Reunião Anual: Fiocruz anuncia patente sobre estudo dos efeitos anti-alérgicos do óleo de andiroba
CNPq vai lançar edital para apoio à área de fármacos e medicamentos
Flamínio Araripe escreve para o ‘JC e-mail’:
A pesquisadora Maria das Graças Muller de O. Henriques, do Farmanguinhos/Fiocruz mostrou nesta quarta-feira, na 56ª Reunião Anual da SBPC, pela primeira vez, o resultado de um pedido de patente depositada no mesmo dia sobre formulação baseada no óleo da semente de andiroba, uma espécie da família Meliaceae.
O estudo, realizado ao longo de quatro anos por uma equipe que liderou com mais de 30 colegas, constatou um efeito anti-alérgico e anti-histamínico inédito do óleo extraído da andiroba para uso cutâneo e pulmonar. Os testes feitos para uso cutâneo não revelaram toxidez.
Na conferência ‘Redes temáticas e produção de fármacos no Brasil’, Maria das Graças Henriques falou sobre o papel dos Institutos de Pesquisa no estabelecimento de bases técnicas e gerenciais para o desenvolvimento de novos fármacos e medicamentos para o Brasil.
O painel foi coordenado por João Batista Calixto, da UFSC, que abordou o tema ‘A contribuição das universidades e Centros de Pesquisas para o sucesso de uma política de P&D na área de fármacos e medicamentos no Brasil’.
Com a inclusão dos fármacos e medicamentos entre as quatro prioridades da política industrial, João Batista Calixto avalia que o governo espera nos próximos 10 a 20 anos produzir um crescimento equivalente ao proporcionado pela Embrapa na agroindústria.
Novos instrumentos de apoio ao setor estão sendo desenhados, disse ele, entre os quais o edital Profarma do CNPq, para a criação de laboratórios de referência, laboratórios de bio-inspeção, recursos humanos e reciclagem de doutores no trabalho na indústria, já contando com a aprovação da Lei de Inovação.
Segundo ele, a Capes vai lançar um edital para a pesquisa em química voltada para farmacologia. Também o CNPq está com um edital RHAE específico na área e o BNDES lançou um programa para a indústria farmacêutica. ‘A área está ganhando notoriedade’. Ele disse que ‘não é muito’ o recurso do edital Profarma.
Preservada a patente de propriedade do Ministério da Saúde, a indústria será procurada para dar seqüência à fase de ensaio clínico até chegar ao produto final.
De acordo com Maria das Graças Henriques, já existem dados suficientes para o desenvolvimento do produto, com risco industrial reduzido, em prazo estimado de seis anos para alergias pulmonares e em menor tempo para a forma tópica (creme). Como contrapartida, será pedida garantia do preço para a população, informa.
No Brasil, 80% dos produtos farmoquímicos são importados. Não existe no país o desenvolvimento completo de produtos sintéticos. ‘Esta é uma questão de saúde pública e de economia’, disse Maria das Graças Henriques, que coordena o Departamento de Farmacologia Aplicada do Farmanguinhos/Fiocruz.
Segundo ela, os produtos lançados pela indústria farmacêutica mundial nos últimos dois anos – para diabetes, AIDS, câncer do pulmão, Parkinson, disfunção erétil e outras – não focam as chamadas doenças negligenciadas, malária, tuberculose, doenças de Chagas, leishaminose e outras doenças infecciosas.
A indústria farmacêutica mundial não estuda e não investe nas doenças negligenciadas. ‘Nossos problemas terão de ser resolvidos por nós’, disse a pesquisadora, que defende a produção completa também de drogas anti-alérgicas e para doenças leves no país. Todavia, segundo ela, o Brasil tem um incipiente setor de pesquisa e desenvolvimento em fármacos e medicamentos, além de poucas pessoas qualificadas na área.
Maria das Graças avalia que o Brasil tem uma produção científica e um volume ‘razoável’ de artigos publicados, sobretudo na área de recursos naturais. Todavia, ela identifica falhas como motivo para o Brasil não ter chegado ao medicamento completo. ‘A pesquisa básica é publicada, mas a pesquisa pré-clínica não tem início. As drogas candidatas confirmadas não entram no desenvolvimento clínico por opção estratégica das empresas e as novas drogas ou drogas existentes não chegam ao paciente’, afirma.
A pesquisadora relatou a experiência de quatro anos no Núcleo Gestor de Desenvolvimento Tecnológico do Fiocruz, que preparou gerentes para auxiliar pesquisadores de bancada. Há dois anos, o Fiocruz aplica a mesma metodologia para 12 projetos de P&D com produtos de origem sintética e produtos naturais.
Os gerentes foram formados na experiência inicial e agora cada projeto tem um gestor que acompanha todas as etapas da pesquisa básica à pesquisa pré-clínica e depois a pesquisa clínica. A metodologia envolve estudos botânicos, estudos agronômicos, químicos, fitoquímicos, toxicológicos, farmacológicos, prévio conhecimento da legislação sobre produtos naturais para evitar retrabalho na pesquisa e acompanhamento de um especialista em patente.
