Produtos e processos de nanotecnologia já movimentam US$ 200 bilhões
Virgínia Silveira escreve para a ‘Gazeta Mercantil’:
Tecidos resistentes a manchas, vidros autolimpantes, sensor eletrônico que avalia a qualidade de bebidas mil vezes mais sensível que o paladar humano, nanochips, ímãs que ajudam na contenção de derramamentos de petróleo no mar, novos métodos de fertilização do solo, controle de pragas e tratamento de câncer, entre tantos outros produtos baseados em processos nanotecnológicos, já são uma realidade no mundo e também no Brasil.
A nanotecnologia, caracterizada pela manipulação da matéria no nível molecular ou em dimensões 100 mil vezes menores que a espessura de um fio de cabelo, representa a possibilidade de criação de materiais inovadores capazes de elevar a economia mundial a um novo patamar.
A National Science Foundation (NSF) americana estima que o mercado para produtos e processos baseados na nanotecnologia movimente algo em torno de US$ 1 trilhão, nos próximos 15 anos. Em 2002 esse mercado já teria atingido a marca de US$ 200 bilhões, segundo a NSF.
A nanotecnologia estará presente mesmo nas indústrias mais tradicionais, garantindo processos de produção mais baratos e menos agressivos ao meio ambiente.
Física, Química, Biologia, tecnologia da informação, Engenharia e Matemática se interagem no estudo de fenômenos em nível nanométrico (bilionésima parte do metro), com aplicação em vários setores produtivos.
O Brasil já entrou nessa nova corrida tecnológica, embora de maneira tímida, com investimentos ainda pequenos, da ordem de R$ 8 milhões este ano.
O país já possui uma boa base de recursos humanos e de infra-estrutura para pesquisa em nanobiotecnologia, materiais nanoestruturados e sensores. Mas o grande desafio continua sendo a transição do laboratório para o mercado.
O lançamento recente da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (PITCE) incluiu a nanotecnologia como uma das áreas ‘portadoras de futuro’, de acordo com o secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento, do MCT, Cylon Gonçalves da Silva.
Pesquisa nacional avança e já registra bons resultados
Embrapa desenvolve sensor de paladar e Aegis investe nos nanopolímeros.
O MCT começou a mapear as empresas brasileiras que desenvolvem produtos e processos baseados em nanotecnologia.
O objetivo, segundo Alfredo de Souza Mendes, Coordenador Geral de Políticas e Programas de Nanotecnologia , é promover uma forte interação do setor produtivo com a área científica de forma a otimizar recursos em termos de equipamentos e troca de informações.
Estimativas preliminares indicam que o Brasil tem potencial para disputar um mercado de US$ 1 bilhão na próxima década na área de nanotecnologia.
Embora ainda existam lacunas no Brasil em relação a mecanismos mais ágeis de incentivo à inovação no setor privado e formação de recursos humanos de qualidade, o país contabiliza alguns importantes resultados em pesquisas com processos que usam a nanotecnologia.
O exemplo mais conhecido é o da "língua eletrônica", sensor de paladar que promete revolucionar os atuais sistemas de controle de qualidade da indústria alimentícia e de bebidas.
A Associação Brasileira das Indústrias de Café (Abic) decidiu utilizar o equipamento para avaliar a qualidade do café brasileiro.
"Além de analisar a qualidade da matéria-prima o sistema também será usado para confirmar a avaliação sensorial e gustativa dos tradicionais provadores da bebida", diz o diretor executivo da Abic, Nathan Herszkowiez. Há três anos, a Abic apóia o desenvolvimento do equipamento feito por pesquisadores da Embrapa.
A língua eletrônica já despertou o interesse de várias empresas estrangeiras e também das principais torrefadoras de café do Brasil, segundo Herszkowiez.
"A nossa expectativa é que até o final deste ano já estaremos usando a nova metodologia no programa de qualidade da Abic", afirma. O equipamento recebeu em 2001 o prêmio Governador do Estado em SP, na categoria Invento Brasileiro.
O sensor gustativo da Embrapa possui sensibilidade mil vezes maior que a do ser humano para diferenciar os padrões básicos de paladar, doce, salgado, azedo e amargo.
Segundo o coordenador do projeto na Embrapa, Luiz Henrique Mattoso, o equipamento é formado por um conjunto de polímeros especiais que conduzem eletricidade e são sensíveis às substâncias responsáveis pelos diferentes tipos de paladar.
Embora em pequeno número, já existem empresas no Brasil que desenvolvem ou utilizam nanotecnologia em seus processos. A indústria paulista de microcomponentes Aegis investe até 25% de sua receita em pesquisa. "Tenho hoje seis funcionários, entre engenheiros e químicos, dedicados às atividades de P&D e uma pessoa na área de nanopolímeros condutores", afirma o presidente da empresa, Wanderley Marzano.
O empresário não revela detalhes do produto que pretende gerar com a pesquisa em nanotecnologia, mas um dos seus objetivos é dominar a técnica de sintetização de nanopolímeros, com aplicações na área médica.
A Aegis produz componentes semicondutores, como diodos e tiristores, que funcionam como chave para transformar corrente alternada em corrente contínua. Exporta 30% da produção para vários países.
