de chorar. Só que, agora, elas sabem que Macaíba passou a ser o foco de algo muito grande. Você se sente parte de uma comunidade.
Folha - De quanto é o investimento nesse instituto?
Nicolelis - Bom, para construir todo o campus de Natal nós estamos orçando em US$ 20 milhões. Estamos criando uma rede de parceiros que inclui o governo brasileiro, mas não queremos que seja o majoritário.
Folha - Por quê?
Nicolelis - Porque eu acho que é importante a gente ter a agilidade e a liberdade de atuar como uma entidade privada, o que as Universidades públicas brasileiras não têm mais. É uma guerrilha científica, acho que a analogia é essa: ser ágil, pequena, eficiente e capaz de fazer contribuições tremendas num curto período de tempo.
Folha - O sr. acha que o Brasil terá condição, no futuro, de oferecer um mercado profícuo para essas crianças?
Nicolelis - Essas crianças vão mudar o Brasil. Não queremos criar cientistas. A minoria vai ser cientista. Essas pessoas vão ser educadas com uma série de valores éticos, humanísticos e de pensar na sua comunidade, no seu país, em vez de que pensar em si próprio. Nós vamos criar um tipo de cidadão que vai querer ser um agente de transformação social no Brasil. Serão advogados, médicos, professores, arquitetos, enfermeiros. Vão trabalhar nos mais diversos setores da sociedade brasileira, com uma visão de se construir uma nação, de se construir uma sociedade mais justa.
Folha - O sr. se acha utópico?
Nicolelis - Eu tenho absoluta certeza. O diagnóstico está fechado há muito tempo. Irremediável, intratável e irreconciliável.
Folha - Antes das últimas eleições presidenciais, o sr. estava bem animado com as mudanças propostas pelo então candidato Lula.
Nicolelis - Ainda estou. Quanto mais eu interajo com o governo brasileiro, mais eu sinto o potencial de algo a ser feito pelo Brasil nesses próximos anos que eu nunca senti antes na minha vida.
Folha - Como o sr. vê hoje o governo Lula?
Nicolelis - Eu vejo o governo Lula claramente demonstrando que aqueles temores pré-eleição eram infundados. O governo chegou, se implantou. Tem enfrentado dificuldades que são absolutamente naturais num país como o Brasil. Claro que existem dificuldades, mas o que as pessoas ainda não pararam para pensar é que hoje o Brasil é uma superpotência agrícola. Ninguém pode discutir o mundo sem discutir o Brasil. E o que o governo Lula está fazendo é estabelecer alianças com parceiros naturais, que o Brasil nunca olhou: Índia, China, Rússia, países que têm perfis emergentes como o Brasil, mas que nunca foram olhados com a mesma atenção pelos países da Comunidade Européia e pelos EUA.
Trabalho pode ajudar portador de deficiência
Há pouco mais de um ano, Miguel Nicolelis publicou, na revista eletrônica ‘PLoS Biology’ (biology.plosjournals.org), uma pesquisa que representava um feito na cibernética: duas fêmeas de macaco reso (Macaca mulatta) moveram um braço robótico literalmente com o pensamento. Nicolelis e sua equipe ligaram microeletrodos à área do cérebro que comanda os movimentos musculares e condicionaram os animais a usar um joystick para cumprir determinada tarefa.
À medida que a dependência do joystick diminuía, as macacas obtinham o mesmo resultado apenas pensando em fazê-lo e, assim, acionando o braço mecânico. Elas incorporaram o robô como uma extensão de si mesmas.
O estudo é uma continuação de uma experiência pioneira de Nicolelis, publicada em novembro de 2000 na revista ‘Nature’, no qual eletrodos implantados em macacos-coruja (Aotus trivigartus) se comunicavam com um computador, que interpretava os padrões cerebrais como comandos para mover o braço robótico.
A aplicação mais óbvia do trabalho é desenvolver sistemas inteligentes que ajudem pessoas com doenças degenerativas ou lesões no sistema nervoso, como próteses de mãos e pernas ou cadeiras de rodas. Mas o governo dos EUA não descarta aplicações militares.
Nicolelis trabalha com financiamento da Darpa, um ramo do Pentágono encarregado de custear pesquisas que possam ter interesse estratégico para o país. (CAm) (Folha de SP, 6/12)