O astrônomo João Steiner é o responsável por um dos telescópios mais modernos do mundo
Herton Escobar escreve para 'O Estado de SP':
O astrônomo brasileiro João Steiner, de 54 anos, ganhou fama internacional nos últimos anos com a construção do observatório SOAR, um dos mais modernos do mundo, no alto dos Andes chilenos.
O que pouca gente sabe sobre esse simpático professor, entretanto, é que este é, na verdade, seu segundo telescópio. O primeiro ele construiu com as próprias mãos ainda nos tempos de colégio, com um espelho de 12 centímetros. 'Era uma curiosidade', conta. 'Não tinha noção de que um dia viraria astrônomo.' Mas virou, para a sorte do Brasil.
Sempre que um brasileiro olhar o universo pelo foco do SOAR, terá Steiner para agradecer. Foi dele a iniciativa de construir o telescópio, de 4,1 metros, em parceria com colegas americanos.
A idéia nasceu em 1993, pouco depois de ele voltar dos EUA, de um pós-doutorado na Universidade de Harvard. 'Percebi que não dava para a gente continuar jogando na segunda divisão. Tínhamos que partir para a primeira em algum momento', conta Steiner.
Hoje, ele divide seu tempo - principalmente - entre as aulas no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) e a direção do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP. 'É uma questão de ciência básica. Ou teríamos um telescópio de 4 metros ou a pós-graduação deixaria de ter sustentação no Brasil.'
O SOAR, ou Southern Astrophysical Research Telescope, foi inaugurado mais de dez anos depois, em 17 de abril, tendo o Brasil como sócio majoritário (31%).
'É um instrumento feito por nós; para nós. Não abrimos mão de nada que fosse de nosso interesse essencial', ressalta Steiner, presidente do conselho-diretor do consórcio que construiu e administra o telescópio.
Recentemente chegado do Chile, o professor perdeu a conta das viagens nacionais e internacionais que teve de fazer para colocar o SOAR no topo do Cerro Pachón, 2.700 metros acima do nível do mar.
Os seis anos de construção do telescópio ele descreve com uma única palavra: terrível. A fase mais difícil foi em 1999, durante a crise cambial do dólar, que fez o orçamento do projeto quase desaparecer.
'O SOAR ficou por um fio', lembra Steiner, com mistura de preocupação e alívio. O projeto só sobreviveu, diz, graças a uma 'atitude corajosa' do Ministério da C&T (MCT), que manteve viva a linha de financiamento.
'O que é incrível para um projeto de pesquisa básica, que não vai trazer benefícios diretos para a sociedade.' O telescópio custou mais de US$ 30 milhões, dos quais US$ 12 milhões vieram do Brasil. Ou, mais especificamente, do CNPq do MCT e da Fapesp.
Isso dá ao Brasil o direito de usar o telescópio por pelo menos 120 noites por ano, aproveitando as excelentes condições da altitude e do isolamento andino.
Os parceiros americanos do consórcio são o National Optical Astronomy Observatory (30%), a Universidade da Carolina do Norte (16,5%) e a Universidade Estadual de Michigan (12,5%), além do Chile, com 10% do tempo de observação, por ter cedido o território para o projeto.
'O futuro da pesquisa básica está nas nossas mãos', afirma Steiner. 'Sem esse telescópio, o mundo continuaria andando para a frente e a gente, caminhando para trás. Sem dúvida nenhuma.'
O maior telescópio nacional, de 1,6 metro, está no Observatório do Pico dos Dias, do Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA), em Itajubá (MG).
O Brasil também é parceiro dos Observatórios Gemini, de 8 metros, no Havaí e no Chile. Mas o tempo de observação é muito pequeno: apenas 14 noites.
Soberania e tecnologia - Na parceria com os americanos, Steiner fez valer os interesses do Brasil. 'Em uma negociação internacional você tem de saber o que quer; porque se não souber, eles sabem.'
Também não abriu mão de usar a mais alta tecnologia disponível, apesar das restrições orçamentárias do Brasil e das dúvidas de alguns parceiros.
