Seria a mesma coisa que dizer que o telefone de Graham Bell ou a luz elétrica de Thomas Alva Edison são os responsáveis pela disseminação do modelo de capitalismo fordista, chapliniano e desigual, para o resto do mundo, numa tentativa de 'conquista imperial'
Mensagem de Paulo Roberto de Almeida (pralmeida@mac.com; http://www.pralmeida.org):
Comento a carta do cientista da Embrapa, Luís Armando Zago Machado, ao JC e-mail (nº 2465, 13/2/04), sobre a matéria 'Norman Borlaug: 'Transgênicos são outra revolução'.
Creio que se pode concordar com apenas uma única e solitária frase em toda a carta do cientista Zago Machado, a respeito da matéria de jornal sobre o cientista americano e prêmio Nobel da paz, Norman Borlaug, aliás destacada em epígrafe pelo J-C e-mail, e que reproduzo novamente:
'O problema não está na produção de alimentos e sim na distribuição da renda.'
De fato, o problema da fome não se refere à produção e sim à distribuição de alimentos, obviamente não no sentido de sua limitação técnica, mas no da insuficiência de renda disponível para que certos grupos carentes possam se aprovisionar de modo adequado. Ou seja, trata-se de um problema social, não de uma impossibilidade material.
Mas isso é tudo o que merece aprovação num texto repleto de argumentos carentes de base empírica e em total desconformidade com a experiência histórica e a realidade econômica, observadas em muitos países do mundo a partir da introdução da chamada revolução verde, que teve como um de seus principais promotores o cientista americano.
Considerar que a 'revolução verde foi a grande propagadora do modelo agrícola dos EUA', e que, com isso, 'eles impuseram seu modelo agrícola dependente', como faz esse pesquisador da Embrapa - um paradoxo conceitual que equipara a técnica produtiva à organização social da produção - representa a mesma coisa que dizer que o telefone de Graham Bell ou a luz elétrica de Thomas Alva Edison são os responsáveis pela disseminação do modelo de capitalismo fordista, chapliniano e desigual, para o resto do mundo, numa tentativa de 'conquista imperial' que só encontra explicação nos velhos livros que defendem uma teoria conspiratória (talvez neoliberal) da história.
Considerar, por outro lado, que com essa revolução verde, 'o preço dos produtos agrícolas caíram (sic), assim como caiu a lucratividade dos produtores', representa uma curiosa aula de microeconomia surrealista, equivalente a dizer, por exemplo, que todo aumento da produtividade redunda, automaticamente, em perdas para os produtores, o que é um contrasenso que nenhum economista formado conseguiria defender.
Indignar-se com que 'produtos com milho, algodão, feijão e outros, que eram tipicamente da pequena propriedade, passaram a ser produzidos por grandes empresas agrícolas', como faz nosso missivista, é de causar espanto (econômico, político, social e até moral), já que um deslocamento produtivo como esse, de resto não dependente do tamanho da empresa e sim das condições de produtividade setorial, deveria ser saudado como benéfico à população em seu conjunto, não como algo que se deva lamentar.
Curioso reducionismo histórico, por sua vez, o que se esconde nesta frase: 'Em 30 anos deste modelo, vimos os pequenos agricultores se endividarem e abandonarem o campo, porque não conseguiam mais sua subsistência.'
Acho que nosso missivista não conhece a evolução técnica e social operada na estrutura econômica de todos os países, repito todos, desde o início da primeira revolução industrial, com um decréscimo constante, por vezes acelerado, da população economicamente ativa empregada nas atividades do primário e seu deslocamento, primeiro para o secundário, depois para o terciário.
Pequenos agricultores já estavam abandonando o campo muitas décadas antes de qualquer revolução verde - ainda que sob o impacto de outras revoluções tecnológicas - e continuaram a fazê-lo mesmo depois que aquela revolução esgotou suas possibilidades transformadoras três décadas após iniciada.
Um pouco de leitura de Simon Kuznets ajudaria nosso pesquisador a ver melhor esse itinerário de decréscimo gradual e constante dos 'pequenos agricultores', no Brasil e na terra de Monsieur José Bové, este, não um produtor francês rentável, mas praticamente um pensionista da Comissão Européia.