"O retorno desse tipo de investimento vem a longo prazo, mas isso acaba se tornando um diferencial competitivo enorme para minha empresa, diz. Marzano reclama da falta de incentivos para o pequeno empresário investir em inovação. "Estou aguardando a liberação de recursos há quase um ano para um projeto já aprovado e com resultados práticos de exportação comprovados". A Aegis desenvolveu um novo componente semicondutor, a pedido de uma multinacional, que pode reduzir a importação no Brasil em valores anuais de US$ 1,5 milhão.
Na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) cientistas do Laboratório de Nanotecnologia Fotônica criaram a primeira empresa de base nanotecnológica do país, a "Ponto Quântico".
Integrada à Rede de Nanotecnologia Molecular e de Interfaces (Renami), a empresa funciona como uma extensão do laboratório. Seu primeiro produto, desenvolvido sob a coordenação do químico Petrus Santa Cruz Oliveira, é um dosímetro para medidas de radiação ultravioleta.
Aeronáltica indentifica oportunidades
A possibilidade de se projetar e construir veículos aeroespaciais (foguetes, satélites, aviões e espaçonaves) de tamanho reduzido (em torno de 20 centímetros), mas com elevado grau de autonomia e poder de processamento de informação promete revolucionar a tecnologia militar para reconhecimento aéreo e de guerra eletrônica.
Para não perder essa e outras oportunidades que se abrem com a nanotecnologia aplicada ao setor aeroespacial, a Aeronáutica brasileira começou a se mobilizar com vistas a elaborar um plano estratégico na área.
O primeiro movimento nessa direção será inaugurado no segundo semestre com a realização de um workshop inédito sobre a nanotecnologia aplicada ao setor aeroespacial.
"Haverá uma discussão inicial sobre as áreas que terão prioridade para receberem os investimentos necessários ao desenvolvimento de projetos usando os princípios da nanotecnologia", diz o tenente coronel da Aeronáutica, André César da Silva, coordenador do evento.
Segundo ele, numa segunda etapa, em 2005, as indústrias, as redes e os institutos que trabalham com a nanotecnologia serão convocados pela Aeronáutica para ampliar o debate sobre o tema, identificando as melhores alternativas de se integrar os esforços de pesquisa nessa área.
Com tradição estabelecida em ciência e tecnologia, a Aeronáutica acaba de demonstrar porque tem condições de liderar a P&D das aplicações aeroespaciais da nanotecnologia.
O artigo "Nanotecnologia: uma iniciativa recomendada pela Aeronáutica", de autoria do engenheiro André César, foi o vencedor do prêmio "Asas das Américas" de 2003. Concedido pela revista "Air & Space Power Journal", editada pela Air University Foundation, o prêmio é um reconhecimento aos melhores trabalhos sobre estratégias militares desenvolvidos no mundo.
Embora ainda não esteja atuando diretamente com projetos relacionados à nanotecnologia, a Aeronáutica já possui em alguns de seus centros de excelência em pesquisa e desenvolvimento aeroespacial, atividades precursoras dessa nova tecnologia.
No Instituto de Estudos Avançados (IEAv), do Centro Técnico Aeroespacial (CTA), em São José dos Campos, as diversas pesquisas em fotônica, em particular a separação isotópica por laser, são áreas que possuem estreita ligação com os estudos de nanotecnologia.
Pesquisas em materiais especiais para foguetes vêm sendo feitas há vários anos no Instituto de Aeronáutica de Espaço (IAE), em especial na área de materiais absorvedores de radiação eletromagnética, que deixam os aviões invisíveis ao sinal dos radares. "Essa tecnologia pode evoluir naturalmente para o estudo de materiais nanoestruturados, uma vez que seus processos já usam nanopartículas", afirma Silva.
Os pesquisadores do IEAv também iniciaram estudos sobre a sintetização de nanotubos de carbono para serem usados em sensores de navegação de veículos lançadores de satélite.
"Já dominamos a tecnologia dos sensores a fibra óptica, mas em dimensões nanométricas o sensor teria um tamanho mil vezes menor do que os sistemas de navegação atuais", diz o engenheiro André Silva, que também é chefe adjunto da Divisão de Fotônica e da área de Sensores a Fibra Óptica do IEAv.
Para desenvolver o mesmo sensor baseado em nanotecnologia, segundo Silva, os pesquisadores levariam cerca de cinco anos. As pesquisas nessa área, no entanto, de acordo com o engenheiro, só conseguem evoluir se estiveram apoiadas em uma base orçamentária sólida.
O investimento mínimo necessário para que os projetos de nanotecnologia aplicados ao setor aeroespacial tenham continuidade é estimado em R$ 2 milhões. Um valor irrisório se comparado aos US$ 243 milhões destinados pelo governo dos EUA ao seu Depto. de Defesa e aos US$ 33 milhões liberados à Nasa (Agência Espacial Americana) para seus projetos de nanotecnologia no ano de 2003.
Além de definir uma ação orçamentária específica para o setor aeroespacial e de defesa, segundo Silva, é indispensável a instituição de grupos de trabalho para fazer a prospecção dos potenciais existentes. (Gazeta Mercantil, 30/6)