Daí nasceu há dois anos a Rede Programa de Desenvolvimento e Insumos da Saúde, que tem abordado temas como vacinas, kit diagnóstico e medicamentos, com grupos de pesquisa agregados com coordenador e gestor. As unidades do Fiocruz no Rio, Recife, Bahia e Minas Gerais com um esforço de conectá-las a alguns programas nacionais e Universidades, de acordo com a necessidade, disse Maria das Graças Henriques.
João Batista Calixto diz que a titulação nos programas de pós-graduação em farmacologia no Brasil, nos anos 1996 a 2001 produziu 480 pessoas com mestrado e 150 com mestrado.
‘É nada’, afirma, comparando com os recursos humanos da Índia, Israel, Coréia e China, que para ele têm uma ciência pior do que a do Brasil, no entanto ocupam maior fatia de mercado por terem lançado políticas de apoio a áreas estratégicas de fármacos e medicamentos.
‘Não é falta de capacitação tecnológica, mas uma decisão de governo’, observa o professor do departamento de Farmacologia da UFSC. O pesquisador informa que no Brasil há 183 pesquisadores de bioquímica e 125 de farmacologia associados ao CNPq.
‘Temos de formar mais profissionais e dar emprego aos formados’, recomenda. Citando dados do Prossiga de 2002, ele mostra que há 50 bolsistas de produtividade na pesquisa em farmacologia e 80 de nível 2.
Calixto propõe também a ampliação dos 18 centros de farmacologia clínica (bioequivalência) existentes no país. Entre 1990 a 2000, o Brasil publicou 1.491 trabalhos em periódicos indexados na área da farmacologia, informa. Enquanto o Japão conta com 10 pesquisadores por cada grupo de mil, os EUA com 9 e a Alemanha com 8, a relação no Brasil é menor que 1 x 1000 ‘na melhor das hipóteses’, compara.
O mercado farmacêutico mundial, que movimenta US$ 375 bilhões por ano, segundo ele, está dividido entre países que acumulam também o conhecimento.
Os EUA detém a maior fatia de 34,5%, seguidos pela Europa com 29%; o Japão com 15,9%; a América Latina com 7,7% e a China com 7,3%. Os EUA dominam 36% da indústria farmacêutica, o Japão 19%, a Alemanha 10%; França 9%, Inglaterra 7%, Suíça 5%, Suécia 3%, Itália 3% e outros países 8%.
Segundo Calixto, a tecnologia da indústria farmacêutica requer política industrial, é de alto risco e apresenta resultados a longo prazo para o investimento.
Como exemplo, ele citou que o tempo de desenvolvimento de drogas, que na década de 60 era de 8,1 anos da fase de síntese até aprovação legal, passando pelas fases pré-clínicas e clínicas, chegou a 11,6 anos na década 70; 14,2 anos na década de 80 e de 14,8 anos no período 1990-1996.
O investimento em P&D pela indústria farmacêutica cresceu de US$ 2 bilhões em 1980 para US$ 8,4 bilhões em 1990; US$ 15,2 bilhões em 1995; US$ 21,1 bilhões em 1998 e US$ 24 bilhões em 1999.
O custo médio do lançamento de uma nova droga no mercado, segundo ele, que era de US$ 1,5 bilhão em 1996, cresceu para US$ 2,3 bilhões em 2002. Ao longo do tempo, contudo, a média de lançamento de novas drogas caiu de 1,1 por ano por empresa em 1996 para 0,8 nova droga por companhia em 2002.
Diante deste panorama, o pesquisador observa que está havendo uma espécie de esgotamento no fôlego para lançar novas drogas. A demora em chegar ao mercado consome alto investimento e motiva a fusão das grandes empresas para reduzir risco e perseguir o lucro.
O mercado brasileiro de medicamentos movimentou US$ 4,6 bilhões em 2002, cita Calixto. Do total, US$ 270 milhões (5,9 %) correspondem às vendas dos fitomedicamentos e US$ 226 milhões (5,0 %) aos genéricos.
Segundo ele, a indústria farmacêutica no Brasil congrega 250 empresas de capital nacional e estrangeiro, das quais 49 empresas de capital exclusivamente nacional - cerca de 20%. O setor tem pouca ou nenhuma tradição de investimento em P&D e pouca interação com o setor acadêmico, afirma.
João Batista Calixto informa que está para ser lançado em breve um novo medicamento totalmente brasileiro fruto da integração entre um grupo de 13 empresas e diversas das 10 Universidades nacionais com projetos nas indústrias.
O pesquisador recomenda como áreas para P&D para apoio no setor farmacêutico brasileiro a capacitação científica e tecnológica para desenvolvimento e produção de genéricos (produção de matéria-prima), o desenvolvimento de medicamentos para doenças negligenciadas (laboratórios estatais e indústrias), fitomedicamentos, exploração da potencialidade da biodiversidade brasileira (bioprospecção), rejuvenescimento de droga, farmacoquímica e produtos biotecnológicos (medicamentos, kits de diagnóstico terapêutica veterinária e humana).
Os problemas do mercado, da interação universidade-empresa, as necessidades de pesquisa, relações com governo e outros problemas do setor, serão discutidos no I Workshop sobre Fármacos e Medicamentos como área estratégica de C&T: subsídios para uma política nacional, a ser realizado em SP nos dias 16 e 17 de setembro.