O crescimento do número de Universidades particulares nos últimos 5 anos foi impressionante, mas faltou, para quem planejou, notar que a camada mais pobre da população não se beneficiou, nem teve o direito assegurado de ingresso nessas Universidades
Nagib Nassar, professor titular de Genética da Universidade de Brasília e editor do jornal cientifico http://www.geneconserve.pro.br. Artigo enviado pelo autor ao 'JC e-mail':
O senhor ministro da Educação recém empossado manifestou o seu desagrado em relação ao sistema de vestibular e anunciou a intenção de extinguí-lo gradativamente nas Universidades federais.
O argumento é que se trata de um sistema 'instituidor de privilégios', onde quem sobrevive ao funil são os alunos das classes de renda mais alta. Se o senhor ministro começar a mais sonhada reforma universitária pela abolição do vestibular, nada esperamos de bom, nada virá de correto!
A seleção de alunos para a fase universitária, através do vestibular, é o método mais democrático e eficiente, bem mais do que o dos EUA ou de alguns países europeus, onde o desempenho dos alunos na escola é decisivo para definir para onde vai o aluno.
Com o vestibular, alunos de todas as classes sociais têm oportunidades iguais de ingresso nas Universidades. Trata-se de uma questão de capacitação intelectual, independente da classe social.
Ingressando na Universidade, todos os alunos usufruem os mesmos recursos e possuem as mesmas oportunidades. O problema que deve ser enfocado é na situação social.
Já os alunos de classes mais pobres não conseguem bancar os custos de sua manutenção durante os estudos e, por muitas vezes, optam em abandonar os estudos para ingressar no mercado de trabalho ou têm de trabalhar, enquanto desenvolvem seus estudos, para manter o seu próprio sustento, bem como o de sua família, não rendendo o desejado ou pondo em prática/exercendo todas as suas potencialidades e, no final das contas, quem perde é o Brasil.
Se a idéia do senhor ministro for aplicada, criará gerações dos menos preparados nas Universidades brasileiras.
Se o sr. ministro quer aumentar o número de estudantes vindo de famílias e camadas mais pobres da sociedade, deve seguir o modelo de países socialistas da Ásia: obrigar, por lei, que Universidades privadas destinem uma porcentagem de suas matrículas a alunos pobres, isentos de cobrança ou pagamento de taxas educacionais e fornecendo bolsas da própria Universidade, tudo isto conforme o desempenho dos estudantes no 'vestibular'.
Essa sistemática não só muda o perfil dos estudantes nas Universidades privadas, mas obriga a execução de um vestibular mais sério, em lugar de aceitar alunos sem preparo através de provas simbólicas e insignificantes e mero mercantilismo!
Essa proposta garante uma melhor qualidade e maior quantidade de alunos e formandos brasileiros nas Universidades, dando-lhes oportunidades justas e compatíveis com suas habilidade mentais e poder aquisitivo.
Com apoio de bolsa universitária para alunos pobres, um país como a Índia conseguiu sustentar elementos altamente intelectuais, além de formar engenheiros e técnicos de computação que conquistaram o mercado mundial, inclusive no próprio EUA, onde fazem parte principal do corpo técnico da gigante Microsoft, levando aquele país ao ranking do segundo maior exportador de software no mundo, com valor anual de 10 bilhões de dólares (20 vezes mais do que o Brasil!).
Na área agronômica, a Índia conseguiu triplicar a produtividade de várias culturas, como, por exemplo, a mandioca, que pulou de 9 ton/ha em 1972 para 27 ton/ha em 2002!
O crescimento do número de Universidades particulares nos últimos 5 anos foi impressionante, mas faltou, para quem planejou, notar que a camada mais pobre da população não se beneficiou, nem teve o direito assegurado de ingresso nessas Universidades.