Na concepção do brasileiro, não basta jogar na primeira divisão; tem de brigar pelo título. 'Quem quer competir na Fórmula-1 não pode andar de bicicleta', compara Steiner. 'Se o Hubble for desativado, o telescópio com a melhor qualidade de imagem do mundo será o SOAR.'
Seu espelho principal, de 4,1 metros de diâmetro e 10 centímetros de espessura, confeccionado nos EUA, é uma perfeição. Sua rugosidade é de apenas 10 nanômetros.
'Se o espelho fosse do tamanho do Brasil, sua maior montanha teria 6 milímetros de altura', traduz Steiner. Fora o espelho, quase todo o observatório foi 'made in Brazil', incluindo todo o projeto ótico e elétrico.
O aço é brasileiro, a cúpula foi construída em Piracicaba e seu anel de rotação, de 19 metros, no Jaguaré, em SP.
Inaugurado há menos de um mês, o SOAR ainda passa por uma fase de 'sintonia' antes de ser aberto aos pesquisadores. O comissionamento, segundo Steiner, deve ocorrer entre setembro e outubro.
'Há muita pressão e ansiedade dos cientistas, mas não queremos que o telescópio seja usado sem que esteja rigorosamente dentro dos padrões', explica o professor, exigente até o último detalhe.
Trabalho é a sua retribuição ao país
Steiner deu algumas escapulidas ao exterior, mas preferiu investir seu conhecimento aqui
Quanto mais os astrônomos exploram a grandiosidade do universo, mais óbvia é a insignificância do homem em meio às suas bilhões de galáxias e quase incontáveis estrelas.
Mas João Steiner não se incomoda com isso. Uma das grandes graças da astronomia, segundo ele, é trabalhar 'no maior laboratório do mundo' - vulgo universo. O fato de a Terra ser apenas uma gota d'água nesse oceano espacial só torna a pesquisa mais interessante.
'Nós já fomos o centro do universo. Agora somos habitantes de um planeta insignificante no contexto cósmico', aponta o professor do IAG. Planetas como a Terra são comuns no universo, garante, apesar de nenhum ter sido encontrado até agora fora do sistema solar.
'É apenas uma questão de tempo e tecnologia.' Pela mesma lógica, Steiner acredita na existência de vida extraterrestre. 'A vida é um fenômeno freqüente no universo. Só não digo vida como a nossa, porque não há razão para pensar que sejamos um paradigma.'
Astrônomo e físico há mais de 30 anos, casado e pai de três filhos, Steiner diz que não é um homem religioso. Acima de tudo, ele acredita na ciência, mas nem por isso vê a religião como inimiga. 'É um conflito geralmente mal colocado', acredita.
'Cada profissão dá ao homem certos vícios. E eu, como cientista, procuro estabelecer na racionalidade um instrumento de vida. Essa racionalidade, para mim, é a ciência, mas isso não quer dizer que ela se sobrepõe a outras. Seria uma arrogância. O fato de explicarmos a estrutura do universo não prova a inexistência de Deus.'
Além de seu amor declarado pela ciência, Steiner é um apaixonado pelo Brasil e pela USP, onde fez sua graduação, mestrado e doutorado. Já esteve em Harvard e até na Nasa, mas voltou. 'Achei que deveria voltar para batalhar aqui; fazer um trabalho de base', conta.
'Toda a educação que eu tive foi graças ao ensino público do país. É um investimento que a sociedade fez, e temos o compromisso de dar uma retribuição.'
Além de professor e pesquisador, já foi diretor do Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA) e secretário de Coordenação das Unidades de Pesquisa do MCT, entre outros cargos. Hoje dirige o conceituado Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP. Fora todo o trabalho no SOAR.
Nascido em São Martinho (SC), pequenina colônia alemã ao sul de Florianópolis, Steiner só aprendeu a falar português com 10 anos. Veio para SP fazer o vestibular em 1970 e, fora algumas escapulidas para os EUA, não saiu mais.
'Agora estou de volta à USP e daqui ninguém me tira', diz. Aposentadoria, então, nem pensar. 'Aposentar do quê? Quero é morrer fazendo ciência, daqui a 150 anos se possível.' (O Estado de SP, 9/5)