Igualmente incrível é esta afirmação: 'As pessoas foram obrigadas a ir para as grandes cidades e aceitar salários baixíssimos, o que também era o propósito do modelo. Criou-se, assim, um contingente de operários de reserva para as indústrias multinacionais.'
Vejam só: a revolução agrícola foi concebida e aplicada com a intenção perversa, certamente imperialista, de criar um imenso exército industrial para as empresas estrangeiras, sem que dele pudessem se aproveitar nossos bravos industriais manchesterianos, pagando salários de miséria, bem inferiores aliás, à remuneração e à qualificação profissional dadas pelas multinacionais tão desprezadas.
Não há, por outro lado, na carta do pesquisador da Embrapa, nenhum embasamento empírico, nenhuma estatística comparativa que possa confirmar uma frase como esta:
'Assim como cresceu a produção de alimentos, cresceu a porcentagem dos excluídos e famintos.'
O contrário deve ser provavelmente verdadeiro, mas certas pessoas necessitam de um grande contingente de famintos para justificarem suas teorias da exploração imperialista, desta vez (esta é inédita para mim) motivada e implementada pela revolução verde.
O imperialismo tem tanto a ver com a existência de famintos no campo e nas favelas urbanas do Brasil quanto o Espírito Santo com a propagação da Aids na África. Aliás, se esses 'excluídos' da revolução verde estivessem submetidos à 'exploração imperialista' certamente não seriam famintos.
Falando em Espírito Santo, vamos precisar da Sua grande e desinteressada ajuda para poder 'saber que impacto social causará cada OGM'.
Tarefa de Sísifo esta: não bastassem todos as restrições ecológicas e os controles ambientais que pretendem impor sobre a pesquisa com OGMs no Brasil, teremos de nos preparar também para um RISO, um relatório de impacto social, o que seria trágico se não fosse cômico.
Indo agora do cômico ao trágico, somos brindados com esta pérola: 'Se os OGM forem introduzidas da mesma forma que foi colocada (sic) a revolução verde, num modelo imperialista, milhares de pessoas serão transformadas em miseráveis. Em países como a China e a Índia que ainda tem expressiva população rural, este processo será mais severo.'
Os centenas de milhares - talvez milhões - de chineses e indianos que sobreviveram a fomes endêmicas, penúrias epidêmicas e a outras catástrofes naturais, nestas três ou quatro décadas de revolução verde, agradecem ao pesquisador brasileiro esta recomendação de sinal inverso e mandam avisar que vão aproveitar, sim, os benefícios da nova revolução dos OGMs para elevar-se um pouco mais acima de sua miséria ancestral e penetrar num mundo de novas conquistas produtivas e de melhorias qualitativas no processo de crescimento sustentável da produção agrícola (e já convidam o desconfiado pesquisador para um lauto banquete, feito de OGMs saudáveis e seguros, sem pesticidas ou defensivos tóxicos).
Ele também acha que, com os OGMs, 'ocorrerá aumento das migrações dos países miseráveis para a sede dos impérios'. Ele pode ficar tranquilo: os miseráveis do Terceiro Mundo dispensam OGMs para se colocar em marcha, e há muito tempo (aliás na mais completa ignorância das proezas da biotecnologia) já enfrentam jornadas terríveis e fronteiras hostis para tentar penetrar nas entranhas dos impérios.
Finalmente, a missiva se termina por uma afirmação intrigante: 'A tecnologia é, sem dúvida, uma alavanca para o desenvolvimento, mas é necessário traçar um modelo tecnológico que interesse a toda a humanidade.'
O que poderemos pensar ou fazer depois disto?: cesse tudo o que a antiga musa tecnológica canta?; interrompamos a marcha do progresso técnico?; reunamo-nos nos 'estados gerais' da humanidade para que possamos, antes de continuar a inventar desenfreadamente, decidir que modelo de desenvolvimento (com inclusão social) adotar? Cientistas nacionais: um pouco de internacionalismo tecnológico, por favor!
PS.: o missivista termina com um nota: 'Nota: Esta é a opinião do autor e não, necessariamente, da empresa em que ele trabalha'. Pois eu diria: ainda bem, do contrário eu começaria a desconfiar da alegada excelência da Embrapa.