Arroz de ouro (Golden rice) e limitações de transformação molecular: A volta a biodiversidade natural, artigo de Nagib Nassar
Será que produzir esse tipo de arroz compensa os gastos financeiros?
Nagib Nassar é professor titular de Genética da UnB e editor do jornal cientifico :
O grande entusiasmo em torno do desenvolvimento de arroz de ouro (golden rice) através da transformação molecular não pode nos fazer esquecer de um fato importante: a pequena quantidade de B-carotino encontrado neste tipo transgênico comparado ao B-caroteno existente em fontes tradicionalmente baratas para populações pobres, como é o caso da batata doce.
Surge então a questão: Será que produzir esse tipo de arroz compensa os gastos financeiros?
A FAO/WHO recomenda, para a vida saudável de crianças de 1-3 anos, a ingestão diária de 400 ug da vitamina A, e, para adultos, 500 a 850 ug. O arroz de ouro tem 1,6 ug do B-carotina por gm do peso fresco.
A batata doce, o alimento mais barato e abundante para populações pobres, e disponível em todo o mundo, possui 11,4 ug por gm!!!
Como o índice de conversão de B-carotino a vitamina A é 6 por 1, será preciso a ingestão de 1,5 kg de arroz de ouro diariamente para ter o nível médio de vitamina A recomendado pela FAO!
A seleção natural durante milhões dos anos trouxe uma estrutura genética das plantas que é equilibrada pelas condições naturais onde elas vivem.
É difícil mudar a estrutura genética de plantas que vivem sob as mesma condições naturais. Isso nos alerta para o seguinte:
Temos que prestar maior atenção à biodiversidade natural e aos recursos genéticos naturais já existentes, e não deixar que se extingam, pois essa biodiversidade nos fornece, de forma barata, os genes de que precisamos.
Ela já contribuiu no passado, contribui no presente e contribuirá no futuro para uma alimentação mais saudável.