Identificação do gene suscetível à hanseníase tem participação de pesquisadores brasileiros
Identificada região do genoma onde se localizam os genes parkina e Glub (parkina co-regulado) implicados na suscetibilidade à hanseníase, doença causada por bactérias que afetam a pele e nervos dos doentes
O gene da Parkina foi, curiosamente, descrito há 5 anos como o responsável pela forma juvenil da doença de Parkinson.
Estudos conduzidos pelos pesquisadores Milton Ozório Moraes e Euzenir Sarno, do Laboratório de Hanseníase do Instituto Oswaldo Cruz da Fundação Oswaldo Cruz, com participação dos pesquisadores José Roberto Moraes e Maria Elisa Moraes, do Inca, a partir de pesquisa inicialmente realizada por Marcelo Mira, da PUC/PR, confirmaram que a região dos genes parkina e Glub (parkina co-regulado) deve, de fato, estar envolvida com a suscetibilidade à hanseníase, doença causada por bactérias que afetam a pele e os nervos dos doentes.
O cruzamento de dados de duas populações etnicamente distintas - a vietnamita e a brasileira - confirmando que a mesma região do genoma está ligada/associada à hanseníase valida o estudo de Mira.
Este é o primeiro trabalho na literatura que oferece um resultado sólido que descreve a base genética de uma doença infecciosa e, por isso, sua publicação oficial ocupou quatro páginas da revista científica Nature de 25 de janeiro, dia mundial da hanseníase.
Ele abre novas portas para o estudo de outras doenças complexas (autoimunes, inflamatórias e câncer).
O ponto de partida
O pesquisador da PUC-PR, foi o primeiro a localizar uma região de 6,4 milhões de nucleotídeos (unidades básicas do DNA), no cromossomo 6, como o ponto onde deveria estar o gene que confere suscetibilidade à doença.
Ele partiu do trabalho conduzido anteriormente pelo Depto. de Genética Humana da Universidade Mc Gill, em Montreal, Canadá, em colaboração com o Laboratório de Genética Humana da Universidade de Paris (França) e o Hospital de Doenças Dermatológicas de Ho Chi Min, no Vietnã.
Mira analisou famílias de vietnamitas afetados por hanseníase, pela técnica de rastreamento genômico, utilizando marcadores genéticos. Como o pedaço de DNA identificado era muito grande, apresentava 31 genes, Mira aprofundou a investigação.
É o que se vê no estudo publicado na edição de março da revista Nature Genetics, onde a área genômica envolvida com a doença é bem menor e seu mérito foi utilizar novos marcadores neste segmento do cromossoma 6.
Na nova etapa do estudo de Mira, 64 polimorfismos de base única (da sigla em inglês, SNPs), que se sobrepunham por toda extensão dos marcadores, foram identificados.
O resultado mostrou que 4 desses polimorfismos estavam ligados à hanseníase e se localizam justamente na região promotora (controla a ativação dos genes como se fosse um interruptor molecular), onde estão dispostos os genes Parkina e Glub.
A nova descoberta
A partir das análises genéticas da nova região identificada, em conjunto com os dados gerados na população vietnamita, chegou-se à conclusão de que apenas dois destes marcadores eram suficientes para capturar toda a informação relativa à associação com a doença.
De posse desse resultado, é possível planejar experimentos para testar a suscetibilidade genética em indivíduos saudáveis que estão em risco de contrair a doença (familiares dos doentes). Mas faltava consolidar o achado, para o que era necessário que o dado fosse reproduzido em outra população.
O trabalho desenvolvido pelos pesquisadores do IOC contou também com a participação dos grupos da Mc Gill e da Universidade de Paris, além da colaboração dos pesquisadores do Inca.
Eles partiram de uma densidade maior de marcadores - foram utilizados 81 novos marcadores - e verificaram que 17 indicavam novamente a ligação da região dos promotores de parkina e parkina co-regulado com a hanseníase. Um novo estudo concentrou-se em 15 dos 17 polimorfismos testados na população brasileira. Resultado: 13 deles foram validados e 9 foram significativamente associados à hanseníase.
O sucesso deste empreendimento confirmou a eficácia do uso da estratégia de 'zoom molecular' para o estudo de outras doenças complexas. A partir do rastreamento genômico mais marcadores vão sendo testados progressivamente, aumentando a resolução de uma região do genoma até atingir e localizar um ou mais genes responsáveis pela característica patológica.
Outro fato importante trazido pelo trabalho, é a ligação de doenças que aparentemente eram muito diferentes como Hanseníase e Parkinson.
Notas:
Parkinson é uma doença neurodegenerativa e hanseníase é uma doença em que o agente etiológico, Mycobacterium leprae, infecta o nervo. Então é possível que novos elementos, para entender o desencadeamento de ambas as doenças, possam ser trazidos à tona mais rapidamente.
Polimorfismos de base única (SNPs) são modificações pontuais onde ocorre a troca de uma base (uma letra química do DNA digamos um G por um A) em determinada posição no genoma, o que é observado em pelo menos 1% da população.
Um exemplo de polimorfismo usando como metáfora a língua portuguesa é a diferença que existe entre covarde ou alto-falante, em português do Brasil, e cobarde e a altifalante, em português de Portugal. Esse tipo de variação genética é responsável pela diversidade genética encontrada entre as pessoas, que se reflete pelas diferenças das características destes indivíduos (cor do cabelo, metabolismo de remédios, etc). (Assessoria de Imprensa do Instituto Oswaldo Cruz)