Navegar é preciso... mas com cuidado, artigo de Leôncio Martins Rodrigues
Se navegar é preciso, cumpre estar atento para os escolhos ideológicos
Leôncio Martins Rodrigues é professor-titular do Departamento de Ciência Política da Unicamp. Artigo publicado em ‘O Estado de SP’:
A última personalidade a utilizar a frase ‘navegar é preciso, viver não é Preciso’ foi o presidente Lula, citando Ulysses Guimarães em 1973 ao lançar a sua ‘anticandidatura’ contra o general Ernesto Geisel.
A frase é retomada na música composta e cantada por Caetano Veloso.
Trata-se de um lema particularmente apreciado pela intelectualidade jovem de esquerda como símbolo do heroísmo, da ousadia, da coragem, da vontade, de saber fazer a hora e de não temer a morte.
Habitualmente, o lema é atribuído ao poeta português Fernando Pessoa.
Num comentário ao discurso do presidente Lula, o jornalista Gabriel Manzano Filho, de ‘O Estado de SP’ (5/8), oportunamente nos esclarece que a frase é muito mais antiga. Seu autor foi Pompeu, o Grande.
Fora usada por ele em 70 a.C. para encorajar marinheiros temerosos de uma tempestade que se aproximava.
Por instigar a audácia de avançar, a supremacia da vontade, a capacidade de se opor aos fatores adversos e o desprezo pela morte, a divisa tem sido evocada no campo político sem que os que a utilizam, especialmente quando são de esquerda, se dêem conta da armadilha ideológica escondida no apelo desafiador da morte.
Pelo fim da Idade Média, o ‘navegar é preciso, viver não é preciso’ havia sido tomado como um lema pela Liga Hanseática, que sucedera, no século 4.º, à Liga Teutônica, uma associação com fins lucrativos de mercadores alemães de cerca de 80 cidades. Até aí, podemos dizer que tudo bem.
Mas poucos sabem que a divisa fora apropriada pelo romantismo fascista como um símbolo da ousadia dos que se opunham à ordem burguesa, tida pelos fascistas como corrupta e despida de idealismo.
O poeta italiano Gabriele D'Annunzio, protofascista e rival de Mussolini, em 1903 usou num dos seus livros, em exergo, a divisa das cidades hanseáticas.
Os escritos de D'Annunzio são uma exaltação do imperialismo e do nacionalismo italianos que mobilizavam a jovem intelectualidade belicista, que passou do socialismo e do sindicalismo revolucionário para o fascismo (para o socialismo nacional, em outros países).
A divisa da Liga Hanseática foi usada por Mussolini num artigo que se tornou famoso, Navigare necesse est, publicado no Popolo d'Italia em 1.º de janeiro de 1920, jornal oficial dos fasci di combattimento (o Partido Nacional Fascista seria formado dois anos depois).
O artigo exalta um dos aspectos das concepções do romantismo fascista: o culto da luta, característica do ‘homem heróico fascista’.
Diz Mussolini: ‘Para nós, 'navegar' significa lutar (...) O resultado da batalha tem, para nós, pouca importância. Para nós, o combate tem a sua recompensa em si mesmo, ainda que não seja coroado pela vitória...
Enquanto isso, navegar é preciso. Mesmo contra a maré. Mesmo contra o rebanho. Mesmo que o naufrágio espere os solitários e orgulhosos emissários de nossa heresia’ (apud T. Buron e P. Gauchon, Os Fascismos, RJ, Zahar Editores, 1980, pág. 23).
Nesse quadro do culto do heroísmo, do viver perigosamente, do nacionalismo, do desprezo pela ordem burguesa, da rejeição das instituições da democracia representativa, a intelectualidade e a juventude universitária foram os setores que mais se deixaram atrair pela ideologia fascista da exaltação da violência e da audácia.
Não é por acaso que o hino (Giovinezza, Giovinezza) dos ex-combatentes das tropas de assalto (canção que exaltava o uso das granadas, do punhal e da violência juntamente com a primavera de beleza da juventude) se tenha tornado o segundo hino nacional da Itália fascista.
Por isso, se navegar é preciso, cumpre estar atento para os escolhos ideológicos. (O Estado de SP, 12/8)