Nave, a primeira particular a chegar a 100 km de altitude, inaugura era das empresas na corrida espacial
Salvador Nogueira escreve para a ‘Folha de SP’:
Às 12h15 desta segunda-feira (horário de Brasília), a nave americana SpaceShipOne pousou no deserto de Mojave (EUA) após realizar um feito histórico: tornar-se a primeira nave privada tripulada a romper a barreira do espaço.
Conduzida pelo piloto de testes Mike Melvill, a nave, lançada de um avião chamado White Knight, subiu a 120 metros acima da fronteira convencionada entre a atmosfera e o espaço (100 km) e depois planou tranqüilamente até o chão.
‘Foi uma experiência quase religiosa’, disse o piloto após o vôo suborbital, que durou 1h30.
O pouso, comemorado pelas milhares de pessoas que se amontoaram no aeroporto de Mojave (160 km a norte de Los Angeles), representou o sucesso do esforço comandado pelo engenheiro aeroespacial Burt Rutan (e sua companhia, a Scaled Composites) e patrocinado por Paul Allen, magnata co-fundador da Microsoft.
O financiamento veio através do projeto Tier One, no qual Allen já teria investido cerca de US$ 50 milhões.
Depois de fazer história com o vôo desta segunda-feira (o quarto da nave, que antes só havia alcançado 65 km), a equipe agora se prepara agora para buscar o Prêmio X Ansari – US$ 10 milhões a quem lançar uma nave espacial suborbital para três pessoas duas vezes num intervalo de duas semanas.
Embora tenha se tornado a favorita ao romper a fronteira do espaço, a SpaceShipOne teve nesta segunda-feira alguns problemas que podem adiar uma eventual tentativa de ganhar o prêmio, disputado por 27 equipes de sete países.
Segundo Melvill, os controles ficaram um pouco emperrados no lançamento, mas não o suficiente para que ele tivesse de abortar.
Isso levou a nave, no entanto, a andar cerca de 35 km fora do curso programado e não alcançar a altura planejada de 110 km. Um pedaço de cobertura protetora também teria saído do lugar.
Turismo espacial
A idéia do Prêmio X é baratear o acesso ao espaço e viabilizar o turismo espacial – feito hoje apenas com o envio de turistas à ISS (Estação Espacial Internacional) em naves russas Soyuz.
Um vôo desses custa US$ 20 milhões por turista, que até agora só foram dois: o americano Dennis Tito e o sul-africano Mark Shuttleworth.
Já as passagens comercializadas por algumas das equipes participantes do Prêmio X ficam por volta dos US$ 100 mil. A expectativa é a de que o barateamento faça crescer o mercado e estimule a evolução da tecnologia espacial.
‘Futuros vôos na SpaceShipOne poderão levar até seis passageiros a 150 km de altitude’, diz Rutan, que, além da nave, desenvolveu o avião Voyager – o primeiro a dar a volta ao mundo sem parar para reabastecimento, em 1986.
Os vôos suborbitais do Prêmio X são as coisas mais simples que se pode fazer em astronáutica.
Apenas dois astronautas cumpriram missões com esse perfil – Alan Shepard e Gus Grissom, os primeiros americanos a irem ao espaço. Seus sucessores, a começar por John Glenn, em 1962, realizaram vôos orbitais (em que a velocidade da nave atinge os 28 mil km por hora).
No caso dos programas espaciais russo e chinês, os primeiros vôos já foram orbitais (Iuri Gagarin, em 1961, e Yang Liwei, em 2003).
Vislumbrando o fim da competição, os organizadores da premiação já estão pensando em como manter a bola rolando.
Está em andamento um plano para criar uma competição anual entre as equipes do Prêmio X, chamada Copa Prêmio X.
A ser realizada no Novo México (o acordo já foi firmado), a disputa envolveria os grupos em esforços de lançamento para ver quem consegue levar mais gente, voar mais alto e mais rápido. Seria uma espécie de ‘Fórmula 1 espacial’.
Inspirada pela iniciativa do Prêmio X, a Nasa (agência espacial americana) também pensa em promover disputas similares.
‘Poderemos oferecer até US$ 30 milhões em prêmios para encorajar missões comerciais que possam orbitar a Terra ou alcançar a Lua’, disse, nesta segunda-feira, Michael Lembeck, do escritório de sistemas de exploração da Nasa.
A nova tendência é recomendação da comissão que avaliou recentemente a viabilidade do plano espacial de George W. Bush (enviar humanos à Lua até 2020 e então ir a Marte).
Piloto deve entrar para o ‘Guinness’
O vôo do veterano piloto de testes Mike Melvill, 62, a bordo da SpaceShipOne, além de ‘inaugurar’ o espaço para naves da iniciativa privada, deve entrar para o ‘Guinness’, o livro dos recordes.
Além disso, o piloto americano de origem sul-africana foi o primeiro civil a receber as pequenas asas de astronauta da Administração Federal de Aviação (FAA), a agência do governo americano que regulamenta o setor aéreo.
O céu estava muito preto acima de mim e ficava muito azul acima do horizonte’, disse Melvill, que, ao chegar ao solo, foi saudado por Buzz Aldrin, um dos primeiros a andar na Lua.
Melvill, conhecido por ser o detentor de recordes de altura e velocidade para diversos tipos de aeronave, tem mais de 6.400 horas de vôo em 111 tipos de avião e sete tipos de helicópteros. Como piloto profissional, testa de aviões de corrida a protótipos de jato.
O piloto disse ter aberto no auge do vôo um pacote de chocolates M&M's, para aproveitar a ausência de gravidade. ‘Os M&M's saíram girando como pequenas coisinhas brilhantes’, disse o piloto.
‘O vôo de Melvill abre novo capítulo na história, trazendo o espaço para perto de cidadãos comuns’, disse Patti Grace Smith, representante da FAA responsável pela homenagem.
O piloto, que também é vice-presidente da empresa responsável pelo vôo, a Scaled Composites, disse que pretende descansar por enquanto e deixar o espaço de lado. ‘Agora acho que vou parar com isso um pouco e andar na minha bicicleta’, afirmou Melvill. (Folha de SP, 22/6)